A sigla CLT, antes símbolo de proteção e segurança jurídica, tem se tornado motivo de desprezo entre parte da juventude brasileira. O fenômeno, marcado por críticas abertas à Consolidação das Leis do Trabalho, vem se expandindo nas redes sociais, no vocabulário cotidiano de adolescentes e jovens adultos, e até mesmo nas suas escolhas profissionais.
Por que a geração Z está questionando a CLT? Veja o que está por trás da crítica
Jovens rejeitam a CLT e adotam o empreendedorismo digital. Entenda por que essa tendência revela uma crise no modelo de trabalho tradicional.
O trabalho formal, com carteira assinada, passa a ser visto como sinônimo de exploração, baixa remuneração, ausência de liberdade e ambientes tóxicos. Em contrapartida, o empreendedorismo digital é celebrado como caminho de sucesso e autonomia.
Essa tendência reflete uma realidade socioeconômica complexa, que vai muito além da influência de influenciadores digitais ou da estética do sucesso fácil propagada nas redes.
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Por que os jovens rejeitam a CLT?

A precarização do trabalho como fator central
De acordo com o professor Fernando Cássio, da Faculdade de Educação da USP, o desprezo à CLT não é apenas fruto de manipulação midiática. Ele aponta que a deterioração das condições do trabalho formal nos últimos anos contribuiu significativamente para essa rejeição.
Reformas como a trabalhista de 2017, promovida durante o governo de Michel Temer, fragilizaram a proteção legal do trabalhador com carteira assinada, ao mesmo tempo em que aumentaram a informalidade e reduziram a remuneração média.
“Se vou trabalhar precarizado tendo patrão, então vou trabalhar para mim mesmo”, resume Cássio, apontando a lógica que atrai tantos jovens para o autônomo ou o digital.
O peso da propaganda pró-empreendedorismo
A capilaridade do discurso neoliberal, especialmente nas plataformas digitais, oferece um imaginário de liberdade, riqueza e status ao empreendedorismo. A CLT, por sua vez, aparece como obsoleta, ligada à figura de um trabalhador infeliz e preso a rotinas exaustivas.
Influenciadores, coaches e criadores de conteúdo vendem a ideia de que o sucesso depende exclusivamente do esforço individual. A propaganda ignora que o empreendedorismo bem-sucedido é exceção — não regra.
A precariedade em números
Jovens pedem demissão por baixos salários e estresse
Uma pesquisa recente do Ministério do Trabalho reforça a gravidade do problema. Entre os jovens de 14 a 24 anos, os principais motivos para o abandono de empregos formais incluem:
- Baixos salários: citados por 29% dos adolescentes (14 a 17 anos) e 36% dos jovens adultos (18 a 24 anos);
- Falta de flexibilidade: razão para a saída de 20% dos jovens;
- Adoecimento mental: atinge 21% dos adolescentes e 26% dos jovens;
- Problemas com chefia, mobilidade e reconhecimento: também aparecem entre as queixas.
Condições indignas geram descrença no modelo formal
A médica e pesquisadora da Fundacentro, Maria Maeno, destaca que a rejeição à CLT é parte de uma campanha antiga de desvalorização dos direitos trabalhistas. Porém, o avanço das redes sociais deu novo fôlego a essa ofensiva, tornando o discurso mais atraente às novas gerações.
Ela ressalta que muitos jovens enxergam os pais e mães — trabalhadores formais — como pessoas que sempre se sacrificaram e, ainda assim, alcançaram pouco em termos materiais e qualidade de vida.
O papel das redes sociais na propagação do discurso

Influência de algoritmos e discursos meritocráticos
A pesquisa “Mídias Sociais como Plataforma de Trabalho Digital” mostra como o marketing digital atua na disseminação de narrativas contra os direitos trabalhistas. Plataformas como YouTube, TikTok e Instagram favorecem conteúdos que exaltam a autonomia e o lucro pessoal, ao mesmo tempo que retratam a CLT como prisão.
Para a historiadora Laura Sabino, há um esquecimento perigoso: os jovens não aprendem mais que os direitos trabalhistas são resultado de lutas coletivas. O 13º salário, as férias remuneradas, o FGTS e a aposentadoria passaram a ser vistos como concessões políticas e não como conquistas da classe trabalhadora.
“Esse discurso camufla o fato de que os verdadeiros empresários lucram com a ausência de direitos. Quando o trabalhador se culpa pelo fracasso, ele não se organiza contra a exploração”, destaca Sabino.
Educação e organização coletiva como saídas
O papel fundamental da escola
Segundo Fernando Cássio, é urgente disputar a narrativa dentro do currículo escolar. As escolas devem resistir à lógica do mercado e ao culto ao empreendedorismo como solução mágica. Precisam formar cidadãos críticos, capazes de entender os processos históricos e sociais que moldam suas condições de vida.
“A escola tem o papel de ensinar o conhecimento acumulado da humanidade. Só com esse repertório é possível compreender a precarização e combatê-la.”
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Fortalecer a coletividade, recuperar a esperança
Maria Maeno observa que a desarticulação de sindicatos, partidos e movimentos sociais também ajuda a enfraquecer a noção de coletivo e a reforçar soluções individualistas. Sem organização, os jovens sentem-se sozinhos diante de um sistema que os explora.
Ela alerta para a falsa promessa do sucesso fácil e da monetização de talentos nas redes. É a mesma lógica que, no passado, vendia o sonho de ser jogador de futebol ou estrela de TV — e que segue beneficiando uma minoria enquanto frustra a maioria.
Trabalho informal: glamour e realidade
Entregadores e trabalhadores de aplicativos
Entre os que abraçaram o trabalho plataformizado, como motoristas e entregadores por aplicativo, há uma parcela crescente de jovens. Mas a falta de direitos, a exposição à violência e o adoecimento revelam a realidade cruel por trás da promessa de liberdade.
Bancários, servidores e domésticas em queda de proteção
Mesmo profissões historicamente protegidas enfrentam precarização. Bancários vivem sob metas inatingíveis e terceirizações. Servidores públicos lidam com ataques a seus direitos e à sua função social. Trabalhadoras domésticas ainda convivem com informalidade e desrespeito, mais de uma década após a regulamentação da profissão.
Por que precisamos falar disso?

A narrativa que desacredita a CLT não é neutra. Ela serve a interesses econômicos claros, que se beneficiam da fragmentação da classe trabalhadora. Lutar por melhores condições de trabalho, por direitos e por tempo livre para viver é uma urgência.
O futuro do trabalho não pode se basear em promessas ilusórias de sucesso individual. É preciso recuperar a ideia de trabalho digno como direito — e não como castigo.
Conclusão: retomar os sonhos coletivos
Enquanto a juventude brasileira for convencida de que liberdade é ausência de direitos, os lucros continuarão a se concentrar nas mãos de poucos. Reverter esse cenário exige organização, educação crítica e o resgate de uma visão de mundo que valorize a justiça social.
A luta por um trabalho digno é também a luta por uma vida com tempo para criar, conviver e sonhar. É hora de lembrar que a CLT, com todos os seus limites, é fruto da resistência — e que abandoná-la sem alternativa é entregar-se à precarização total.
