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A verdade incômoda sobre como cartão de crédito dispara as dívidas dos brasileiros

Avatar de Vitória Monckes Vitória Monckes · · 6 min de leitura
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O Brasil atravessa um dos momentos mais críticos em sua história econômica recente no que diz respeito à inadimplência e ao endividamento das famílias. Segundo o Serviço de Proteção ao Crédito (SPC Nacional), cerca de 72 milhões de brasileiros estão atualmente com o nome negativado, o que representa uma parte significativa da população economicamente ativa do país. Esse número é o maior já registrado em décadas.

A situação se agrava com a persistência da inflação elevada, medida pelo IPCA, e com a manutenção de juros altos, que inibem o consumo, encarecem o crédito e tornam a recuperação econômica ainda mais difícil. O presidente do SPC Nacional, Roque Pellizzaro Júnior, alerta que a inflação atual não deve recuar antes de 2028, o que impõe um ciclo de estagnação e vulnerabilidade financeira duradouro.

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Imagem: Freepik / Edit: Seu Crédito Digital

Inadimplência crônica: o que mostram os dados mais recentes

Índices crescentes em meio a queda no varejo

Em agosto de 2025, a proporção de consumidores com contas em atraso subiu de 30% para 30,4%, conforme dados da Confederação Nacional do Comércio de Bens, Serviços e Turismo (CNC). Esse aumento coincide com uma queda generalizada nas vendas do varejo, agravada por restrições de crédito, inflação alta e deterioração do poder de compra.

Nos últimos 90 dias, a chamada “freada brusca” da economia tem se refletido diretamente nos indicadores do setor de comércio e serviços. Para Pellizzaro, o cenário é desafiador:

“Estamos tendo quedas profundas de vendas, efeito, é lógico, da taxa de juros para se ter um controle inflacionário. A inflação não está cedendo.”

Ele compara o cenário a um paciente com febre persistente que não responde ao remédio — neste caso, a taxa de juros — porque o “governo não faz a dieta”, ou seja, não adota as reformas e medidas estruturais esperadas.

Cartão de crédito lidera como vilão do endividamento

Mas carnês voltam a ganhar espaço

O cartão de crédito continua sendo a principal forma de endividamento do brasileiro, sendo citado por 84,5% dos consumidores negativados. Ainda assim, houve uma leve queda em relação aos 85,7% registrados em agosto de 2024.

Na contramão, os carnês de pagamento parcelado voltaram a ganhar espaço, passando de 15,6% para 16,6% em apenas um ano. O crescimento pode estar relacionado a alternativas ao crédito rotativo, que possui juros altíssimos e é um dos maiores causadores da inadimplência prolongada.

Por que a inflação não cede?

IPCA elevado até 2028: o novo normal?

De acordo com o SPC Nacional, a inflação brasileira é considerada alta, persistente e estruturalmente resistente ao controle por meio de juros. Mesmo com a Selic mantida em patamares elevados, o Índice de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) não apresenta tendência de queda significativa antes de 2028.

O problema, segundo Pellizzaro, está na falta de medidas fiscais robustas por parte do governo federal, que adota uma política expansionista ao mesmo tempo em que o Banco Central tenta conter o consumo com aumento de juros.

“O Brasil vive esse momento: o governo não faz o dever de casa e ele se contrapõe ao remédio que é a taxa de juros.”

O efeito colateral da política monetária

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Imagem: RHJPhtotoandilustration / Shutterstock.com

Juros altos agravam a exclusão financeira

Embora o objetivo da política de juros seja conter a inflação, os efeitos colaterais para a população são graves. O crédito fica mais caro, o acesso ao financiamento é restringido e as famílias recorrem a modalidades mais arriscadas para manter o consumo básico.

“Apesar de hoje a renda do brasileiro parecer boa – nós temos uma situação de emprego bastante razoável –, ela é corroída pela inflação”, explica Pellizzaro. “O que sobra é a necessidade de algum financiamento. Mas aí se tem um juro muito alto.”

Essa combinação leva a um ciclo vicioso de dívida, inadimplência e renegociação, sem solução estrutural.

A inadimplência de amanhã já está no radar

O endividado de hoje será o inadimplente de 2026

Outro ponto crítico levantado pelo SPC é o número de pessoas com orçamento comprometido, mas que ainda não estão inadimplentes. Esse grupo, segundo Pellizzaro, está à beira do colapso financeiro:

“É aquele cara que não está inadimplente, mas não tem mais orçamento livre. O próximo passo dele é se tornar inadimplente.”

Com o aumento dos preços e o crédito escasso, as famílias perdem capacidade de reação a qualquer emergência, o que deve levar a um novo pico de inadimplência já em 2026.

Ano eleitoral pode piorar a situação

Injeção de recursos públicos ameaça controle inflacionário

Com a proximidade das eleições de 2026, o presidente do SPC prevê uma injeção elevada de recursos na economia por parte dos governos, com programas sociais, obras e estímulos financeiros.

Embora esse movimento tenha impacto positivo no curto prazo, ele contraria a lógica de contenção de consumo adotada pela política monetária:

“O ano que vem é ano eleitoral. Os governos abrirão as suas torneiras, vão injetar muito recurso na economia, e esse dinheiro adicional retroalimenta o consumo. Voltaremos provavelmente a ter um pico de inadimplência.”

A reincidência dos negativados

O retorno ao cadastro de inadimplência em menos de um ano

Outro dado alarmante revelado pelo SPC Nacional é que 8 em cada 10 consumidores retornam à inadimplência em até 12 meses após regularizar uma dívida.

Essa recorrência está relacionada à ausência de educação financeira e à impossibilidade de poupar diante de um custo de vida elevado e rendas achatadas.

Reeducação financeira: uma alternativa necessária

O que o consumidor pode fazer para escapar do ciclo da dívida

Pellizzaro defende que o controle orçamentário individual é uma das poucas ferramentas disponíveis à população diante da inércia do Estado em promover estabilidade econômica.

“Tem que colocar as contas na ponta do lápis. Se você tem um orçamento de R$ 5 mil, nesse montante há as despesas fixas das quais não se pode fugir: aluguel, colégio, supermercado, água, luz, internet, transporte…”

A recomendação é anotar todos os gastos, definir prioridades e eliminar despesas supérfluas. Além disso, é fundamental:

  • Estabelecer reserva mínima de emergência;
  • Evitar parcelamentos longos com juros embutidos;
  • Trocar dívidas caras por alternativas mais baratas, como crédito consignado;
  • Negociar juros com instituições financeiras;
  • Utilizar apps e planilhas de controle financeiro.

O papel das políticas públicas

Inflação
Imagem: d.ee_angelo/ Shutterstock

Omissão estrutural acentua desigualdade

Economistas ouvidos por diversos veículos de imprensa indicam que sem uma reforma fiscal coerente, controle de gastos públicos e estímulos à produtividade, o Brasil não conseguirá recuperar o poder de compra da população.

A política monetária, sozinha, não consegue controlar a inflação de forma eficaz se estiver sendo neutralizada por gastos públicos excessivos e políticas eleitorais de curto prazo.

Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital

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