Entenda a decisão do governo sobre cassinos e o que vem por aí
A legalização dos cassinos no Brasil é tema recorrente no Congresso Nacional há décadas. Desde a proibição formal em 1946, diversos projetos de lei tentaram reverter a decisão que baniu os jogos de azar no país.
Mais recentemente, o projeto de lei 2.234/2022 voltou a colocar o tema em destaque, propondo a regulamentação não apenas de cassinos, mas também de bingos, videobingos, jogo do bicho e turfe (corridas de cavalo com apostas).
Contudo, no último dia 8 de julho, a proposta sofreu novo revés. O presidente do Senado, Davi Alcolumbre (União-AP), retirou o PL da pauta de votações, frustrando os defensores da medida e reacendendo o debate público sobre os impactos da legalização dos jogos de azar no país.
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O que dizia o PL 2.234/2022?

O projeto de lei 2.234/2022 tem origem na Câmara dos Deputados e foi aprovado em 2022. Atualmente em tramitação no Senado, ele propõe:
- Autorização de funcionamento de cassinos integrados a resorts;
- Regulamentação de bingos em casas específicas e em clubes esportivos;
- Legalização do jogo do bicho, com controle e fiscalização;
- Inclusão dos jogos de videobingo como atividade legal;
- Apostas em corridas de cavalos, o chamado turfe, com previsão legal para exploração.
A proposta apresenta medidas de arrecadação tributária, controle estatal e combate à lavagem de dinheiro, com a criação de um marco regulatório que visa dar segurança jurídica às atividades.
Por que o projeto foi retirado da pauta?
Justificativas do Senado
O presidente do Senado justificou a retirada do projeto de votação em razão do baixo quórum, da divisão de opiniões entre os senadores e pedidos de adiamento por parte de líderes partidários. Em outras palavras, não havia consenso suficiente para garantir que a votação ocorresse de maneira sólida e representativa.
Reações à decisão
O senador Eduardo Girão (Novo-CE), conhecido por sua postura contrária à legalização dos jogos de azar, comemorou a retirada e defendeu que o projeto seja analisado por pelo menos três comissões temáticas antes de ir a plenário novamente.
Cassinos no Brasil: da ascensão à proibição
Auge nos anos Vargas
Durante as décadas de 1930 e 1940, o Brasil viveu o auge dos cassinos. Havia mais de 70 estabelecimentos operando legalmente em todo o território nacional. Muitos deles estavam integrados a grandes hotéis e movimentavam a economia local, além de atrair turistas e artistas internacionais.
Decreto de proibição
Em 30 de abril de 1946, o então presidente Eurico Gaspar Dutra assinou o Decreto-Lei nº 9.215, proibindo o funcionamento de cassinos e demais formas de jogos de azar. A justificativa oficial foi baseada em valores religiosos e morais, alegando que tais práticas eram “nocivas aos bons costumes”.
Influência de “Dona Santinha”
Relatos históricos apontam que Carmela Teles Leite Dutra, esposa do presidente Dutra, teria desempenhado papel fundamental na proibição. Católica fervorosa e ativa nas campanhas da Igreja contra os jogos de azar, ela teria pressionado o presidente a assinar o decreto — o que selou o destino dos cassinos no Brasil por quase 80 anos.
O que dizem os defensores da legalização?
Geração de empregos e arrecadação
Os defensores do projeto afirmam que a legalização dos cassinos pode gerar milhares de empregos diretos e indiretos, além de estimular o turismo e atrair investimentos estrangeiros. Estima-se que a legalização possa movimentar até R$ 50 bilhões por ano na economia brasileira.
Combate à clandestinidade
Outro argumento frequente é que os jogos de azar já ocorrem no Brasil de forma clandestina, sem qualquer controle ou arrecadação de impostos. A regulamentação permitiria monitoramento, tributação e combate efetivo a crimes como lavagem de dinheiro e corrupção.
Turismo e desenvolvimento regional
Com cassinos integrados a resorts, o país poderia impulsionar o turismo de alto padrão, especialmente em regiões como Nordeste, Sul e Sudeste. Cidades como Foz do Iguaçu, Natal e Fortaleza já foram citadas como possíveis candidatas a abrigar complexos turísticos com cassinos.
Quem é contra e por quê?
Riscos sociais
Os opositores apontam que a legalização dos jogos de azar pode levar ao aumento da dependência patológica, ou seja, o vício em jogos. Também alertam para os riscos de endividamento de famílias, exploração financeira de vulneráveis e criminalidade associada.
Impacto moral e cultural
Setores religiosos e conservadores consideram que os jogos contrariam valores tradicionais e podem incentivar comportamentos nocivos à sociedade. Ainda hoje, parte do Congresso defende que a atividade seja mantida como ilícita com base em fundamentos éticos e culturais.
Falta de regulamentação robusta
Há também quem critique o projeto por não apresentar um modelo regulatório suficientemente sólido. A ausência de detalhes sobre fiscalização, prevenção ao vício e transparência no uso da arrecadação geram insegurança entre parlamentares e especialistas.
Próximos passos no Congresso
Com a retirada da pauta, o PL 2.234/2022 volta à estaca zero no Senado. É possível que ele seja encaminhado a comissões como:
- Comissão de Constituição e Justiça (CCJ);
- Comissão de Assuntos Econômicos (CAE);
- Comissão de Direitos Humanos (CDH).
A expectativa é que o projeto seja reavaliado em um cenário com maior consenso político e técnico. Contudo, não há data definida para a retomada da análise.
Comparativo internacional: como o mundo lida com cassinos?
Estados Unidos
Nos EUA, os cassinos são legalizados em vários estados, como Nevada e Nova Jersey. Las Vegas é referência global na exploração legal de jogos de azar, com forte regulação e alto retorno econômico.
Portugal
Portugal permite a operação de cassinos em regiões específicas. A atividade é controlada por concessões estatais e gera importante receita fiscal.
Uruguai e Argentina
Países vizinhos como Uruguai e Argentina já possuem cassinos legalizados, inclusive em regiões fronteiriças com o Brasil. Muitos brasileiros viajam a esses países para jogar, o que representa fuga de divisas.
O que pensam os especialistas?
Economistas
Economistas defendem que, se bem regulada, a atividade pode representar uma nova fonte de arrecadação tributária e redução da informalidade. Contudo, alertam para a necessidade de um marco regulatório rígido e transparente.
Psicólogos e assistentes sociais
Especialistas em saúde mental alertam que o vício em jogos é uma condição clínica séria. Defendem que qualquer legalização deve vir acompanhada de campanhas de prevenção, apoio psicológico e serviços de acolhimento.
Conclusão: avanço ou retrocesso?
A retirada do PL 2.234/2022 da pauta do Senado mostra que o Brasil ainda não chegou a um consenso sobre a legalização dos cassinos. Enquanto os defensores enxergam uma oportunidade econômica e de regularização, os críticos temem impactos sociais negativos e fragilidade na fiscalização.
Resta agora acompanhar os desdobramentos no Congresso e avaliar como o país pode lidar com essa complexa e polêmica questão.
Imagem: Aidan Howe / pixabay.com – Edição: Seu Crédito Digital