Sabesp anuncia investimento bilionário em Guarapiranga após punição por esgoto
A represa Guarapiranga, que abastece 4 milhões de pessoas — a maioria na capital paulista —, está no centro de um dos maiores programas de modernização do sistema de saneamento básico do estado de São Paulo. O plano, liderado pela Sabesp (Companhia de Saneamento Básico do Estado de São Paulo), visa evitar novos vazamentos e garantir a universalização da coleta e tratamento de esgoto em regiões próximas à represa.
A iniciativa, chamada de Programa Nossa Guarapiranga, será oficialmente lançada nos próximos dias, mas já conta com obras em andamento. Até 2029, a estimativa é de um investimento total de R$ 2,57 bilhões.
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Vazamento expôs fragilidades do sistema
No dia 31 de maio de 2025, um vazamento na represa foi flagrado pela Associação Nossa Guarapiranga (AnGua), acendendo um alerta sobre os riscos ambientais e sanitários. Segundo a Sabesp, a falha foi causada por uma interrupção no fornecimento de energia elétrica na estação elevatória Riviera.
O episódio motivou cobranças mais intensas do Ministério Público de São Paulo (MPSP), que desde 2020 pressiona a companhia por medidas eficazes para evitar esse tipo de ocorrência.
O que será feito na Guarapiranga
O Programa Nossa Guarapiranga propõe uma transformação estrutural na região da bacia hidrográfica da represa. Entre as principais ações previstas estão:
- Criação de 23 novas estações elevatórias
- Instalação de 650 km de novas redes coletoras
- Conexão de 65 mil imóveis regulares
- Inclusão de 25 mil imóveis em áreas informais, com apoio de prefeituras
- Modernização de 6 estações elevatórias, das quais duas já foram reformadas
Cronograma e recursos
Apenas entre 2025 e 2026, devem ser contratadas obras no valor de R$ 958 milhões. Atualmente, já estão em andamento R$ 150 milhões em obras na região. Segundo a Sabesp, esse investimento inicial é essencial para acelerar a implementação das redes e a modernização das estações.
O diretor de Engenharia e Inovação da Sabesp, Roberval Tavares, afirma que o objetivo é universalizar o saneamento em toda a bacia da Guarapiranga, incluindo imóveis informais nas cidades de São Paulo, Embu das Artes, Embu Guaçu e Itapecerica da Serra.
Cobrança mínima e isenção em áreas vulneráveis
Um dos pontos importantes do programa é a aplicação do princípio da disponibilidade, previsto na legislação federal. Ele autoriza a cobrança de uma tarifa mínima — atualmente R$ 37,96 mensais — de imóveis residenciais que, mesmo tendo acesso à rede, optam por não se conectar a ela.
Para moradores de áreas informais ou de baixa renda, a política será diferente. A Sabesp estuda, em parceria com prefeituras, formas de garantir isenção de tarifa nesses casos, promovendo justiça social no acesso ao saneamento.
Modernização das estações elevatórias e combate a furtos
A modernização das estações elevatórias é uma das frentes mais importantes do plano. A ETE (Estação de Tratamento de Esgoto) Embu, no município de Embu Guaçu, por exemplo, passou por uma reforma completa após sofrer com furtos e vandalismo.
Foram instaladas três bombas — uma delas movida a gás e usada como reserva em casos de falta de energia elétrica — e construído um muro alto ao redor da estrutura para impedir novas invasões.
Além da ETE Embu, outras estações da região serão reformadas até 2026, com tecnologia mais eficiente e maior resistência a falhas operacionais e quedas de energia.
Expansão da ETE Barueri vai absorver demanda da Guarapiranga
A ampliação da Estação de Tratamento de Esgoto de Barueri, que hoje já é uma das maiores da América Latina, é outro ponto crucial. A capacidade atual de tratamento é de 16 metros cúbicos por segundo. Com a expansão, prevista para ser concluída até 2027, a estação passará a tratar 22 metros cúbicos por segundo.
Essa ampliação é necessária para absorver o aumento de esgoto gerado com a conexão de novos imóveis à rede, principalmente nas margens esquerda e direita da represa.
Como será feita a distribuição das novas estações
Atualmente, mais de 30 estações de esgoto operam na área da represa Guarapiranga. Com o programa, outras 23 unidades serão construídas, ampliando significativamente a capacidade de coleta e transporte de esgoto até as estações de tratamento.
A localização estratégica dessas novas estações foi planejada para garantir o menor impacto possível no meio ambiente e o melhor aproveitamento da infraestrutura existente.
Desafios nas áreas informais
Conectar os 25 mil imóveis localizados em ocupações irregulares ou regiões não formalizadas é um dos maiores desafios. A Sabesp está em negociações com prefeituras e órgãos públicos para viabilizar a extensão da rede a esses locais, respeitando legislações urbanísticas e ambientais.
O objetivo é garantir que, mesmo nas áreas mais vulneráveis, o saneamento básico seja uma realidade — o que trará impactos positivos também na qualidade da água da represa, na saúde pública e na preservação ambiental.
Meta é universalizar saneamento em todo o estado
Segundo Roberval Tavares, a meta da Sabesp não se limita à Guarapiranga. O programa faz parte de uma estratégia mais ampla da companhia para universalizar o acesso ao saneamento em todo o estado de São Paulo, com foco em regiões que historicamente enfrentam deficiências nesse setor.
A Guarapiranga, por ser uma represa de extrema importância para o abastecimento da capital, ocupa papel central nesse esforço.
Impactos ambientais e sociais esperados
Com a conclusão do programa, a expectativa é que a qualidade da água da represa melhore significativamente, reduzindo a presença de esgoto in natura e resíduos sólidos. Além disso, a universalização do saneamento tem potencial para:
- Reduzir doenças de veiculação hídrica, como diarreias e hepatite A
- Diminuir a desigualdade no acesso a serviços básicos
- Valorizar imóveis e regiões historicamente desassistidas
- Fortalecer a segurança hídrica da Grande São Paulo
Considerações finais
O Programa Nossa Guarapiranga representa um marco na história do saneamento básico em São Paulo. Com investimento bilionário, foco em eficiência e inclusão social, a iniciativa busca não apenas evitar novos vazamentos como o ocorrido em maio, mas transformar a relação da população com o território onde vive — promovendo dignidade, saúde e sustentabilidade.
A meta ambiciosa da Sabesp exige fiscalização rigorosa, parceria com os municípios e apoio da sociedade civil. O sucesso do projeto pode servir de modelo para outras regiões do país que enfrentam desafios semelhantes em áreas urbanas e periféricas.