Quase dois meses após o Banco Master ter sido liquidado pelo Banco Central, um grande contingente de investidores que aplicou dinheiro em Certificados de Depósito Bancário (CDBs) da instituição vive um cenário de incerteza completa. Até o momento, não há qualquer perspectiva de início do pagamento das garantias pelo Fundo Garantidor de Crédito (FGC), apesar de as regras determinarem cobertura de até R$ 250 mil, com juros proporcionais até a data da liquidação.
A liquidação da instituição, ocorrida em 18 de novembro, desencadeou o processo administrativo que paralisa as operações do banco, suspende pagamentos e coloca os ativos sob administração de um liquidante. Mas o passo essencial para que o FGC comece a devolver o dinheiro aos investidores ainda não foi concluído: o envio da lista de credores, documento que contém relação de todos os titulares de CDBs e os valores a serem ressarcidos.
Até a última quarta-feira (7), o Banco Master não havia encaminhado o documento ao FGC. Em nota, o Fundo afirmou estar “aguardando as informações do Banco Master, Banco Master de Investimento e Banco Letsbank, que estão sendo consolidadas pelo liquidante, com o apoio do FGC, para iniciar o pagamento da garantia aos credores tão logo quanto possível”. Procurados pela imprensa, o liquidante Eduardo Felix Bianchini e representantes do próprio Master não responderam aos questionamentos.
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A falta de previsibilidade sobre o pagamento não é o único fator que preocupa investidores. Nos bastidores, existe o debate sobre uma possível reversão da liquidação extrajudicial, cenário que colocaria novamente a responsabilidade pelos pagamentos nas mãos do Banco Master — instituição que, segundo o BC, enfrenta “grave crise de liquidez”.
Efeitos práticos para quem tem dinheiro investido
De acordo com o advogado Fernando Moreira, doutor em engenharia de produção e especialista em compliance, qualquer reversão teria impacto direto sobre os investidores. “A eventual reversão da liquidação extrajudicial altera, para o titular de CDB do Banco Master, a previsibilidade do fluxo de recebimento”, explica. Como o banco enfrenta dificuldades financeiras relevantes, um retorno ao modelo pré-liquidatório poderia significar prazos ainda mais longos e incertezas adicionais.
Histórico do FGC mostra que o caso Master é atípico
O prazo já é o maior em mais de uma década
Embora seja comum que o FGC demore algumas semanas para começar a pagar credores após uma liquidação, o caso do Banco Master já é considerado o mais lento dos últimos 11 anos. A lista abaixo resume o intervalo de tempo entre liquidação e pagamento em casos anteriores:
- Banco BRJ S.A. (2015): 27 dias
- Banco Azteca (2016): 1 mês e 17 dias
- Banco Neon (2018): 14 dias
- Domus Hipotecária (2018): 15 dias
- Dacasa Financeira (2020): 40 dias
- CHB Hipotecária (2021): 34 dias
- Portocred (2023): 27 dias
- BRK CFI (2023): 33 dias
No caso do Master, o prazo já superou dois meses e continua correndo. O episódio deve se tornar o maior acionamento de garantias da história do FGC, o que também contribui para a complexidade do processo.
Como funciona o pagamento e o que o investidor deve fazer
Etapas do processo de ressarcimento
Uma vez com a lista de credores em mãos, o FGC:
- cruza os dados com os cadastros no aplicativo oficial,
- disponibiliza o valor devido ao investidor,
- solicita assinatura de um termo digital,
- efetua o pagamento na conta indicada.
Não há atendimento presencial nem possibilidade de “furar fila”. Tudo ocorre pelo aplicativo oficial.
Cadastro antecipado evita atrasos
Especialistas recomendam que investidores se cadastrem imediatamente no aplicativo do FGC e validem biometria e documentos, pois o volume de acessos no dia do pagamento costuma travar o sistema. O planejador financeiro Jeff Patzlaff explica: “Quem já está com o cadastro validado sai na frente e recebe em poucos dias. Não existe privilégio, mas existe preparo.”
Patzlaff também aponta para um risco técnico: bancos liquidados podem apresentar inconsistências em cadastros ou valores. Por isso, ele recomenda guardar extratos e comprovantes.
Cuidado com golpes e falsas promessas
Com a ansiedade dos investidores, proliferam ofertas fraudulentas de supostas “liberações antecipadas mediante taxa” ou “compra de crédito com deságio”. Patzlaff alerta: “Isso é golpe ou oportunismo predatório. O FGC é gratuito e digital, não pague ninguém para fazer isso por você.”
A advogada Francine Behn, sócia da MBW Advocacia, concorda: “A estratégia mais inteligente não é buscar uma improvável aceleração judicial, mas sim estar preparado, com dados e documentos em ordem, para responder quando o FGC iniciar os pagamentos.”
O que é coberto pelo FGC — e o que é prejuízo real
Limite de cobertura e rendimentos
O Fundo Garantidor cobre:
- até R$ 250 mil por CPF e por instituição,
- somando valor investido + juros até a data da liquidação (18/11).
Tudo o que ultrapassar o limite se transforma em crédito contra o banco, e o investidor deve se habilitar no processo judicial de liquidação para tentar recuperar o excedente — o que pode levar anos.
O “prejuízo invisível”: custo de oportunidade
Há ainda um efeito financeiro pouco discutido: o custo de oportunidade. Como o resgate pelo FGC só paga juros até o dia da liquidação, o dinheiro fica parado durante todo o período de espera. Para quem investiu em CDBs do Master com 120% do CDI, a rentabilidade acumulada até 18 de novembro foi de cerca de 14,94% no caso de aplicações feitas em janeiro no ano passado.
Se a mesma quantia tivesse sido aplicada no Tesouro Selic, o rendimento seria próximo, porém contínuo — e seguiria rendendo até hoje. Durante o período pós-liquidação, o investidor não recebe juros, não repõe inflação e perde poder de compra, como explica o planejador financeiro Carlos Castro: “Na medida que a inflação vai avançando, o dinheiro travado começa a perder também poder de compra.”
Um desfecho que ainda parece distante
A demora no envio da lista de credores revela um processo burocrático e politicamente conturbado. Enquanto o Banco Central enfrenta pressões e questionamentos, milhares de brasileiros aguardam sem previsão para reaver recursos aplicados em um dos investimentos mais populares entre conservadores: o CDB.
Até que a situação seja destravada, o único conselho possível aos investidores é seguir os procedimentos oficiais, manter documentação arquivada, evitar intermediários e se proteger de golpes.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
