A fotografia da inadimplência no Brasil em 2025 é preocupante: mesmo diante de uma economia com maior geração de empregos formais e leve alta na renda, o número de brasileiros com dívidas em atraso ultrapassou os 78,8 milhões, e mais de 8,1 milhões de empresas estão negativadas, segundo dados do Serasa. Isso significa que, proporcionalmente, quase 4 a cada 10 brasileiros adultos e um terço das empresas ativas enfrentam dificuldades para pagar suas dívidas.
Brasil: 78,8 milhões de pessoas estão endividadas e 8,1 milhões de empresas negativadas
Com juros elevados e crédito caro, inadimplência bate recordes entre famílias e empresas em 2025. Veja!
Apesar dos sinais positivos no mercado de trabalho, a realidade financeira de famílias e empresas continua pressionada por fatores como a alta da taxa básica de juros, crédito caro, inflação persistente e mudanças comportamentais no consumo. O resultado: um cenário de endividamento crônico, inadimplência crescente e perspectivas nada otimistas para 2026.
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A escalada dos juros e seu efeito devastador
Da pandemia aos 15% de Selic
Em agosto de 2020, em meio à pandemia, a taxa Selic chegou a seu piso histórico: 2% ao ano. A medida buscava reaquecer a economia, que havia despencado com os lockdowns e a incerteza global. No entanto, o movimento inverso veio rápido. Entre 2021 e 2025, o Banco Central precisou frear a inflação com uma alta agressiva da Selic, que atingiu 15% em junho deste ano.
Essa elevação dos juros encareceu o custo do crédito, dificultando o pagamento de dívidas — especialmente as mais caras, como o rotativo do cartão de crédito, que fechou agosto com taxa média de 451,73% ao ano, o maior nível da série histórica.
Juros e o ciclo da inadimplência
O cenário atual é reflexo de uma sequência de choques: pandemia, aumento da inflação, crescimento dos gastos das famílias, expansão descontrolada do crédito (impulsionado por fintechs) e falta de planejamento financeiro. O aumento da Selic, que visava controlar os preços, também acabou por estrangular a capacidade de pagamento das famílias e das empresas.
A inadimplência das famílias: um retrato em números
Evolução mensal em 2025
A seguir, a evolução dos números de inadimplência mês a mês, segundo a Serasa:
| Mês | Inadimplentes (milhões) |
|---|---|
| Janeiro | 74,6 |
| Fevereiro | 75,0 |
| Março | 75,7 |
| Abril | 76,6 |
| Maio | 77,0 |
| Junho | 77,8 |
| Julho | 78,2 |
| Agosto | 78,8 |
Em comparação com janeiro de 2023 (70,09 milhões), o aumento é de mais de 8 milhões de pessoas negativadas em dois anos.
Dívida média e perfil dos devedores
Cada consumidor inadimplente deve, em média, R$ 6.267,69. O valor médio de cada dívida é de R$ 1.578,23 — o que indica que cada inadimplente carrega em torno de quatro dívidas vencidas.
As dívidas se concentram principalmente em:
- Bancos e cartões: 27,27%
- Utilities (água, luz, gás): 20,83%
- Instituições financeiras não bancárias: 19,51%
O impacto da expansão do cartão de crédito
Desde 2018, com o avanço dos bancos digitais e a popularização dos cartões sem anuidade, o número de cartões de crédito ativos no Brasil cresceu exponencialmente. Segundo o Banco Central, os juros do rotativo saíram de 312,60% ao ano em 2020 para 451,73% em 2025. É uma armadilha que afeta principalmente consumidores sem educação financeira.
O economista Flávio Ataliba Barreto, do FGV/Ibre, explica que o uso excessivo do rotativo, somado à falta de planejamento, criou um ambiente ideal para o colapso:
“Muitas famílias viram sua capacidade de pagamento ruir. Mesmo com a melhora na renda e no emprego, não foi possível reverter a inadimplência acumulada nos últimos anos.”
Endividamento recorde: 8 em cada 10 famílias com dívidas

De acordo com dados do Banco Inter, o endividamento das famílias (excetuando financiamento habitacional) representa 30,6% da renda mensal, e o comprometimento financeiro atinge 26,3%.
A curva de endividamento das famílias saltou de 58% em 2017 para 79% em 2025. E a inadimplência já alcança 30% das famílias — o que significa que quase um terço das famílias brasileiras têm dívidas em atraso.
Barreto afirma:
“O problema não é ter dívida. O problema é não ter renda para pagar.”
Empresas também enfrentam seu pior momento
Inadimplência empresarial bate recorde
O número de CNPJs negativados chegou a 8,1 milhões em agosto de 2025, segundo a Serasa Experian. Em janeiro deste ano, eram 7,1 milhões — um aumento de mais de 1 milhão de empresas inadimplentes em apenas oito meses.
| Mês | Empresas inadimplentes (milhões) |
|---|---|
| Janeiro | 7,1 |
| Fevereiro | 7,2 |
| Março | 7,3 |
| Abril | 7,5 |
| Maio | 7,7 |
| Junho | 7,8 |
| Julho | 8,0 |
| Agosto | 8,1 |
O valor médio da dívida das empresas subiu de R$ 21,6 milhões (agosto de 2024) para R$ 24,6 milhões (agosto de 2025). Os principais setores afetados são:
- Serviços: 31,9% das dívidas
- Bancos e financeiras: 23,4%
Causas e consequências
A economista Camila Abdelmalack, da Serasa Experian, explica que o problema das empresas decorre de três fatores principais:
- Desaceleração da demanda;
- Deterioração da margem de lucro;
- Acesso ao crédito cada vez mais difícil e caro.
As micro e pequenas empresas, que representam 93% das empresas ativas no Brasil, são as mais vulneráveis, pois têm menos recursos e menor profissionalização da gestão.
Riscos para a economia: consumo e PIB em alerta

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O comprometimento da renda das famílias é um alerta para o futuro do país. O consumo das famílias representa cerca de 62% do Produto Interno Bruto (PIB) do Brasil. Quando esse consumo é reduzido, a atividade econômica desacelera.
“Se o consumo está estrangulado, teremos dificuldade em crescer. Isso impacta o PIB, o mercado de trabalho e o próprio setor produtivo”, afirma Barreto.
Com menos consumo e menos investimento empresarial, o risco é de estagnação ou crescimento pífio em 2026.
Projeções para 2026: juros ainda altos e pouco otimismo
Embora o Banco Central já tenha iniciado um novo ciclo de cortes na Selic, a taxa ainda deve terminar 2026 em torno de 12% — patamar elevado em relação à média histórica. Isso manterá o crédito caro e os riscos elevados.
Outro fator preocupante é a situação fiscal do país, que pressiona os juros futuros. A ausência de um plano claro para controlar a dívida pública pode elevar a percepção de risco e impedir cortes mais acentuados.
Além disso, 2026 será um ano eleitoral, com potencial de gerar volatilidade e frear decisões estratégicas em muitas empresas.
O que pode ser feito?
Para as famílias
A saída passa por:
- Revisar o orçamento familiar;
- Identificar e cortar gastos supérfluos;
- Priorizar dívidas com maiores juros;
- Evitar o rotativo do cartão de crédito;
- Pagar à vista sempre que possível;
- Criar uma reserva de emergência.
Segundo os especialistas, educação financeira será essencial em 2026, principalmente em um ambiente ainda marcado por incerteza e restrição ao crédito.
Para as empresas
- Controlar o fluxo de caixa com rigor;
- Negociar prazos com fornecedores e credores;
- Reduzir custos operacionais;
- Evitar investimentos arriscados;
- Profissionalizar a gestão.
A orientação de Abdelmalack é clara:
“2026 exigirá das empresas uma gestão eficiente e foco na preservação do caixa.”
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
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