O Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJ-RS) publicou na segunda-feira, 7 de julho, a decisão que determina a demissão da juíza substituta Angélica Chamon Layoun. A magistrada, que atuava na comarca de Cachoeira do Sul, foi exonerada após pouco mais de um ano no cargo, em razão de irregularidades constatadas na condução de processos cíveis. O caso ganhou repercussão nacional por envolver práticas consideradas graves no exercício da função jurisdicional.
TJ‑RS demite juíza que repetiu sentença em quase 2 000 processos
TJ-RS demite juíza por repetir decisões em massa e desarquivar processos já julgados para inflar produtividade, aponta processo disciplinar.
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Entenda o que levou à demissão

Decisões em série e uso repetido de modelos
De acordo com o processo administrativo disciplinar (PAD) instaurado pelo TJ-RS, a juíza teria utilizado o mesmo modelo de sentença em cerca de 2 mil processos cíveis. O documento apontou que, em muitos casos, os textos das decisões eram praticamente idênticos, mudando apenas dados pontuais, como o nome das partes envolvidas.
A prática, além de comprometer a individualização das sentenças, caracteriza, segundo o tribunal, um desvio funcional, já que cada caso deve ser analisado com atenção às suas peculiaridades. A utilização de textos padronizados em larga escala foi considerada incompatível com o dever de zelo, diligência e imparcialidade exigidos pela magistratura.
Reativação de processos já encerrados
Outro ponto grave apontado no PAD foi a reabertura de processos já julgados para a prolação de novas sentenças, com conteúdo semelhante às decisões anteriores. O TJ-RS entendeu que essa ação não apenas violava os trâmites regulares do Judiciário, como também visava inflar artificialmente os indicadores de produtividade da juíza perante o Conselho Nacional de Justiça (CNJ).
Segundo o relatório do processo disciplinar, essas reativações não tinham motivação jurídica legítima, o que tornou a prática ainda mais preocupante aos olhos da corregedoria do tribunal.
O que diz o Tribunal de Justiça do RS
Declaração oficial e efeitos da decisão
Em nota oficial, o TJ-RS afirmou que “a conduta da magistrada revelou padrão de atuação incompatível com os princípios da função judicante, comprometendo a confiança da sociedade na imparcialidade e na regularidade da atividade jurisdicional”. A corte ressaltou ainda que a decisão de demissão foi tomada com base em análise minuciosa da corregedoria e do Conselho da Magistratura.
A exoneração da juíza foi aprovada por unanimidade entre os desembargadores responsáveis pelo julgamento do PAD. A decisão já foi publicada no Diário da Justiça e tem efeito imediato.
Repercussão no meio jurídico
Afastamento da juíza e defesa no processo
Angélica Chamon Layoun havia sido afastada preventivamente durante a apuração dos fatos. Durante sua defesa no PAD, a magistrada alegou que o uso de modelos de decisão visava dar celeridade ao Judiciário e que não havia má-fé em sua atuação. Ela também afirmou que os casos semelhantes justificavam a padronização das sentenças.
No entanto, os argumentos não foram suficientes para afastar as conclusões da corregedoria, que enfatizou a necessidade de análise individualizada dos casos, mesmo quando envolvem matérias semelhantes.
Juristas criticam e cobram mais fiscalização
Entidades da magistratura e representantes do Ministério Público expressaram preocupação com o episódio. Para muitos, o caso evidencia falhas de controle interno e levanta questionamentos sobre os critérios de produtividade adotados nos tribunais.
Advogados ouvidos pela reportagem afirmaram que a repetição mecânica de decisões compromete o direito das partes a um julgamento justo e individualizado. “Cada cidadão tem direito a uma sentença feita sob medida para seu caso, e não a uma fórmula aplicada em série”, afirmou um defensor público gaúcho.
A produtividade e a pressão por metas no Judiciário

O papel das metas do CNJ
O Conselho Nacional de Justiça estabelece metas anuais para os tribunais brasileiros, com o objetivo de reduzir a morosidade processual e aumentar a eficiência. Embora sejam ferramentas importantes para a melhoria dos serviços, essas metas vêm sendo alvo de críticas quando levadas ao extremo.
Especialistas em administração judiciária apontam que a obsessão por produtividade pode gerar distorções, como a priorização da quantidade sobre a qualidade das decisões.
Quando a eficiência vira risco
O caso da juíza Angélica Chamon Layoun escancara o perigo dessa lógica. Ao tentar cumprir ou superar metas de produtividade, magistrados podem adotar práticas que colocam em xeque a própria finalidade do Judiciário: garantir justiça de forma justa, imparcial e fundamentada.
A reativação de processos encerrados apenas para a emissão de novas sentenças idênticas representa um dos exemplos mais extremos desse desvio. Para analistas, a demissão da magistrada pode funcionar como um alerta institucional para a revisão de métricas e condutas.
Como funciona um processo administrativo disciplinar
Etapas do PAD na magistratura
Um processo administrativo disciplinar (PAD) na magistratura segue etapas rigorosas e obedece a normas estabelecidas pela Lei Orgânica da Magistratura Nacional (Loman). Entre os passos estão:
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- Investigação preliminar
- Abertura de sindicância ou PAD
- Afastamento cautelar, se necessário
- Direito de ampla defesa e contraditório
- Julgamento por órgão colegiado do tribunal
No caso de Angélica Layoun, a apuração durou vários meses e envolveu análise de milhares de decisões proferidas em curto espaço de tempo, além da verificação de movimentações processuais consideradas atípicas.
Possibilidade de recurso
Mesmo após a exoneração, a juíza pode recorrer da decisão ao Conselho Nacional de Justiça, que tem poder para revisar atos administrativos dos tribunais. No entanto, segundo juristas consultados, a reversão de exonerações é rara, especialmente quando há unanimidade na decisão e farta documentação comprobatória.
Transparência e confiança no sistema judicial
Riscos de descredibilização
Casos como este afetam diretamente a confiança da população no sistema de Justiça. Para especialistas em ética judicial, quando um magistrado age fora dos limites legais e éticos, mina-se a percepção pública sobre a imparcialidade e a equidade das instituições.
Medidas preventivas em debate
Após a repercussão, integrantes do TJ-RS e de outras cortes estaduais começaram a discutir a necessidade de aprimorar os sistemas de auditoria interna, a fim de detectar comportamentos anômalos mais rapidamente. Além disso, há propostas de aprimorar a análise qualitativa das decisões, e não apenas quantitativa.
Quem é Angélica Chamon Layoun

Breve trajetória da magistrada
Natural do Rio de Janeiro, Angélica Chamon Layoun ingressou na magistratura gaúcha após aprovação em concurso público em 2022. Antes de assumir a comarca de Cachoeira do Sul, ela atuou brevemente como juíza substituta em outras comarcas do interior do estado.
Com menos de dois anos de carreira, sua trajetória foi interrompida por um dos episódios mais controversos envolvendo juízes de primeiro grau no país nos últimos anos. Agora, a ex-magistrada deve enfrentar não apenas as implicações funcionais de sua demissão, como também os impactos sobre sua reputação profissional.
Conclusão
O caso da juíza Angélica Chamon Layoun evidencia como práticas aparentemente voltadas à eficiência podem comprometer a integridade do Judiciário. A demissão da magistrada pelo TJ-RS reforça a importância da individualização das decisões, do respeito aos trâmites legais e da transparência na condução dos processos. Mais do que números, a Justiça deve priorizar a confiança da sociedade e a qualidade das decisões — pilares essenciais para a preservação do Estado de Direito.
