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“Age como imperador”, diz Lula sobre Trump ao comentar tarifas dos EUA

Avatar de Kayky Santos Kayky Santos · · 13 min de leitura
Tarifas

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva elevou o tom ao comentar sua relação com Donald Trump e voltou a colocar sobre a mesa uma ferramenta que pode afetar diretamente o comércio entre Brasil e Estados Unidos. Em entrevista concedida nesta segunda-feira (21), em Nova York, Lula afirmou que o presidente norte-americano age como um “imperador” nas relações internacionais e disse que o Brasil poderá recorrer à Lei da Reciprocidade Econômica caso as negociações sobre as novas tarifas impostas aos produtos brasileiros não avancem.

Apesar da declaração, uma mudança imediata nas tarifas brasileiras contra produtos dos Estados Unidos não foi anunciada. Pelo contrário: Lula afirmou que pretende manter o diálogo com Washington enquanto houver possibilidade de acordo.

A diferença é importante. A Lei da Reciprocidade já permite juridicamente ao Brasil adotar contramedidas, mas sua aplicação depende de um processo próprio e não significa simplesmente aumentar tarifas norte-americanas de forma automática.

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O que Lula disse sobre Trump?

A declaração foi feita durante entrevista à jornalista Christiane Amanpour, da CNN Internacional, enquanto Lula estava nos Estados Unidos para compromissos relacionados à Assembleia Geral das Nações Unidas.

Ao comentar a condução da política externa norte-americana por Donald Trump, o presidente brasileiro afirmou discordar da postura adotada pelo republicano.

Lula disse que Trump age como um “imperador” e criticou uma lógica que, em sua avaliação, coloca o poder econômico e político dos Estados Unidos acima dos interesses de outros países.

Trata-se de uma avaliação política feita por Lula sobre o comportamento do presidente dos Estados Unidos, e não de uma classificação institucional ou jurídica sobre o governo norte-americano.

A crítica surgiu durante a discussão sobre as tarifas impostas neste ano pelos Estados Unidos a parcelas das exportações brasileiras.

Lula diz que ainda prefere negociar com os Estados Unidos

Apesar das críticas, Lula afirmou que o governo brasileiro não pretende aplicar imediatamente a Lei da Reciprocidade.

Segundo o presidente, enquanto Brasil e Estados Unidos estiverem sentados à mesa de negociação, a prioridade será buscar uma solução diplomática para a disputa comercial.

O canal de diálogo ganhou novo impulso em agosto.

Em 21 de agosto, Lula e Trump conversaram por telefone. Depois da ligação, o Ministério do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços informou que o representante comercial norte-americano, Jamieson Greer, procurou o governo brasileiro para retomar formalmente as negociações.

No fim daquele mês, representantes dos ministérios das Relações Exteriores e do Desenvolvimento voltaram a se reunir com o Escritório do Representante Comercial dos Estados Unidos, o USTR, para discutir as tarifas.

É nesse contexto que Lula afirmou que pretende ter “mais paciência” antes de recorrer às contramedidas previstas na legislação brasileira.

Afinal, quais tarifas os Estados Unidos aplicaram ao Brasil?

A disputa começou a ganhar proporções maiores em julho de 2026.

Os Estados Unidos adotaram duas medidas diferentes baseadas na Seção 301 da legislação comercial norte-americana.

Uma delas estabeleceu uma sobretaxa adicional de 25% sobre determinados produtos brasileiros. Outra investigação, relacionada às políticas de combate ao trabalho forçado nas cadeias produtivas globais e que envolveu dezenas de economias, resultou em tarifa adicional de 12,5% para determinados produtos do Brasil.

Em alguns casos, as duas tarifas se acumulam.

Segundo levantamento oficial do Ministério do Desenvolvimento, cerca de 16,5% das exportações brasileiras aos Estados Unidos, considerando como referência a pauta comercial de 2024, ficaram sujeitas simultaneamente às duas medidas, chegando a uma sobretaxa adicional combinada de 37,5%.

Entre os produtos afetados nesse grupo aparecem máquinas e equipamentos, determinados tipos de madeira, móveis, calçados e confecções.

Outros produtos sofrem apenas uma das sobretaxas.

Nem tudo que o Brasil vende aos EUA foi atingido

Um detalhe importante é que as tarifas não atingem toda a pauta brasileira de exportação.

Segundo o MDIC, aproximadamente 23,1% das exportações brasileiras para os Estados Unidos são alcançadas pelas duas novas medidas da Seção 301, considerando o comércio bilateral de 2024.

O governo calculou também que cerca de 52,7% da pauta permanecia sem as novas sobretaxas específicas ou setoriais analisadas naquele levantamento, ficando submetida às tarifas ordinárias dos Estados Unidos.

Isso significa que o impacto varia bastante entre setores.

Empresas fortemente dependentes do mercado norte-americano e cujos produtos entraram nas listas tarifadas podem enfrentar perda de competitividade maior do que companhias que exportam itens excluídos das medidas.

Por que os Estados Unidos aplicaram as tarifas?

As duas medidas possuem justificativas diferentes apresentadas pelo governo norte-americano.

A sobretaxa de 25% surgiu de uma investigação específica conduzida pelos Estados Unidos sobre práticas brasileiras em áreas como comércio digital, serviços de pagamentos eletrônicos, tarifas preferenciais, propriedade intelectual, mercado de etanol e desmatamento ilegal.

Já a tarifa de 12,5% está relacionada a uma investigação mais ampla envolvendo dezenas de economias e as medidas adotadas para impedir a entrada de produtos associados ao trabalho forçado em cadeias de fornecimento.

O governo brasileiro contesta essas justificativas.

O Ministério das Relações Exteriores afirmou que considera as medidas injustificadas e incompatíveis com obrigações assumidas pelos Estados Unidos no sistema multilateral de comércio. Em julho, o Brasil solicitou formalmente consultas contra Washington na Organização Mundial do Comércio, a OMC.

A posição norte-americana, portanto, é de que suas medidas possuem fundamento em sua legislação comercial e nas investigações realizadas. O governo brasileiro discorda e busca revertê-las tanto por negociação bilateral quanto pelos mecanismos disponíveis na OMC.

O que é a Lei da Reciprocidade Econômica?

A Lei nº 15.122, de 11 de abril de 2025, conhecida como Lei da Reciprocidade Econômica, criou mecanismos para que o Brasil responda a determinadas medidas unilaterais adotadas por outros países ou blocos econômicos.

A legislação permite que o Poder Executivo suspenda concessões relacionadas a comércio e investimentos e também determinadas obrigações ligadas a direitos de propriedade intelectual quando medidas estrangeiras prejudicarem a competitividade internacional brasileira.

A norma foi aprovada pelo Congresso e sancionada em abril de 2025.

Em julho daquele ano, um decreto regulamentou o funcionamento da lei e estabeleceu procedimentos para análise das possíveis contramedidas.

A legislação determina ainda que eventuais respostas sejam, sempre que possível, proporcionais ao impacto econômico das medidas adotadas contra o Brasil.

O Brasil pode simplesmente aumentar tarifas dos produtos americanos?

Não de forma automática.

A existência da Lei da Reciprocidade não significa que o presidente possa simplesmente anunciar uma tarifa sobre qualquer produto dos Estados Unidos de um dia para o outro sem seguir os procedimentos previstos.

A legislação e sua regulamentação criam um processo institucional para analisar as medidas adotadas por outro país, avaliar seus impactos e definir possíveis respostas.

Entre as alternativas autorizadas estão medidas envolvendo:

  • concessões comerciais;
  • investimentos;
  • tarifas e outras condições de comércio;
  • determinadas obrigações relacionadas à propriedade intelectual.

A legislação também prevê articulação com o setor privado e busca de solução negociada antes ou durante o processo, dependendo do caso.

Por isso, a fala de Lula não significa que uma nova tarifa brasileira começará a valer imediatamente.

Reciprocidade pode significar tarifa igual?

Não necessariamente.

O nome da lei pode transmitir a impressão de que, se os Estados Unidos cobrarem 25% sobre determinado produto brasileiro, o Brasil obrigatoriamente aplicará exatamente 25% sobre o mesmo tipo de produto norte-americano.

A legislação é mais ampla.

O princípio é permitir contramedidas proporcionais, mas elas não precisam necessariamente reproduzir exatamente a mesma tarifa ou atingir os mesmos produtos.

O governo pode analisar quais setores serão envolvidos e quais mecanismos são juridicamente disponíveis antes de uma decisão.

Essa flexibilidade também é importante porque uma retaliação pode atingir empresas e consumidores brasileiros.

Uma tarifa aplicada pelo Brasil sobre um produto importado pode aumentar seu custo no mercado nacional, especialmente quando não existe fornecedor substituto com facilidade.

O que pode ficar mais caro se o Brasil adotar tarifas?

Ainda não existe uma lista definitiva de produtos norte-americanos que seriam atingidos em uma eventual aplicação da reciprocidade.

Portanto, não é possível afirmar neste momento que celulares, computadores, medicamentos, máquinas ou qualquer outro produto específico ficarão mais caros.

O impacto dependerá da eventual lista escolhida pelo governo e da forma como as contramedidas forem aplicadas.

Em termos econômicos, tarifas de importação podem aumentar os custos de produtos estrangeiros.

O efeito final, entretanto, depende de diversos fatores: possibilidade de substituição por produtos nacionais ou de outros países, cotação do dólar, margem das empresas e capacidade dos importadores de absorver parte do aumento.

Por isso, qualquer projeção sobre preços ao consumidor antes da divulgação das medidas seria especulativa.

Empresas brasileiras já receberam medidas de apoio

Enquanto tenta negociar a retirada ou redução das tarifas norte-americanas, o governo brasileiro também adotou ações para empresas afetadas.

Uma delas envolve o regime de drawback, mecanismo que permite a suspensão ou isenção de determinados tributos sobre insumos utilizados na fabricação de mercadorias destinadas à exportação.

Em agosto, o governo permitiu a prorrogação excepcional, por até um ano, de determinados compromissos de exportação afetados pelas tarifas adicionais dos Estados Unidos.

A medida busca dar às empresas mais tempo para concluir operações ou encontrar novos mercados quando vendas previamente planejadas para os EUA deixarem de ser economicamente viáveis.

Brasil também levou disputa à OMC

A Lei da Reciprocidade não é a única frente aberta pelo governo.

Em 27 de julho de 2026, o Brasil apresentou um pedido de consultas aos Estados Unidos no sistema de solução de controvérsias da Organização Mundial do Comércio.

As consultas são uma etapa inicial desse tipo de disputa.

Elas permitem que os países tentem resolver o conflito por meio de diálogo antes do avanço para etapas posteriores do sistema multilateral.

No pedido, o governo brasileiro contestou tanto a tarifa adicional de 25% decorrente da investigação específica sobre o Brasil quanto a medida de 12,5% relacionada à investigação sobre trabalho forçado.

Assim, o governo trabalha atualmente em mais de uma frente: negociação bilateral com Washington, discussão dentro da OMC e preparação dos mecanismos previstos pela legislação de reciprocidade.

Lula cita queda no comércio após as tarifas

Durante a entrevista, Lula também afirmou que as vendas brasileiras aos Estados Unidos recuaram depois das novas tarifas.

Segundo os números citados pelo próprio presidente, as exportações brasileiras para os EUA caíram cerca de 9%, enquanto as importações de produtos norte-americanos diminuíram aproximadamente 8,5% no período mencionado por ele.

Lula utilizou esses dados para argumentar que o país tem buscado ampliar suas relações comerciais com outras economias.

Ele mencionou mercados como China, Japão, Alemanha, Indonésia, Vietnã e países da União Europeia.

Esses números foram apresentados pelo presidente durante a entrevista e devem ser entendidos dentro do período de comparação utilizado por ele.

O que acontece agora nas negociações entre Brasil e EUA?

O cenário imediato ainda é de negociação.

A Reuters informou que Lula pretende deixar a aplicação efetiva da Lei da Reciprocidade em espera enquanto houver conversas em andamento com Washington.

Isso significa que existem atualmente três caminhos possíveis, que podem inclusive ocorrer simultaneamente: negociação para redução ou retirada das tarifas, discussão jurídica no sistema da OMC e preparação de eventuais contramedidas brasileiras.

Não há, até o momento, acordo definitivo anunciado entre os dois governos sobre as sobretaxas.

Também não existe confirmação de quais produtos norte-americanos seriam afetados caso o Brasil decida efetivamente aplicar medidas de reciprocidade.

A próxima mudança concreta dependerá do resultado dessas negociações e das decisões tomadas pelas autoridades comerciais dos dois países.

Por que a disputa importa para consumidores e empresas?

Embora a discussão aconteça entre governos, seus efeitos chegam à economia real.

Exportadores brasileiros podem perder competitividade quando seus produtos chegam aos Estados Unidos com tarifas adicionais.

Isso pode levar determinadas empresas a procurar compradores em outros países, renegociar contratos ou reduzir margens para manter clientes norte-americanos.

Do lado brasileiro, eventuais tarifas de reciprocidade podem alterar o custo de determinadas importações originárias dos Estados Unidos.

Por isso, setores industriais acompanham as negociações com atenção. Muitas empresas brasileiras utilizam componentes, máquinas e tecnologias importadas em seus processos produtivos.

Uma resposta comercial precisa, portanto, considerar não apenas o impacto sobre os Estados Unidos, mas também possíveis efeitos sobre a própria economia brasileira.

O que observar daqui para frente

Por enquanto, a declaração de Lula funciona principalmente como um sinal de que a opção de utilizar a Lei da Reciprocidade continua disponível.

Nenhuma nova contramedida foi anunciada durante a entrevista.

O governo brasileiro mantém o entendimento de que as tarifas norte-americanas devem ser revistas, enquanto os Estados Unidos sustentam medidas adotadas com base em investigações conduzidas por sua legislação comercial.

Para empresas e consumidores, três informações serão particularmente importantes nas próximas semanas: se haverá acordo entre Brasília e Washington, se alguma das tarifas será reduzida ou retirada e, caso a negociação fracasse, quais contramedidas o Brasil decidirá efetivamente adotar.

Até lá, falar em uma nova tarifa brasileira ou em aumento de preço de produtos específicos seria antecipar uma decisão que ainda não foi tomada.

Perguntas frequentes

O que Lula falou sobre Donald Trump?

Lula afirmou, em entrevista concedida em Nova York em 21 de setembro de 2026, que Trump age como um “imperador” nas relações internacionais. A expressão representa uma avaliação política feita pelo presidente brasileiro sobre a postura do presidente dos Estados Unidos.

O Brasil já aplicou a Lei da Reciprocidade contra os EUA?

Não foi anunciada uma nova rodada de contramedidas decorrente da declaração de 21 de setembro. Lula afirmou que pretende priorizar as negociações enquanto houver diálogo com Washington.

O que é a Lei da Reciprocidade Econômica?

É a Lei nº 15.122/2025, que autoriza o Brasil a adotar determinadas contramedidas em resposta a ações unilaterais de países ou blocos econômicos que prejudiquem a competitividade internacional brasileira.

Quais tarifas os Estados Unidos aplicaram aos produtos brasileiros?

Em julho de 2026, os EUA anunciaram uma sobretaxa de 25% sobre determinados produtos brasileiros e outra medida de 12,5% relacionada a uma investigação mais ampla sobre trabalho forçado. Para parte dos produtos, as tarifas se acumulam.

Produtos americanos ficarão mais caros no Brasil?

Não é possível afirmar isso neste momento. O efeito dependerá de quais contramedidas eventualmente forem adotadas e de quais produtos entrarem em uma eventual lista brasileira.

A Lei da Reciprocidade permite tarifas contra os EUA?

Sim. A legislação permite diferentes tipos de contramedidas comerciais, desde que respeitado o processo previsto e, sempre que possível, a proporcionalidade em relação às medidas que afetaram o Brasil.

Brasil e Estados Unidos ainda estão negociando?

Sim. O diálogo comercial foi retomado após uma conversa entre Lula e Trump em agosto, seguida por reuniões entre representantes dos dois governos.

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