De motoristas de app a famílias: IA pode baratear seguros no Brasil
O mercado de seguros brasileiro passa por uma revolução silenciosa. Avanços em inteligência artificial e análise de dados estão transformando a forma como seguradoras definem preços, avaliam riscos e oferecem proteção à população.
Essa transformação tecnológica promete tornar os seguros mais acessíveis para novos perfis de clientes — desde motoristas de app até famílias de baixa renda —, reduzindo custos, personalizando apólices e combatendo fraudes que impactam no valor final dos contratos.

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Seguro ainda é privilégio no Brasil e o que a IA pode mudar
Acesso limitado à proteção
Mesmo com uma população de mais de 200 milhões de pessoas, o Brasil ainda tem uma baixa penetração de seguros. No caso do seguro automotivo, por exemplo, apenas 30% da frota de veículos circula com proteção contratada, segundo estimativas do setor.
Esse cenário está diretamente ligado ao custo elevado, à rigidez dos modelos tradicionais e à falta de informação sobre o produto entre parte da população.
Tecnologia como solução para democratizar o seguro
As seguradoras têm investido na digitalização dos processos e no uso de algoritmos inteligentes para construir ofertas mais simples, flexíveis e acessíveis. Com isso, buscam alcançar consumidores que até pouco tempo atrás estavam à margem do sistema.
A meta é transformar o seguro em um produto cotidiano, fácil de contratar e que atenda necessidades reais — com custos proporcionais ao uso, perfis personalizados e agilidade em caso de sinistros.
A nova modelagem da Youse
Precificação baseada em IA e comportamento
A Youse, seguradora digital do grupo Caixa Seguradora, apresentou recentemente um novo modelo de precificação para seguros de automóveis, desenvolvido em parceria com a consultoria Milliman. A proposta é unir tecnologia, dados e análise comportamental para estimar o risco de forma mais justa e personalizada.
Essa modelagem considera variáveis como perfil do motorista, tipo de veículo e dados regionais. Com isso, é possível adaptar o preço ao risco real do cliente, sem depender apenas de critérios genéricos como idade, sexo ou histórico de sinistros.
Ajustes dinâmicos e promoções inteligentes
O novo sistema também permite o lançamento de campanhas promocionais ajustadas em tempo real, além de facilitar alterações de tarifas conforme a performance do segurado. Segundo a Youse, o modelo será ampliado para toda a base de clientes e parceiros ao longo dos próximos meses.
Para João Valli, diretor de Produtos e Precificação da empresa, esse avanço reforça a proposta da marca: usar tecnologia e experiência digital para oferecer um seguro mais próximo da realidade dos consumidores.
88i: seguros flexíveis para motoristas de app
Cobertura por quilometragem
A seguradora 88i, especializada em seguros sob demanda, tem como um de seus principais públicos os motoristas de aplicativos como a Uber. Em parceria com a plataforma, oferece seguros cobrados por quilômetro rodado, com valores a partir de R$ 0,017 por km.
Esse formato elimina mensalidades fixas e permite que o motorista ative ou pause a cobertura quando desejar, pagando apenas pelos períodos em que está realmente trabalhando.
Cobertura de renda e proteção de mercadorias
Além da proteção veicular tradicional, o seguro também cobre a perda de renda em caso de afastamento por acidente ou doença. São oferecidas diárias por incapacidade de até 15 dias. Já empresas de entrega podem proteger as mercadorias transportadas, em caso de roubo ou dano.
Segundo a 88i, mais de 10 milhões de entregas já foram seguradas por meio da parceria com a Uber, e cerca de 80 mil motoristas contratam mensalmente os serviços da plataforma.
Para Rodrigo Ventura, CEO da 88i, o modelo tradicional de seguros não conversa com as necessidades desse público. A alternativa digital e personalizada é a chave para aumentar a inclusão no setor.
Azos: digitalização e combate a fraudes
Detecção de fraudes com IA
A seguradora Azos se destaca no segmento de seguros de vida. Seu diferencial está no uso de algoritmos de inteligência artificial para cruzar centenas de sinais em tempo real, identificando tentativas de fraude e agilizando o processo de emissão e pagamento de sinistros.
A empresa afirma que 95% das propostas são avaliadas em até 24 horas e que algumas apólices são emitidas automaticamente em apenas 5 segundos. Além disso, 60% dos sinistros são finalizados em até 8 dias úteis, após o envio da documentação.
O impacto das fraudes no preço dos seguros
Fraudes têm um impacto significativo no custo dos seguros para todos os consumidores. Segundo a CNseg (Confederação Nacional das Seguradoras), mais de R$ 2 bilhões em fraudes foram evitados apenas no primeiro semestre de 2024, um crescimento de 29,2% em relação ao mesmo período do ano anterior.
Boa parte das tentativas ocorre logo após a contratação da apólice. No seguro de vida individual, por exemplo, 41% das fraudes aconteceram em menos de um ano. Esse tipo de prática eleva a sinistralidade e pressiona as seguradoras a aumentarem os prêmios cobrados.
Como a IA melhora a experiência do cliente
Contratação mais ágil e simplificada
A inteligência artificial também está sendo usada para facilitar a jornada do cliente. Com o uso de bots, análises preditivas e interfaces intuitivas, as seguradoras conseguem tornar a contratação mais rápida e menos burocrática.
Em muitos casos, não é mais necessário preencher longos formulários ou passar por entrevistas extensas. O cruzamento automatizado de dados públicos e privados já permite uma avaliação precisa do perfil do consumidor em poucos segundos.
Resolução de sinistros mais eficiente
Na outra ponta do processo, o uso de IA acelera a análise de documentos enviados, identifica inconsistências automaticamente e libera os pagamentos de forma mais rápida. Isso é essencial para garantir que o segurado tenha seu problema resolvido no menor tempo possível, especialmente em momentos de dificuldade.
Personalização como tendência no setor
Seguro sob medida para cada perfil
Com a digitalização, as seguradoras podem oferecer seguros modulares e personalizáveis. O consumidor pode escolher exatamente o que deseja contratar — seja uma cobertura parcial do carro, proteção de celular, renda emergencial, ou até um seguro por tempo de uso.
Esse modelo, mais parecido com uma “assinatura” do que com um contrato anual tradicional, tende a conquistar novos perfis de clientes, como freelancers, autônomos e jovens de baixa renda.
Segmentos de mercado ainda pouco explorados
Com o uso de IA, as seguradoras conseguem identificar nichos antes ignorados, como entregadores, profissionais da economia criativa ou até pequenos empreendedores. Com o crescimento dessas categorias, há um enorme potencial de expansão para o setor de seguros no Brasil.
O futuro dos seguros no Brasil
IA como pilar da nova era do seguro
A combinação de IA, big data e digitalização aponta para um novo paradigma no setor de seguros. Empresas que conseguirem usar esses recursos de forma ética, transparente e eficaz sairão na frente na corrida por um mercado mais abrangente e sustentável.
A experiência do cliente será o diferencial. Rapidez, preço justo e flexibilidade serão determinantes para fidelizar usuários e ampliar a base de segurados no país.
Regulação e responsabilidade no uso da tecnologia
Apesar dos benefícios, o avanço tecnológico também exige vigilância regulatória. A coleta e o uso de dados sensíveis devem seguir padrões éticos rigorosos, e o uso de IA não pode servir como justificativa para práticas discriminatórias.
A atuação da Susep (Superintendência de Seguros Privados) e de órgãos de proteção ao consumidor será essencial para equilibrar inovação e segurança jurídica no setor.
A entrada definitiva da inteligência artificial no mercado de seguros brasileiro marca o início de uma transformação com potencial para beneficiar milhões de pessoas. A redução de custos, a personalização de apólices e a agilidade na resolução de sinistros prometem tornar o seguro mais acessível e presente na vida dos brasileiros.
De motoristas de app a famílias de baixa renda, os efeitos já começam a aparecer. Ao mesmo tempo, o uso ético e inteligente da tecnologia será o fator decisivo para que essa evolução se consolide como um avanço real — e não apenas uma tendência passageira.