Durante o lançamento do Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026, na segunda-feira (30 de junho), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) aproveitou a ocasião para cobrar o ministro da Fazenda, Fernando Haddad, sobre a divulgação das taxas de juros praticadas nos programas de crédito agrícola do governo federal, que, segundo ele, são muito mais baixas que a taxa Selic, atualmente fixada em 15% ao ano.
Lula cobra que Haddad fale mais sobre juros reais menores que a Selic
Lula cobra Haddad por divulgar mais os juros baixos do Plano Safra 2025, que destina R$ 78,2 bi à agricultura familiar.
O evento, realizado em Brasília, marcou o anúncio de um pacote de R$ 78,2 bilhões em crédito rural subsidiado, com taxas que variam de 0,5% a 8% ao ano, conforme as linhas do Programa Nacional de Fortalecimento da Agricultura Familiar (Pronaf). Em seu discurso, Lula defendeu que a sociedade precisa olhar para além da Selic e compreender que, em programas como o Pronaf, o juro real pode ser até negativo, após o desconto da inflação.
“Uma coisa, Haddad, que você precisa falar mais. E nós precisamos falar mais, porque aqui a gente fala muito na taxa de juros. Todo mundo fala da taxa de juros. Todo mundo fica olhando o aumento da Selic para ver que o mundo tá uma desgraça por causa da Selic”, afirmou o presidente.
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Juros abaixo da Selic: entenda os números do Plano Safra
O novo Plano Safra contempla diversas linhas de financiamento específicas dentro do Pronaf, com condições diferenciadas conforme o público, o tipo de produção e a finalidade do crédito. Segundo Lula, parte das taxas anunciadas fica muito abaixo da inflação prevista para 2025, o que significa juros reais negativos.
Linhas de crédito e taxas anunciadas:
Pronaf Custeio
- Para produção de alimentos básicos como arroz, feijão, mandioca, frutas, verduras, ovos e leite: 3% ao ano;
- Cultivos orgânicos ou agroecológicos: 2% ao ano.
Pronaf Investimento
- Para linhas como Pronaf Floresta, Agroecologia, Jovem, Bioeconomia, Semiárido, entre outras: 3% ao ano;
- Inclui apoio à conectividade no campo, acessibilidade e avicultura.
Mais Alimentos
- Máquinas e equipamentos de até R$ 100 mil para famílias com renda de até R$ 150 mil/ano: 2,5% ao ano;
- Para tratores e demais máquinas até R$ 250 mil: 5% ao ano.
Pronaf B Agroecologia
- Juros de 0,5% ao ano, com bônus de adimplência de até 40%.
Adaptação às mudanças climáticas
- Projetos com energia solar e irrigação adaptada:
- 3% ao ano no Semiárido e Bioeconomia;
- 2,5% ao ano na linha Mais Alimentos.
Cálculo dos juros reais
A conta feita por Lula parte da lógica de que, se a inflação está em 5% e a taxa de juros é de 3% ao ano, o juro real é -2%, ou seja, o produtor “ganha” em termos de poder de compra ao tomar crédito. Essa é uma aproximação da fórmula de juros reais, usada para comparar efetivamente taxas e inflação.
O Boletim Focus, divulgado pelo Banco Central também na segunda-feira (30), projeta IPCA de 5,20% para 2025, confirmando o cenário em que algumas linhas do Pronaf operam com juros reais negativos.
“A taxa mais alta que vi ali foi 5%. É importante lembrar que uma taxa de juros a 5%, numa inflação de 5%, é taxa de juros zero”, declarou Lula.
Lula reforça apoio à agricultura familiar e crédito acessível
Segmento estratégico
A agricultura familiar é apontada pelo governo como estratégica para a segurança alimentar do país, e representa aproximadamente 70% dos alimentos consumidos pelos brasileiros. Lula defendeu o fortalecimento contínuo do setor, com destaque para a produção sustentável, agroecológica e regionalizada.
“O pequeno produtor precisa ter acesso ao crédito mais barato, porque é ele quem abastece as feiras, os supermercados e o mercado interno. Sem apoio, não há comida de verdade na mesa do povo”, disse o presidente.
Inclusão e inovação
O novo plano também traz inovações, como a linha específica para adaptação às mudanças climáticas, com apoio a projetos sustentáveis e tecnologias limpas. A conectividade rural e a acessibilidade para produtores com deficiência também foram contempladas.
Cobrança a Haddad e críticas à Selic

Ao cobrar mais comunicação do governo sobre as taxas baixas praticadas nos programas públicos, Lula também fez uma crítica indireta ao debate excessivo em torno da Selic, afirmando que essa visão limitada distorce a realidade do crédito público subsidiado.
“Nós ficamos reféns da taxa Selic, mas não mostramos que existem linhas com juros muito abaixo disso, como no Pronaf. É preciso comunicar isso ao país”, insistiu Lula.
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Defesa do BC e elogio a Galípolo
Em tom conciliador, Lula elogiou o presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, seu indicado, e disse ter confiança de que a política monetária será ajustada “com o tempo”. O petista evitou críticas diretas à autoridade monetária, apesar de pressões internas por redução mais rápida da Selic, mantida em 15% pelo Comitê de Política Monetária (Copom).
“O Banco Central é independente. O Galípolo é um presidente muito sério e eu tenho certeza de que as coisas vão ser corrigidas com o tempo. Nós sabemos o que herdamos e não queremos chorar. Queremos mostrar o que vamos fazer”, afirmou Lula.
Conflitos na política fiscal
Apesar do tom otimista, Lula também enfrenta cobranças crescentes sobre a política fiscal de seu governo. O aumento dos gastos públicos, somado à dificuldade de aprovar medidas de ajuste no Congresso, tem gerado preocupações no mercado e no próprio Banco Central, que vê risco de pressão inflacionária.
Pressão sobre Haddad
Fernando Haddad, que tem sido o principal articulador da política econômica, vem tentando manter a meta de déficit zero. No entanto, as resistências dentro do próprio governo a cortes de gastos e a demora na aprovação de medidas compensatórias enfraquecem o discurso de responsabilidade fiscal.
“Se os gastos aumentam e não há ajuste fiscal, o Banco Central tem de agir para conter a inflação, o que acaba mantendo os juros altos”, explica o economista Cláudio Lima, da FGV.
Reações ao discurso
A cobrança pública de Lula a Haddad dividiu opiniões. Enquanto aliados viram a fala como uma estratégia de comunicação política, opositores interpretaram como sinal de desalinhamento interno.
- Aliados destacaram a importância de comunicar melhor os avanços da política de crédito subsidiado, principalmente no interior do país;
- Opositores apontaram que o presidente tenta desviar o foco das críticas à sua gestão fiscal, jogando a responsabilidade da Selic alta no BC.
Expectativas para a Selic

A expectativa do mercado financeiro, segundo o Boletim Focus, é que a taxa básica de juros comece a cair ainda em 2025, com projeções de Selic a 12,25% até dezembro. No entanto, essa redução depende do avanço nas pautas fiscais e da trajetória da inflação.
O próprio Lula reconheceu que a queda não será imediata: “Com o tempo, a taxa vai cair”.
Imagem: Agência Brasil
