Líderes do BRICS discutem estratégias para ampliar comércio entre os países membros
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva reuniu virtualmente, na segunda-feira (8.set.2025), chefes de Estado e representantes do Brics ampliado para discutir estratégias conjuntas diante da escalada protecionista dos Estados Unidos sob o governo de Donald Trump.
Com o Brasil na presidência rotativa do bloco, Lula defendeu o multilateralismo como caminho para enfrentar o aumento de tarifas americanas contra parceiros comerciais e apresentou propostas que vão da reforma da OMC à criação de um Conselho de Mudança do Clima da ONU, passando pela soberania digital.
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O contexto: tarifaço e tensões comerciais
Nova política dos EUA
O chamado tarifaço da Casa Branca foi interpretado por analistas como uma tentativa de reverter a perda de competitividade dos EUA frente à China. No entanto, especialistas também avaliam que a medida tem caráter político, mirando diretamente o Brics, bloco que discute alternativas ao dólar nas trocas internacionais.
Impacto global
Para Lula, a escalada de tarifas ameaça a estabilidade do comércio internacional:
“A chantagem tarifária está sendo normalizada como instrumento para conquista de mercados e para interferir em questões domésticas”, afirmou.
Ele acusou os EUA de recorrerem a sanções extraterritoriais e de tentar dividir países emergentes, estratégia que chamou de “unilateralismo disfarçado de defesa nacional”.
O discurso de Lula: multilateralismo como resposta
Crise da OMC
Segundo Lula, a Organização Mundial do Comércio (OMC) está paralisada e perdeu capacidade de arbitrar disputas. Ele citou a necessidade de união do Brics para a 14ª Conferência Ministerial, marcada para 2026 em Camarões.
“Em poucas semanas, medidas unilaterais transformaram em letra morta princípios basilares do livre comércio. Agora assistimos ao enterro formal desses princípios”, disse.
Dados que sustentam o discurso
Lula destacou a força do bloco:
- 40% do PIB global;
- 26% do comércio internacional;
- quase 50% da população mundial;
- 33% das terras agricultáveis;
- 42% da produção agropecuária mundial.
“Temos legitimidade para liderar a refundação do sistema multilateral de comércio em bases modernas, flexíveis e voltadas às nossas necessidades”, reforçou.
O papel do NDB
O presidente citou o Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), conhecido como Banco do Brics, como peça central para diversificação econômica e financiamento de uma industrialização verde com foco em emprego e renda.
Brics e a geopolítica: união diante das pressões
Xi Jinping e a IGG
O presidente da China, Xi Jinping, apresentou na cúpula a ideia da Iniciativa de Governança Global (IGG), um embrião de nova ordem internacional baseada na multipolaridade.
A proposta foi reforçada após encontro de Xi com Vladimir Putin e Narendra Modi, sinalizando alinhamento entre as principais potências do bloco.
Ampliação do Brics
Criado em 2009, o Brics hoje reúne Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, além de novos membros admitidos em 2024: Arábia Saudita, Egito, Emirados Árabes Unidos, Etiópia, Indonésia e Irã. A diversidade do grupo é apontada por Lula como prova de sua representatividade global.
Lula critica guerras e ingerências externas
Ucrânia, Gaza e Caribe
Lula condenou a incapacidade internacional de resolver conflitos como a guerra na Ucrânia e o genocídio em Gaza.
Também criticou a presença de submarinos e navios dos EUA no Caribe, próximos à Venezuela, que acusa Washington de tentar impor uma “troca de regime”.
“A presença de forças armadas da maior potência do mundo no Mar do Caribe é fator de tensão incompatível com a vocação pacífica da região”, disse Lula.
Zona de paz
Ele lembrou que a América Latina e o Caribe, desde 1968, se declararam livres de armas nucleares, sendo uma região que se consolidou como Zona de Paz e Cooperação.
Meio ambiente e a COP30 em Belém
Propostas climáticas
Com a COP30 marcada para novembro em Belém, Lula reforçou a pauta ambiental. Ele sugeriu a criação de um Conselho de Mudança do Clima da ONU, que unifique os diversos mecanismos globais hoje fragmentados.
“O impacto do unilateralismo também é grave na esfera ambiental. A COP30 será o momento da verdade e da ciência”, disse.
Financiamento da transição
O presidente defendeu que os combustíveis fósseis ainda podem ser utilizados para financiar a transição ecológica, desde que em um modelo de descarbonização planejada.
O debate sobre soberania digital
Multilateralismo no espaço virtual
Em preparação à 80ª Assembleia Geral da ONU, Lula também abordou a necessidade de uma governança digital democrática.
“Sem soberania digital, seremos vulneráveis à manipulação estrangeira. Isso não significa isolacionismo, mas cooperação a partir de ecossistemas nacionais, independentes e regulados.”
A fala reflete preocupações do Brasil e de outros países do Sul Global com a concentração de poder em big techs ocidentais.
Participantes da cúpula virtual
Além de Lula e Xi Jinping, participaram da reunião:
- líderes do Egito, Indonésia, Irã, Rússia e África do Sul;
- o príncipe herdeiro dos Emirados Árabes Unidos;
- o chanceler da Índia;
- o vice-ministro das Relações Exteriores da Etiópia.
O encontro reforçou o alinhamento do bloco em temas de comércio, segurança e clima.
Imagem: Nerthuz / Shutterstock.com