A inteligência artificial (IA) está tornando tarefas profissionais mais rápidas e ampliando a autonomia dos trabalhadores, mas essa eficiência pode ter um custo menos visível: o enfraquecimento das relações entre colegas. Uma pesquisa com 1.033 profissionais de escritório nos Estados Unidos identificou uma associação entre o uso mais frequente dessas ferramentas e a redução da confiança mútua e da capacidade de coordenação dentro das equipes.
Os resultados apontam para um dilema das empresas que incorporam tecnologias generativas à rotina: produzir mais individualmente não significa, necessariamente, trabalhar melhor em conjunto. Quando funcionários passam a recorrer à IA em situações nas quais antes pediriam ajuda a um colega, oportunidades de compartilhar conhecimentos, esclarecer dúvidas e construir vínculos profissionais podem diminuir.
O desafio, portanto, não está apenas em adotar ferramentas mais avançadas, mas em encontrar maneiras de aproveitar seus benefícios sem comprometer a colaboração que sustenta o desempenho coletivo.
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O que a pesquisa revela sobre a inteligência artificial no trabalho?

O levantamento apresentado em reportagem do InfoMoney, originalmente publicada pela Harvard Business Review, ouviu 1.033 profissionais que trabalham em tempo integral em escritórios nos Estados Unidos. Os participantes integravam equipes de projetos distribuídas por mais de 20 setores da economia.
Os resultados revelaram dois movimentos simultâneos. De um lado, o uso da IA esteve associado à percepção de que os colegas possuem conhecimentos especializados e habilidades únicas. De outro, recorrer à tecnologia em vez de consultar pessoas da própria equipe esteve associado a níveis menores de confiança e coordenação.
Essa combinação ajuda a explicar por que os ganhos individuais de eficiência não se traduzem automaticamente em equipes mais integradas. Um profissional pode resolver problemas com mais rapidez e entregar tarefas em menos tempo, enquanto diminui o contato com as pessoas que dependem de suas informações ou contribuem para o resultado coletivo.
É necessário, contudo, interpretar os resultados com cautela. O levantamento apresentado na reportagem identifica associações entre comportamentos e percepções dos trabalhadores, mas não demonstra, por si só, que a inteligência artificial seja a única responsável pelo enfraquecimento dos vínculos profissionais.
Por que o uso da IA pode reduzir a confiança entre colegas?
A mudança ocorre, em parte, porque a tecnologia altera a maneira como as pessoas procuram informações e resolvem problemas durante o expediente.
Antes da popularização dos assistentes generativos, um funcionário com uma dúvida poderia recorrer a alguém mais experiente, pedir uma explicação ou discutir alternativas para concluir uma tarefa. Essas interações nem sempre eram rápidas, mas também permitiam conhecer as habilidades dos colegas, compartilhar experiências e estabelecer relações de confiança.
Com a IA disponível a qualquer momento, parte dessas consultas passa a acontecer de maneira individual. A ferramenta pode sugerir uma solução, organizar informações ou preparar um documento sem exigir uma conversa com outra pessoa.
O efeito acumulado pode ser significativo. Quando os contatos profissionais se tornam menos frequentes, os integrantes de uma equipe podem perder oportunidades de compreender o que os demais sabem, quais dificuldades enfrentam e de que maneira suas atividades se conectam.
Esse processo é particularmente relevante em projetos que dependem de diferentes áreas, nos quais o resultado final exige a combinação de conhecimentos que nenhum profissional domina isoladamente.
Como a automação pode criar equipes menos conectadas?
A eficiência individual e a coordenação coletiva são dimensões diferentes do desempenho profissional. A primeira está relacionada à capacidade de concluir tarefas com qualidade e rapidez; a segunda depende da integração entre pessoas, informações, responsabilidades e decisões.
A IA pode ajudar um funcionário a elaborar uma análise, resumir documentos ou desenvolver uma primeira versão de um projeto. Entretanto, se o resultado não for compartilhado adequadamente, se as decisões forem tomadas sem consulta aos envolvidos ou se as informações relevantes deixarem de circular, a equipe poderá enfrentar dificuldades mesmo com entregas individuais mais rápidas.
Imagine, por exemplo, uma equipe responsável pelo lançamento de um produto. Um profissional utiliza a IA para produzir uma análise de mercado, outro prepara uma estratégia de comunicação e um terceiro desenvolve projeções comerciais. Se cada um trabalhar de forma isolada, sem discutir premissas ou compartilhar descobertas, os documentos poderão apresentar informações inconsistentes e recomendações incompatíveis.
O problema não está no uso das ferramentas em si, mas na ausência de integração entre as atividades. A tecnologia pode acelerar a execução de tarefas, porém não substitui automaticamente o entendimento compartilhado necessário para que diferentes profissionais trabalhem na mesma direção.
A inteligência artificial também pode fortalecer o trabalho em equipe?
Sim. Os resultados não indicam que a IA necessariamente prejudique as relações profissionais. O impacto depende de como a tecnologia é incorporada aos processos, das expectativas da liderança e da frequência com que os trabalhadores continuam trocando informações.
A ferramenta pode assumir atividades repetitivas, facilitar a organização de dados e ajudar os profissionais a se prepararem para reuniões ou conversas difíceis. Com isso, parte do tempo economizado pode ser direcionada a decisões estratégicas, discussões coletivas e resolução de problemas que exigem julgamento humano.
Também é possível utilizar assistentes generativos para estruturar pautas, documentar decisões e resumir discussões, desde que as informações sejam verificadas e os resultados circulem entre os integrantes da equipe.
A diferença está na finalidade atribuída à tecnologia. Quando ela funciona como apoio para ampliar as capacidades humanas, pode favorecer o trabalho coletivo. Quando passa a substituir sistematicamente as interações necessárias para compartilhar conhecimento, pode contribuir para o isolamento profissional.
Comunicação frequente ajuda a preservar a confiança
Entre as recomendações apresentadas na reportagem está a manutenção de contatos regulares entre os integrantes das equipes, inclusive por canais assíncronos, como e-mail, Slack e Microsoft Teams. Essas ferramentas permitem trocar informações sem que todos precisem estar disponíveis ao mesmo tempo.
Segundo os dados divulgados, entre os profissionais que recorriam frequentemente à IA, manter contato diário com a equipe esteve associado a um aumento de 28% na coordenação e de 19% na confiança. A reportagem não detalha, no trecho consultado, todos os parâmetros necessários para interpretar esses percentuais como variações absolutas ou relativas; por isso, eles não devem ser tratados como uma garantia de resultado para qualquer empresa.
A recomendação prática é manter os canais de comunicação ativos mesmo quando as tarefas individuais se tornam mais automatizadas. Atualizações sobre o andamento dos projetos, registro de decisões e compartilhamento de descobertas ajudam os colegas a compreender o trabalho uns dos outros.
Não é necessário transformar toda interação em uma reunião. Mensagens objetivas, documentos colaborativos e conversas breves podem preservar a circulação de informações sem eliminar os ganhos de produtividade.
Segurança psicológica se torna ainda mais importante
Outro ponto levantado pela reportagem é a segurança psicológica, conceito associado à percepção de que uma pessoa pode fazer perguntas, admitir erros e apresentar dúvidas sem medo de humilhação ou punição interpessoal.
Esse aspecto ganha relevância quando os funcionários encontram na IA uma alternativa aparentemente mais confortável do que consultar um colega. Um assistente virtual não demonstra impaciência nem faz julgamentos sociais explícitos, o que pode tornar mais fácil pedir explicações sobre assuntos desconhecidos.
Em equipes nas quais questionamentos são tratados como sinais de incompetência, a tecnologia pode se tornar um substituto frequente para a interação humana. O resultado é uma oportunidade perdida de aprendizagem coletiva.
Líderes podem enfrentar esse problema ao estimular perguntas, reconhecer contribuições, tratar erros como oportunidades de melhoria e criar ambientes nos quais pedir ajuda seja uma prática normal. Assim, a consulta a um colega deixa de representar uma exposição pessoal e passa a fazer parte do processo de trabalho.
O que as empresas podem fazer para evitar o isolamento profissional?
A adoção de IA exige ajustes que vão além da escolha de ferramentas e da capacitação técnica. As organizações precisam definir como a tecnologia deve ser utilizada sem prejudicar a troca de informações, a transparência e a responsabilidade compartilhada.
Algumas medidas podem ajudar:
- Estabelecer regras claras de uso: definir quais atividades podem ser apoiadas pela IA, quais exigem revisão humana e em quais situações é necessário informar os demais sobre o uso da tecnologia.
- Preservar momentos de colaboração: manter reuniões de alinhamento quando necessárias, revisões conjuntas e canais para discutir problemas e decisões relevantes.
- Compartilhar conhecimentos: incentivar que resultados produzidos com IA sejam documentados, revisados e disponibilizados às pessoas envolvidas no projeto.
- Valorizar resultados coletivos: avaliar não apenas a quantidade de tarefas concluídas, mas também a qualidade das entregas, a cooperação e a contribuição para os objetivos comuns.
- Preparar lideranças: orientar gestores a identificar falhas de comunicação, estimular a participação e equilibrar autonomia individual com responsabilidade coletiva.
Essas iniciativas não exigem abandonar a automação. O objetivo é impedir que a busca por eficiência individual enfraqueça os processos que permitem à organização funcionar como uma equipe.
O impacto para o futuro do trabalho

A expansão da inteligência artificial coloca as empresas diante de uma mudança que envolve tecnologia, cultura organizacional e comportamento humano. À medida que ferramentas generativas assumem parte das tarefas de análise, redação e organização, as habilidades de comunicação, julgamento e cooperação continuam relevantes para transformar resultados individuais em decisões consistentes.
O risco é que indicadores de produtividade mais fáceis de medir recebam prioridade sobre aspectos menos visíveis, como confiança, compartilhamento de conhecimento e capacidade de resolver conflitos. Uma equipe pode parecer eficiente no curto prazo e, ainda assim, perder condições importantes para inovar e lidar com problemas complexos.
Por isso, a avaliação da IA no ambiente profissional não deve se limitar ao tempo economizado ou ao volume de entregas. Também precisa considerar se as pessoas continuam aprendendo umas com as outras, compartilhando informações e compreendendo como suas atividades contribuem para o resultado coletivo.
A principal lição é que a tecnologia pode ampliar a capacidade de cada trabalhador, mas a qualidade do trabalho em equipe continua dependendo de decisões humanas. Empresas que combinarem automação com comunicação frequente, segurança psicológica e objetivos compartilhados terão melhores condições de aproveitar os benefícios da IA sem negligenciar as relações que sustentam suas operações.
Conclusão
A inteligência artificial pode tornar o trabalho mais ágil, reduzir tarefas repetitivas e ampliar a capacidade de profissionais em diferentes áreas. No entanto, os ganhos de produtividade não devem ser avaliados apenas pelo volume de entregas ou pelo tempo economizado, mas também pela qualidade da colaboração e pela confiança entre os integrantes das equipes.
Os resultados do estudo reforçam a necessidade de as empresas adotarem a tecnologia sem deixar de lado a comunicação, o compartilhamento de conhecimentos e a construção de relações profissionais sólidas. Na prática, o caminho não é escolher entre inteligência artificial e interação humana, mas integrar as duas de maneira estratégica. Afinal, embora a tecnologia ajude a resolver problemas individuais, a capacidade de cooperar continua sendo fundamental para alcançar resultados coletivos consistentes.
