Durante visita oficial à Indonésia nesta quinta-feira (23), o presidente Luiz Inácio Lula da Silva fez duras críticas ao avanço do protecionismo nas relações internacionais, à possibilidade de uma nova Guerra Fria e ao uso do dólar como moeda dominante nas trocas comerciais. Em um discurso que uniu pragmatismo econômico e defesa do multilateralismo, Lula propôs a adoção de moedas locais em acordos bilaterais com a Indonésia, como forma de ampliar o comércio e reduzir a dependência cambial.
Lula critica nova “Guerra Fria” e propõe sistema comercial independente do dólar
Durante visita à Indonésia, Lula criticou o protecionismo global e sugeriu comércio bilateral em moeda local, como alternativa ao dólar.
O presidente não citou diretamente o atual presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, que retornou ao cargo neste ano com uma política fortemente marcada por barreiras tarifárias e confrontos comerciais, mas os sinais de crítica ao modelo americano foram claros. “Os países não podem ser dependentes de ninguém”, afirmou Lula, em um recado direto às potências que exercem influência desproporcional sobre a economia global.
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Um novo capítulo nas relações Brasil-Indonésia
A visita de Lula à Indonésia ocorre em um momento de busca por novos parceiros comerciais e estratégicos para o Brasil. O país asiático é a maior economia do sudeste asiático, com um mercado consumidor de mais de 270 milhões de pessoas e relevante papel no G20 e na ASEAN.
Proposta de moeda local ganha destaque
No centro da proposta de Lula está a utilização de moedas nacionais nas trocas bilaterais, uma ideia que já havia sido defendida em fóruns do BRICS e que visa reduzir a dependência do dólar em um momento de instabilidade cambial e aumento da influência política dos EUA sobre os fluxos financeiros globais.
“Precisamos discutir com seriedade a possibilidade de realizar transações comerciais em nossas próprias moedas. Isso fortalece nossas economias e nos dá soberania nas decisões”, declarou Lula durante coletiva de imprensa conjunta com o presidente indonésio Joko Widodo.
Críticas ao protecionismo e à nova Guerra Fria
Um sistema internacional desequilibrado
Lula aproveitou a ocasião para reiterar suas críticas à reorganização do comércio global em blocos ideológicos e ao crescimento do protecionismo disfarçado de política industrial. Para o presidente brasileiro, essas medidas não apenas limitam o crescimento dos países em desenvolvimento, como também aprofundam as desigualdades entre as nações.
“Não podemos aceitar um mundo dividido por muros tarifários ou disputas entre potências. Isso não é cooperação, é retrocesso”, afirmou Lula, em um trecho do discurso direcionado à comunidade empresarial e diplomática reunida em Jacarta.
Alusão à nova Guerra Fria
Embora sem citar diretamente os EUA ou a China, Lula alertou sobre o risco de uma nova Guerra Fria, marcada não por confronto militar, mas por restrições tecnológicas, sanções econômicas e competição por influência geopolítica. Segundo o presidente, esse tipo de rivalidade não serve aos interesses do Sul Global.
“Os países em desenvolvimento não podem ser arrastados para conflitos que não são seus. Precisamos construir pontes, não trincheiras”, reforçou.
Alternativa ao dólar: entre pragmatismo e soberania

A ideia de utilizar moedas locais no comércio internacional não é nova, mas tem ganhado força nos últimos anos, especialmente entre países do BRICS e outras economias emergentes que buscam maior autonomia monetária. A proposta visa mitigar os riscos cambiais e reduzir os custos de transação associados ao uso do dólar.
Precedentes e modelos já em prática
- China e Rússia já adotam práticas semelhantes em acordos bilaterais.
- O BRICS Pay, sistema alternativo de pagamentos, foi debatido na última cúpula do grupo.
- O Brasil e a Argentina chegaram a discutir algo semelhante em 2023, mas a proposta não avançou por instabilidade macroeconômica na região.
Agora, com a Indonésia, um país com estabilidade fiscal e amplo mercado, a proposta ganha novo fôlego e pode servir de modelo para outros acordos bilaterais.
Contexto geopolítico: as entrelinhas do discurso
Lula evita citar Trump, mas recado é claro
O retorno de Donald Trump à presidência dos Estados Unidos neste ano reacendeu preocupações globais sobre a volta do isolacionismo americano, aumento das tarifas de importação e desmonte de acordos multilaterais. Embora Lula não tenha citado Trump nominalmente, suas críticas ao protecionismo e à unilateralidade deixaram clara a insatisfação do Brasil com a postura norte-americana.
“Não vamos crescer se cada um pensar só em si. A interdependência deve ser uma força de cooperação, não de submissão”, disse Lula, em uma possível referência às novas tarifas impostas pelos EUA a parceiros comerciais estratégicos.
Brasil busca protagonismo global
O discurso também reflete a estratégia diplomática do governo Lula de se posicionar como ator relevante na governança global, sem se alinhar automaticamente a blocos hegemônicos. O Brasil tem buscado atuar como articulador entre diferentes regiões e fomentar um comércio internacional mais inclusivo, descentralizado e equitativo.
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O que muda na prática com o comércio em moeda local?

Vantagens esperadas
- Redução de custos com conversão cambial
- Menor exposição à volatilidade do dólar
- Facilitação de investimentos bilaterais
- Estímulo ao comércio entre empresas de médio porte
Desafios operacionais
- Necessidade de acordos entre bancos centrais
- Criação de sistemas de compensação monetária
- Ajustes regulatórios e fiscais
- Resistência de exportadores que preferem contratos em dólar
Mesmo com esses desafios, a sinalização política dada por Lula e Widodo representa um marco na construção de uma nova arquitetura financeira para os países em desenvolvimento.
Repercussão internacional e próximos passos
Reações diplomáticas
A proposta de Lula foi bem recebida pelo governo indonésio, que demonstrou interesse em aprofundar as discussões técnicas. Diplomatas envolvidos nas negociações indicam que os ministérios da Fazenda e os bancos centrais de ambos os países devem começar em breve estudos conjuntos sobre viabilidade e implementação.
Mercado reage com cautela
Analistas financeiros demonstraram cautela quanto à adoção imediata da medida, mas reconheceram o potencial estratégico da diversificação monetária, especialmente para economias emergentes que enfrentam alta volatilidade cambial e restrições externas.
“A proposta é ousada, mas faz sentido no atual contexto global de fragmentação econômica. A médio prazo, pode reduzir pressões inflacionárias e ampliar o comércio Sul-Sul”, afirmou Luciana Vasconcellos, economista-chefe da Brasil Trade Consultoria.
Imagem: Marcelo Camargo / Agência Brasil
