A discussão sobre taxação de grandes fortunas voltou ao centro do debate econômico brasileiro após a divulgação de um estudo internacional que propõe um novo modelo de tributação. Diferente das propostas tradicionais, o chamado imposto mínimo sobre riqueza surge como uma alternativa para corrigir distorções históricas do sistema tributário nacional, especialmente no topo da pirâmide. A medida pode gerar bilhões em arrecadação e ampliar a progressividade fiscal, tema sensível em um país marcado por desigualdades.
Estudo aponta arrecadação de R$ 30 bilhões com imposto sobre fortunas
Proposta de imposto mínimo sobre grandes fortunas pode gerar até R$ 30 bilhões por ano e elevar a justiça fiscal no Brasil.
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O que é o imposto mínimo efetivo sobre a riqueza
O chamado Imposto Mínimo Efetivo sobre a Riqueza (IMER) é um modelo inovador de tributação. Ele não funciona como um imposto tradicional sobre patrimônio, mas como um mecanismo complementar.
Como funciona na prática
O IMER estabelece um piso mínimo de tributação com base no patrimônio do contribuinte:
- Calcula-se 2% do patrimônio líquido total
- Compara-se esse valor com os impostos já pagos
- Se o contribuinte já pagou esse equivalente ou mais, nada muda
- Se pagou menos, ele precisa complementar a diferença
Na prática, isso impede que indivíduos extremamente ricos paguem proporcionalmente menos impostos do que o restante da população.
Quanto o Brasil poderia arrecadar
O estudo elaborado pelo Observatório Internacional de Fiscalidade a pedido da Plataforma Tributária da América Latina e do Caribe, com participação do Ministério da Fazenda do Brasil, traz estimativas relevantes.
Cenário com alíquota de 2%
- Arrecadação estimada: R$ 30,5 bilhões por ano
- Base de incidência: patrimônios acima de R$ 500 milhões
- Número de contribuintes: cerca de 1.430 super-ricos
Cenário com alíquota de 3%
- Arrecadação pode chegar a R$ 47 bilhões anuais
- Representa cerca de 0,48% do PIB
Recorte apenas com bilionários
- Arrecadação cai para R$ 25 bilhões (2%)
- Pode chegar a R$ 38 bilhões (3%)
Esses valores são relevantes para políticas públicas, podendo financiar programas sociais, infraestrutura ou redução do déficit fiscal.
Quem seria afetado
O impacto do IMER é altamente concentrado:
Perfil dos contribuintes
- 1.360 centimilionários com média de R$ 1,2 bilhão
- 70 bilionários com média de R$ 19 bilhões
Ou seja, trata-se de um grupo extremamente restrito da população, equivalente a cerca de 0,001% dos brasileiros.
Problema atual: sistema tributário regressivo
Um dos principais argumentos a favor do imposto mínimo é a regressividade do sistema atual.
Dados que chamam atenção
- Super-ricos pagam cerca de 19,7% de alíquota efetiva
- População geral paga em média 42,5%
- 50% mais pobres comprometem cerca de 30% da renda com impostos
Isso ocorre porque grande parte da riqueza dos mais ricos está em:
- Empresas
- Participações societárias
- Lucros não distribuídos
Esses rendimentos frequentemente escapam da tributação direta.
Como o IMER muda esse cenário
Com a implementação do imposto mínimo:
- A alíquota efetiva dos super-ricos poderia subir para cerca de 50%
- Haveria maior equilíbrio entre diferentes faixas de renda
- O sistema se tornaria mais progressivo
Na prática, o IMER atua onde o imposto de renda tradicional não alcança.
Diferença entre IMER e imposto sobre grandes fortunas
É importante não confundir o IMER com o Imposto sobre Grandes Fortunas (IGF).
IGF tradicional
- Previsto na Constituição desde 1988
- Nunca regulamentado
- Incide diretamente sobre o patrimônio
IMER
- Funciona como complemento tributário
- Garante um piso mínimo de contribuição
- Incide sobre patrimônio total, incluindo estruturas empresariais
- Não prevê isenções
O debate no Congresso brasileiro
A discussão sobre tributação dos mais ricos ganhou força após decisão do Supremo Tribunal Federal em 2025.
Situação atual
- STF determinou prazo de 24 meses para regulamentação do IGF
- Tramita o PLP 05/2026
- Proposta prevê alíquotas de 1% a 3% para patrimônios acima de R$ 10 milhões
Além disso, o governo federal já propôs medidas complementares.
Outras iniciativas
- Projeto de imposto mínimo sobre renda acima de R$ 600 mil anuais
- Foco maior na renda do que no patrimônio
Especialistas apontam que essas medidas podem ser insuficientes para atingir grandes fortunas estruturadas em empresas.
Limitações do imposto de renda tradicional
O estudo destaca que aumentar o imposto de renda não resolve o problema.
Exemplo prático
- Aumento de 50% nas alíquotas elevaria a carga dos mais ricos de 19,7% para apenas 21%
- Impacto marginal de apenas 1,3 ponto percentual
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Isso ocorre porque:
- Lucros podem ser retidos em empresas
- Não há tributação imediata sobre esse capital
Impactos econômicos e sociais
Possíveis benefícios
- Redução da desigualdade
- Aumento da arrecadação sem impactar a classe média
- Maior justiça fiscal
- Fortalecimento das contas públicas
Pontos de atenção
- Risco de evasão fiscal
- Necessidade de cooperação internacional
- Complexidade na avaliação de patrimônio
Contexto internacional
A proposta do IMER está alinhada com discussões globais sobre taxação de super-ricos, especialmente após iniciativas debatidas no G20.
O economista Gabriel Zucman, referência mundial no tema, participou da elaboração do modelo, reforçando sua credibilidade técnica.
Exemplos práticos no Brasil
Para entender melhor, imagine:
Caso 1: empresário bilionário
- Patrimônio: R$ 10 bilhões
- 2% do patrimônio: R$ 200 milhões
- Impostos pagos: R$ 120 milhões
Resultado: teria que pagar R$ 80 milhões adicionais
Caso 2: contribuinte já tributado adequadamente
- Patrimônio: R$ 800 milhões
- 2%: R$ 16 milhões
- Impostos pagos: R$ 20 milhões
Resultado: não paga nada adicional
O que está em jogo para o futuro
A adoção de um imposto mínimo sobre grandes fortunas representa uma mudança estrutural no sistema tributário brasileiro.
A decisão envolve:
- Debate político intenso
- Pressão por justiça social
- Necessidade de equilíbrio fiscal
O tema deve ganhar ainda mais relevância nos próximos anos, especialmente com o avanço das discussões no Congresso.
Conclusão
O imposto mínimo sobre grandes fortunas surge como uma alternativa concreta para corrigir distorções do sistema tributário brasileiro. Ao garantir uma contribuição mínima proporcional à riqueza, o modelo busca equilibrar a carga fiscal e ampliar a arrecadação sem penalizar a maioria da população.
Embora ainda enfrente desafios políticos e técnicos, o IMER representa uma das propostas mais robustas já apresentadas para enfrentar a desigualdade fiscal no país.
INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:
