O Itaú Unibanco, maior banco privado da América Latina, tem adotado uma abordagem conservadora e estratégica em relação ao crescente mercado de criptomoedas. Em um contexto global de transformações no setor financeiro e digital, a instituição defende medidas de segurança rigorosas para proteger os usuários contra fraudes, crimes financeiros e riscos regulatórios.
Itaú defende restrição a saques de criptomoedas e aguarda regulação para liberar autocustódia
O Itaú defende restrições a saques de criptomoedas para carteiras externas, visando segurança e combate a crimes financeiros, enquanto aguarda regulamentação do Banco Central para liberar autocustódia.
Durante sua participação no Rio Web Summit, um dos maiores eventos de inovação tecnológica do Brasil, Guto Antunes, head de ativos digitais do Itaú, reiterou a importância de restringir saques de criptoativos para carteiras externas como forma de mitigar vulnerabilidades do sistema.
A fala ocorre em meio à crescente expectativa por um marco regulatório nacional, que possa fornecer parâmetros legais claros para o ecossistema cripto no país.
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A posição do Itaú sobre saques de criptomoedas

Para Antunes, o atual cenário do mercado de criptomoedas apresenta lacunas graves de supervisão, o que facilita a atuação de agentes mal-intencionados. “Descentralizar é bom até o bem comum da lei”, declarou o executivo, destacando que a liberdade proporcionada pelas blockchains não pode se sobrepor à necessidade de proteger a integridade do sistema financeiro.
O Itaú considera que a ausência de controle sobre a saída de recursos digitais para carteiras externas pode facilitar crimes como lavagem de dinheiro, evasão de divisas e financiamento de atividades ilícitas. Nesse sentido, o banco optou por restringir essas operações até que uma regulação apropriada esteja em vigor.
Segundo o executivo, a decisão está ancorada em análises internas, experiências internacionais e na preocupação com a reputação institucional do banco. “Não poder sacar os criptoativos é uma evolução, porque havia e ainda há muitas práticas no mercado cripto que facilitam a lavagem de dinheiro e o financiamento ao crime”, argumentou.
Impacto das medidas para os clientes
Embora a medida tenha sido criticada por parte da comunidade cripto, que defende a autocustódia como um dos pilares fundamentais da descentralização, o Itaú afirma que sua base de clientes não demonstra interesse relevante em movimentar os criptoativos para fora da plataforma.
“Todas as soluções que nós lançamos até agora não foram um chute. Nós sentamos incessantemente com toda a base de clientes e perguntamos o que eles esperam de uma solução de criptoativos dentro do nosso aplicativo”, afirmou Antunes, sugerindo que a prioridade é oferecer um ambiente seguro e simplificado para investidores iniciantes e tradicionais.
Regulação: o ponto de virada esperado
Em fevereiro de 2025, o Banco Central do Brasil encerrou três consultas públicas voltadas à estruturação normativa do setor de ativos virtuais.
Essas consultas trataram de temas como o funcionamento das corretoras de criptoativos, regras de custódia, controles de compliance e a integração entre plataformas centralizadas e descentralizadas.
O objetivo do regulador é construir um conjunto de normas robustas e compatíveis com o cenário financeiro nacional, visando alinhar a segurança jurídica com a inovação tecnológica. As regras propostas para Prestadores de Serviços de Ativos Virtuais (PSAVs) são aguardadas com grande expectativa por empresas, bancos, fintechs e investidores.
Flexibilização das restrições no horizonte
Guto Antunes afirmou que o Itaú está pronto para rever sua política de restrição aos saques assim que o marco regulatório estiver vigente. Segundo ele, o banco não tem interesse em “centralizar” o controle das operações, mas sim oferecer uma experiência segura aos clientes, dentro dos parâmetros definidos pela lei.
“Nosso objetivo não é centralizar e deixar o cliente dentro da plataforma, mas sim intermediar a negociação de forma segura. A partir do momento em que tivermos uma lei em comum em que todos sabem o que pode e o que não pode fazer, entendo que nós possamos liberar o livre acesso de entrada e saída de criptoativos na plataforma do Itaú”, destacou.
Essa abertura é vista por especialistas como uma movimentação estratégica. Ao mesmo tempo em que o Itaú protege sua base e reduz riscos reputacionais, também se posiciona para liderar o mercado institucional de ativos digitais no Brasil assim que o ambiente regulatório estiver consolidado.
A atuação do Itaú no ecossistema cripto
Desde junho de 2024, o Itaú permite que os clientes da plataforma Íon realizem a compra, venda e custódia de criptoativos como Bitcoin (BTC), Ethereum (ETH), Solana (SOL), XRP e a stablecoin USDC. A custódia desses ativos é feita diretamente pelo banco, garantindo segurança adicional para os investidores iniciantes.
A adesão dos clientes à oferta de criptoativos vem sendo impulsionada pela busca por diversificação de portfólio e por retornos mais atrativos do que os oferecidos por produtos financeiros tradicionais.
Segundo dados internos, o volume negociado na plataforma cresce de forma consistente, mesmo em períodos de maior volatilidade dos ativos digitais.
Educação financeira como estratégia
Para apoiar os usuários na jornada de investimentos em ativos digitais, o banco lançou o curso gratuito “Criptoativos: Domine o futuro das finanças”. A formação cobre temas como a história do Bitcoin, conceitos de blockchain, riscos do mercado e formas de armazenamento de criptoativos.
A iniciativa visa não apenas ampliar o conhecimento dos investidores, mas também preparar o público para lidar com as mudanças que a digitalização do dinheiro vem impondo ao sistema financeiro tradicional.
Inovação e tokenização de ativos
Além da custódia e intermediação de criptoativos, o Itaú tem investido fortemente em soluções de tokenização. O banco participa ativamente de iniciativas que envolvem a digitalização de ativos do mundo real, como cotas de fundos, debêntures e imóveis, transformando-os em tokens negociáveis na blockchain.
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+311 mil seguidores
As parcerias com empresas como Vórtx QR Tokenizadora e Liqi têm permitido ao banco testar modelos inovadores de distribuição de produtos financeiros tokenizados.
Essas experiências ganharam destaque em relatórios internacionais, como o divulgado pelo Banco de Compensações Internacionais (BIS), que reconheceu a atuação do Itaú Digital Assets como referência em democratização do acesso a investimentos.
Participação no Drex
O Itaú também é um dos membros do consórcio do Piloto Drex, a moeda digital do Banco Central do Brasil. O projeto tem como meta criar um Real Digital que opere em redes permissionadas, oferecendo liquidez instantânea, automação de contratos inteligentes e integração com sistemas bancários tradicionais.
O envolvimento com o Drex reforça a estratégia do banco de se posicionar como protagonista na digitalização do sistema financeiro nacional, sem abrir mão dos princípios de governança, compliance e proteção ao consumidor.
O embate entre descentralização e regulação
A fala de Guto Antunes sobre os limites da descentralização expõe um dos principais dilemas do setor cripto: como conciliar a proposta libertária das blockchains com as exigências de segurança, rastreabilidade e regulação dos sistemas financeiros.
De um lado, entusiastas da tecnologia argumentam que a autocustódia e a liberdade de transações peer-to-peer são essenciais para garantir soberania financeira. Do outro, instituições financeiras e reguladores alertam para os riscos sistêmicos que a ausência de controle pode provocar.
O futuro do mercado com regulação
Com a chegada da regulamentação brasileira para ativos digitais, espera-se que o mercado evolua para um modelo híbrido, em que plataformas centralizadas ofereçam segurança e transparência, enquanto a inovação da Web3 continue sendo explorada com responsabilidade.
Nesse contexto, a atuação de bancos como o Itaú será decisiva para estabelecer padrões de confiança e interoperabilidade, contribuindo para o amadurecimento do setor como um todo.
Considerações finais

A decisão do Itaú de restringir saques de criptomoedas para carteiras externas reflete uma estratégia de mitigação de riscos alinhada aos valores tradicionais do sistema financeiro. Contudo, a disposição do banco em rever essa política com base no avanço da regulamentação revela abertura à inovação e capacidade de adaptação.
À medida que o marco regulatório brasileiro se consolida, instituições como o Itaú deverão desempenhar um papel cada vez mais relevante no desenvolvimento de soluções que combinem segurança, escalabilidade e liberdade financeira.
A expectativa é que, com regras claras e fiscalização eficiente, o Brasil possa se tornar um polo de referência para o mercado de criptoativos na América Latina.
