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Ataque a carteiras Coldcard desvia US$ 110 milhões em bitcoins de investidores

Hackers exploram falha em carteiras frias de bitcoin e roubam US$ 110 milhões. Entenda como o ataque ocorreu e como proteger suas criptomoedas.

Bruna MachadoPor Bruna Machado8 min de leitura
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Imagine trancar o seu dinheiro em um cofre de aço escovado, sem nenhuma conexão com a internet, e guardá-lo no fundo do gaveteiro. Você tem a certeza de que a chave física está em seu bolso e de que nada no mundo digital pode tocar nessa reserva. No entanto, dias depois, o cofre continua fechado, mas o dinheiro simplesmente desapareceu.

Foi exatamente essa a sensação de milhares de investidores de criptomoedas nos últimos dias. Um ataque hacker de proporções históricas resultou no desvio de aproximadamente 1.755 bitcoins — o equivalente a mais de US$ 110 milhões (cerca de R$ 600 milhões) — de carteiras físicas (hardware wallets). Esses dispositivos eram considerados o padrão-ouro de segurança no mercado financeiro digital.

O episódio acendeu um sinal de alerta global e abalou a confiança de investidores no Brasil e no mundo. Mas como um dispositivo desconectado da rede pôde ser invadido? O bitcoin em si perdeu a segurança? Se você possui criptomoedas ou pensa em investir, entenda os detalhes desse caso, o funcionamento dessas carteiras e o que deve fazer para blindar o seu patrimônio.

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

No início de agosto de 2026, pesquisadores da empresa de análise de dados em blockchain Galaxy Research identificaram uma movimentação atípica no ecossistema do Bitcoin. Em apenas 41 minutos, mais de 1.000 bitcoins sumiram de 1.196 endereços digitais sem o consentimento dos proprietários.

Rapidamente, o volume total do roubo subiu para 1.755 bitcoins, afetando cerca de 5.000 carteiras do modelo Coldcard, produzidas pela fabricante canadense Coinkite. O caso ganhou repercussão imediata porque a Coldcard é amplamente reconhecida na comunidade de criptomoedas como uma das opções mais robustas e focadas em privacidade do mercado.

Diferente do que muitos imaginaram no primeiro momento, a rede do Bitcoin não foi hackeada. O protocolo principal permanece intacto. A vulnerabilidade que permitiu o roubo não estava na infraestrutura da blockchain, mas sim em um erro de programação interno no software dos próprios dispositivos de armazenamento.

Como funcionam as carteiras digitais e por que a Coldcard era considerada “inviolável”?

Para entender o golpe, primeiro é preciso compreender como funciona a guarda de criptomoedas. Na prática, você não armazena moedas dentro de um aparelho ou aplicativo; você armazena chaves privadas, que são os códigos matemáticos necessários para autorizar a movimentação de moedas registradas na blockchain.

Existem duas formas principais de guardar essas chaves:

  • Hot wallets (carteiras quentes): Aplicativos instalados em celulares, computadores ou mantidos dentro de corretoras (exchanges). Elas permanecem conectadas à internet, o que as torna práticas para o dia a dia, porém mais suscetíveis a ataques cibernéticos e malwares.
  • Cold wallets (carteiras frias): Dispositivos físicos que lembram um pen drive ou uma calculadora. Eles mantêm as chaves privadas completamente isoladas de qualquer conexão com a internet.

A estratégia do “air-gap”

A linha Coldcard leva a segurança a um nível avançado ao utilizar uma tecnologia chamada air-gap (lacuna de ar). Isso significa que o aparelho não possui conexão Wi-Fi, Bluetooth nem porta USB para dados ao transacionar. As autorizações de transferência são feitas por meio de leitura de cartões MicroSD ou códigos QR.

Teoricamente, se o aparelho nunca encosta na internet, nenhum hacker consegue invadi-lo à distância. O problema é que a falha não aconteceu na comunicação do aparelho, mas na sua “mente matemática”.

Onde estava o erro: entenda a falha de aleatoriedade da chave de recuperação

Quando você configura uma carteira física pela primeira vez, o sistema gera uma frase de recuperação (geralmente uma sequência aleatória de 12 ou 24 palavras em inglês, conhecida tecnicamente como seed phrase ou norma BIP-39). É essa sequência de palavras que dá origem a todas as chaves privadas da carteira.

Para que a frase seja segura, o software precisa utilizar um gerador de números aleatórios extremamente complexo. A segurança do sistema baseia-se na imprevisibilidade: existem mais combinações de frases de 24 palavras do que átomos no universo observável. Em tese, acertar uma combinação por tentativa e erro é matematicamente impossível.

O “vazamento” matemático

O erro presente em versões antigas do firmware da Coldcard foi ter reduzido drastically essa aleatoriedade. Por causa de uma falha no código de programação do software, o dispositivo passou a utilizar um conjunto muito menor e previsível de combinações na hora de gerar as palavras.

Ao perceberem esse padrão viciado, os invasores utilizaram supercomputadores para rodar testes automatizados e reconstruir exatamente quais sequências de palavras o software da Coldcard gerava. Assim que a combinação exata de uma vítima era descoberta, os hackers clonavam a carteira em seus próprios sistemas e transferiam todo o saldo de bitcoins para seus endereços pessoais — tudo isso sem precisar tocar fisicamente no aparelho da vítima.

O reparo resolve o problema de quem foi atingido?

A fabricante Coinkite lançou uma atualização emergencial de software para corrigir a geração de números aleatórios em novos dispositivos. Contudo, o reparo não devolve o dinheiro roubado e nem protege quem continuou com as chaves antigas.

Se a sua chave de recuperação foi gerada por uma versão vulnerável do software, a combinação de palavras correspondente já se tornou matematicamente previsível. Não adianta apenas atualizar o aparelho; a “fechadura” matemática daquela conta específica ficou comprometida para sempre.

O que as vítimas e usuários precisam fazer imediatamente

Para quem utiliza os dispositivos afetados, a única recomendação de segurança é agir com rapidez:

  1. Atualize o firmware: Baixe o software oficial diretamente do site do fabricante.
  2. Crie um novo cofre: Gere uma frase de recuperação totalmente nova a partir do sistema atualizado (ou em um dispositivo diferente).
  3. Mova os ativos: Transfira imediatamente todos os seus bitcoins da carteira antiga para esse novo endereço recém-criado.

Quem teve os bitcoins drenados antes dessa transferência infelizmente enfrenta perdas irreversíveis. Por conta da natureza descentralizada e pseudônima do Bitcoin, não existe um órgão central, suporte técnico ou banco para cancelar transações ou estornar valores.

Quais os impactos e as lições desse ataque para o mercado brasileiro?

O mercado de criptomoedas no Brasil cresceu significativamente nos últimos anos. Com a regulamentação do setor pela Lei nº 14.478/2022 e a supervisão do Banco Central, a adoção de ativos digitais por brasileiros aumentou expressivamente, acompanhada do crescimento do uso de carteiras frias por quem busca a chamada “custódia própria” (self-custody).

O caso deixa lições fundamentais para investidores iniciantes e avançados no contexto brasileiro:

1. Custódia própria exige responsabilidade ativa

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Trazer a responsabilidade da guarda das moedas para si mesmo elimina os riscos de falência de corretoras, mas exige atenção contínua. Manter o firmware de dispositivos físicos sempre atualizado e acompanhar os canais oficiais de comunicação dos fabricantes é parte fundamental da rotina de quem faz a própria custódia.

2. A regra de ouro da diversificação

Guardar todo o patrimônio em um único modelo de carteira ou sob uma única frase de recuperação expõe o investidor a um ponto único de falha (Single Point of Failure). Analistas do setor recomendam diversificar os métodos de armazenamento e considerar configurações de múltiplas assinaturas (multisig), nas quais a movimentação dos fundos exige a autorização de dois ou mais dispositivos de fabricantes diferentes.

3. Diferença entre a tecnologia Blockchain e o software do ecossistema

A blockchain do Bitcoin continuou funcionando perfeitamente durante todo o evento, processando blocos a cada dez minutos sem nenhuma alteração no código principal. A vulnerabilidade foi restrita ao software de uma marca específica de carteiras. Compreender essa distinção é essencial para avaliar os reais riscos de investimento e não confundir falhas de programas de terceiros com a segurança da moeda em si.

Dúvidas frequentes sobre o ataque às carteiras de bitcoin

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Deixar os bitcoins na corretora (exchange) é mais seguro do que em uma carteira física?

Não necessariamente. Deixar ativos na corretora expõe o investidor aos riscos de falência da empresa, bloqueios judiciais e invasões na própria plataforma. As carteiras físicas continuam sendo a opção mais segura do mercado para médio e longo prazo, desde que os dispositivos sejam atualizados e configurados seguindo todas as boas práticas de segurança recomendadas.

Como sei se a minha carteira Coldcard foi afetada?

A falha afetou dispositivos que geraram a frase de recuperação (seed phrase) em versões antigas do firmware da Coinkite. Se você configurou sua carteira usando versões anteriores ao patch de correção, sua frase pode estar em risco. Verifique o número da versão instalada no seu dispositivo e confira as orientações do fabricante.

Existe alguma possibilidade de recuperar bitcoins roubados em um ataque hacker?

É extremamente difícil. As transações na rede do Bitcoin são irreversíveis por natureza. A única forma de reaver os valores é caso empresas de análise forense consigam rastrear o caminho das moedas até uma corretora centralizada que exija identificação (KYC) e aceite congelar os fundos por ordem judicial.

Conclusão: qual deve ser o seu próximo passo?

O roubo de US$ 110 milhões em bitcoins serve como um lembrete rigoroso de que, no mercado financeiro digital, a segurança nunca é um estado estático, mas sim um processo diário. Nem mesmo os equipamentos mais isolados estão imunes a erros de desenvolvimento em seus programas originais.

Se você possui criptomoedas em carteiras físicas, aproveite este momento para realizar um auditoria na sua estratégia de segurança. Verifique se os seus dispositivos estão atualizados com as últimas versões de firmware disponibilizadas pelos fabricantes, nunca digite suas frases de recuperação em computadores ou celulares e estude a implementação de esquemas de múltipla assinatura (multisig) para proteções de valores elevados.

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Bruna Machado

Autor

Bruna Machado

Bruna Cassana é gaúcha, natural de Pelotas, e atua como redatora no Seu Crédito Digital. Curiosa por natureza, está sempre conectada às tendências da web e às principais novidades sobre finanças, benefícios sociais e tecnologia. Com olhar atento às transformações digitais e linguagem acessível, Bruna contribui para informar e orientar leitores em decisões do cotidiano.

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