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Sem negociar tarifa, governo deixa mercado assumir impacto da Raízen

Setores industriais apontam proteção à Raízen como razão para o governo Lula manter tarifa de 18% sobre etanol dos EUA.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes5 min de leitura
Mão segurando mangueira de abastecimento no carro

A resistência do governo federal em reduzir a tarifa de importação de 18% sobre o etanol norte-americano gerou fortes reações de representantes da indústria nacional, especialmente dos setores siderúrgico, metalúrgico e de associações comerciais. Lideranças acusam o Palácio do Planalto de usar barreiras comerciais para proteger a Raízen, empresa controlada pela Cosan e Shell, em meio à pior crise financeira da história da companhia.

A tensão entre Brasil e Estados Unidos em torno da tarifa do etanol ocorre no mesmo período em que Donald Trump impõe tarifas de até 50% sobre exportações brasileiras, afetando setores como aço, alumínio e derivados. A expectativa de parte do empresariado era de que o governo Lula adotasse uma postura flexível com o etanol americano como moeda de troca nas negociações comerciais, o que não ocorreu.

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Reprodução/Canva.com

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Como funcionam as tarifas de etanol entre Brasil e EUA

Atualmente, o Brasil cobra 18% de imposto sobre o etanol importado dos Estados Unidos, enquanto os americanos aplicam uma taxa de apenas 2,5% sobre o etanol brasileiro. Essa assimetria foi criticada abertamente por autoridades dos EUA, que enxergam a política brasileira como uma barreira protecionista.

Segundo dados do BTG Pactual, o Brasil importou 192 milhões de litros de etanol em 2024, dos quais 109 milhões vieram dos EUA. A maior parte do produto vai para o Nordeste, região que enfrenta um déficit estrutural de produção e depende da logística portuária e de cabotagem.

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Raízen domina distribuição no Nordeste

A Raízen é líder no abastecimento de etanol no Nordeste, onde o mercado é mais vulnerável à concorrência externa por conta dos altos custos logísticos internos e baixa oferta regional. Estados como Maranhão, Piauí, Pernambuco e Ceará dependem diretamente da estrutura logística da empresa, incluindo o terminal portuário de Itaqui, no Maranhão, que funciona como hub para cargas na região Norte/Nordeste.

“Reduzir a tarifa do etanol americano quebraria o equilíbrio artificial que protege o mercado da Raízen no Nordeste”, afirma um executivo do setor que prefere não se identificar.

Preço do etanol americano seria competitivo sem a tarifa

De acordo com o especialista Amance Boutin, da consultoria Argus, o etanol nacional custa em média R$ 3,53 por litro, enquanto o etanol dos EUA custaria cerca de R$ 3,10 sem a tarifa. Com a atual alíquota de 18%, o preço do produto importado sobe para R$ 3,66, tornando-o menos vantajoso economicamente.

Ou seja, sem a tarifa, o etanol dos EUA seria mais barato e competitivo, ameaçando a posição da Raízen em mercados estratégicos.

Raízen enfrenta prejuízo bilionário e ameaça recuperação judicial

Mão segurando celular com logo da raízen. Ao fundo infográfico azul e preto
Imagem: rafapress/ Shutterstock

Dívida crescente e prejuízos acumulados

A Raízen encerrou a safra 2024/25 com um prejuízo de R$ 4,2 bilhões. Em março, a empresa revelou dívida líquida de R$ 34,3 bilhões, quase 80% maior que o valor registrado no mesmo período do ano anterior. A controladora Cosan já anunciou um plano de desinvestimento de R$ 15 bilhões até o final de 2025 para tentar equilibrar as contas.

“O mercado já precifica o risco de recuperação judicial da companhia”, apontam analistas da Faria Lima.

Cosan pressiona governo para manter proteção comercial

Fontes ligadas ao setor de energia afirmam que o grupo Cosan tem feito pressão direta sobre autoridades do Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio, liderado por Geraldo Alckmin, para manter a tarifa de 18% sobre o etanol dos EUA. A medida protegeria o caixa da Raízen, que depende da manutenção da margem operacional no Nordeste.

Indústria cobra reciprocidade após tarifaço de Trump

Setores afetados exigem contrapartida do governo

Com o tarifaço anunciado por Donald Trump — que aumentou para 50% as tarifas sobre aço e alumínio brasileiros — setores da indústria começaram a pressionar o governo para oferecer alguma concessão ao mercado norte-americano, como forma de reativar o canal de diálogo e negociação.

Entre os produtos afetados estão:

  • Aços especiais e inoxidáveis;
  • Laminados de aço;
  • Tubos e conexões metálicas.

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Esses segmentos são responsáveis por bilhões de dólares em exportações anuais e agora veem a competitividade ameaçada pelas medidas unilaterais de Washington.

“O governo brasileiro deveria negociar a redução da tarifa do etanol como forma de abrir espaço para rever os ataques tarifários do Trump”, argumenta um representante do setor siderúrgico.

Ministério descarta redução da tarifa

Apesar da pressão, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços indicou que a redução da tarifa do etanol não está na mesa de negociação neste momento. A avaliação interna é de que mexer na estrutura tarifária do etanol traria riscos à estabilidade do abastecimento nacional, especialmente em regiões dependentes da Raízen.

O que dizem os especialistas sobre a tarifa de 18%?

Celular com logotipo da empresa brasileira de energia Raizen S.A. na tela em frente ao seu site comercial.
Imagem: T. Schneider | shutterstock

Medida é vista como proteção disfarçada

Economistas e especialistas em comércio exterior avaliam que a manutenção da tarifa de 18% sobre o etanol americano é uma medida com forte viés político e setorial.

“Não há justificativa técnica sólida para manter essa tarifa tão alta. O argumento da proteção à produção nacional não se sustenta num país com superávit energético e alta capacidade produtiva como o Brasil”, aponta a economista Juliana Bittencourt, da UFRJ.

Nordeste continua refém da logística e da Raízen

A infraestrutura no Nordeste é outro entrave. A região enfrenta déficit logístico crônico, com dutos, ferrovias e cabotagem caros e insuficientes. Isso obriga distribuidoras a operarem com margens apertadas e aumenta a dependência de grandes grupos como a Raízen.

“Se a logística fosse eficiente, o etanol do Centro-Sul chegaria ao Nordeste com custo competitivo. Mas não chega. Por isso, a importação do etanol americano seria um alívio, se a tarifa fosse reduzida”, afirma Amance Boutin.

Imagem: Pavel Kubarkov / Shutterstock.com

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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