A Polícia Federal (PF) deflagrou nesta quarta-feira (14), no município de Presidente Prudente (SP), a segunda fase da operação Sem Desconto, que investiga um sofisticado esquema de desvio de recursos públicos ligados ao Instituto Nacional do Seguro Social (INSS). A ofensiva mira um casal de empresários suspeitos de envolvimento direto em movimentações financeiras ilegais que teriam lesado aposentados e pensionistas vinculados à Previdência Social.
INSS e Polícia Federal: saiba quem são os investigados na nova operação
PF avança em nova fase da operação Sem Desconto, que apura desvios milionários no INSS ligados à Conafer.
O homem investigado é assessor de uma associação nacional e, segundo a PF, atuava como operador financeiro do esquema. Sua esposa também foi alvo das ações policiais. Ambos são apontados como beneficiários de recursos oriundos do Fundo do Regime Geral de Previdência Social (FRGPS), repassados por meio de estruturas associativas.
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Rastro do dinheiro: como o esquema foi descoberto

O ponto de partida da nova fase da investigação foi o rastreamento de uma movimentação financeira considerada atípica. A Polícia Federal apurou que o presidente de uma associação, ligada à Confederação Nacional de Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais (Conafer), recebeu mais de R$ 100 milhões oriundos do FRGPS.
Desse total, um montante significativo, cerca de R$ 812 mil, foi transferido diretamente para o operador financeiro investigado, sua esposa e empresas registradas em nome do casal. Esses repasses levantaram suspeitas de envolvimento em práticas como peculato, lavagem de dinheiro e associação criminosa.
A operação reforça a tese de que o sistema de benefícios previdenciários pode estar sendo explorado por agentes externos com apoio de entidades formalmente registradas, mas que funcionariam como fachada para canalizar recursos públicos a interesses privados.
Ciclo de devoluções e indícios de lavagem de dinheiro
Um dos pontos que mais chamou a atenção dos investigadores foi o retorno parcial dos valores para o presidente da associação. Entre janeiro de 2021 e setembro de 2022, a esposa do operador financeiro devolveu aproximadamente R$ 746 mil ao dirigente da entidade, que por sua vez havia transferido a ela R$ 474 mil no mesmo período.
“Esse movimento de recursos de volta ao remetente sugere um possível ciclo de lavagem de dinheiro, no qual os valores recebidos podem estar sendo redirecionados para camuflar a verdadeira origem dos recursos. Esse comportamento, somado às ligações com associações de aposentados envolvidas em fraudes e com movimentações suspeitas de grandes quantias, reforça as suspeitas de irregularidades financeiras e desvios de dinheiro”, afirmou a Polícia Federal em nota.
A PF acredita que a apreensão de bens e documentos do casal será fundamental para obter novos elementos que esclareçam como o fluxo financeiro foi arquitetado e quais outros nomes estariam envolvidos no esquema.
Veículos de luxo e enriquecimento suspeito

Outro indício que pesa contra o casal é a aquisição de bens de alto valor incompatíveis com a renda declarada. O operador financeiro teria comprado carros de luxo com os recursos supostamente desviados dos aposentados.
Essa prática de conversão de dinheiro público em patrimônio pessoal é comum em crimes de lavagem de dinheiro, pois visa dar aparência de legalidade aos valores ilícitos. Ao adquirir veículos, imóveis ou outros ativos de elevado valor, os investigados tentam dificultar o rastreamento da origem dos recursos.
Conafer é citada, mas permanece em silêncio
A entidade mencionada na investigação é a Conafer, que representa agricultores e empreendedores familiares. Até o momento, a confederação não se pronunciou oficialmente sobre os desdobramentos da operação ou a atuação de seus membros. A reportagem da CNN procurou a organização, mas não obteve retorno. O espaço segue aberto para manifestação.
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A menção à Conafer levanta questionamentos sobre o papel de associações e confederações na gestão de convênios com o INSS e outras autarquias federais. Em muitos casos, essas entidades atuam na intermediação de benefícios, o que pode abrir brechas para fraudes se não houver rigor na fiscalização dos repasses.
Operação Sem Desconto: histórico e desdobramentos
A operação Sem Desconto foi iniciada pela Polícia Federal com o objetivo de desarticular um esquema de fraudes que afeta diretamente a estrutura de pagamentos do INSS. A primeira fase já havia identificado irregularidades em contracheques de beneficiários, que teriam sido usados para justificar descontos indevidos ou redirecionamentos de recursos.
A segunda etapa, deflagrada em Presidente Prudente, foca em elos menos evidentes do esquema, mas não menos relevantes. O papel de operadores financeiros, intermediários e associações, conforme apontado pela PF, é essencial para que os desvios ocorram com aparência de legalidade.
INSS e os desafios no combate à corrupção
O caso expõe um problema estrutural enfrentado pelo INSS: a fragilidade no controle de convênios e parcerias com entidades que atuam junto aos beneficiários. O grande volume de recursos administrados pela Previdência Social, aliado à complexidade dos processos, torna o setor vulnerável a fraudes sistemáticas.
A atuação da Polícia Federal reforça a necessidade de aprimoramento dos mecanismos de fiscalização e transparência. É essencial que haja integração entre órgãos de controle, como o Tribunal de Contas da União (TCU), a Controladoria-Geral da União (CGU) e o Ministério Público Federal (MPF), para que ações preventivas evitem a repetição de esquemas semelhantes.
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