O resultado do primeiro turno das eleições presidenciais de 2026 provocou uma forte mudança nas expectativas dos investidores. A vantagem de Flávio Bolsonaro sobre Luiz Inácio Lula da Silva levou o mercado financeiro a recalcular as probabilidades para o segundo turno e, principalmente, para a política econômica que poderá ser adotada a partir de 2027.
Com 100% das urnas apuradas, Flávio Bolsonaro terminou a primeira etapa da disputa com 47,03% dos votos válidos, enquanto Lula ficou com 45,16%. A diferença de 1,87 ponto percentual foi suficiente para desencadear uma reação expressiva nos principais mercados brasileiros.
Na primeira sessão após a votação, o Ibovespa ultrapassou pela primeira vez a marca de 200 mil pontos, enquanto o dólar recuou mais de 4% e voltou para a região de R$ 5. Os juros futuros também caíram de maneira significativa.
O movimento, entretanto, não representa uma avaliação definitiva sobre o próximo governo. Trata-se, principalmente, de uma mudança nas expectativas dos investidores.
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Por que o mercado reagiu tão rapidamente?

Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
O mercado financeiro trabalha constantemente com expectativas. Antes mesmo de uma política econômica ser efetivamente implementada, investidores tentam estimar como determinado governo poderá administrar gastos, receitas, dívida pública, inflação e juros.
O resultado do primeiro turno alterou essas probabilidades. A possibilidade de uma mudança na Presidência passou a ser considerada mais concreta, e parte dos investidores passou a apostar em uma condução fiscal potencialmente mais rígida.
Essa percepção é especialmente importante porque o equilíbrio das contas públicas influencia diretamente a confiança dos investidores. Quando existe expectativa de controle da dívida e dos gastos, tende a diminuir o prêmio de risco exigido para investir no país.
Foi justamente essa mudança de percepção que ajudou a explicar a queda dos juros futuros, a valorização das ações brasileiras e o recuo do dólar.
Bolsa supera 200 mil pontos
O Ibovespa foi um dos principais termômetros da reação. O índice ultrapassou os 200 mil pontos pela primeira vez, impulsionado principalmente pela queda das taxas de juros projetadas para os próximos anos.
O mecanismo é relativamente simples. Quando os juros esperados diminuem, aplicações de renda fixa podem se tornar relativamente menos atrativas em comparação com ações. Ao mesmo tempo, as empresas passam a ter seus resultados futuros descontados por uma taxa menor, o que pode aumentar seu valor presente.
Bancos estiveram entre os destaques da alta. A perspectiva de juros menores pode beneficiar instituições financeiras ao reduzir determinadas pressões sobre crédito e inadimplência, além de melhorar as expectativas para a atividade econômica.
Isso não significa, porém, que toda alta provocada por uma eleição seja permanente. O mercado pode rapidamente rever os preços caso as expectativas políticas ou econômicas mudem.
Por que os juros futuros caíram?
A curva de juros representa, entre outros fatores, as expectativas dos investidores para as taxas de juros brasileiras nos próximos anos.
Após o primeiro turno, algumas dessas projeções recuaram de forma significativa. Um dos exemplos citados por analistas foi a taxa projetada para janeiro de 2031, que saiu de aproximadamente 14% para 12,85% ao ano.
Uma queda dessa magnitude pode produzir efeitos importantes sobre os preços dos títulos públicos e privados, além de alterar os critérios utilizados pelos investidores para avaliar empresas listadas na bolsa.
Mas existe uma ressalva importante: juros futuros não são uma promessa do Banco Central. Eles refletem preços negociados no mercado e podem mudar diariamente conforme surgem novas informações.
Dólar cai mais de 4% após o resultado
O mercado de câmbio também reagiu intensamente. O dólar comercial caiu 4,12%, encerrando o pregão próximo de R$ 5, depois de chegar a ser negociado abaixo desse nível durante a sessão.
A queda está relacionada à percepção de menor risco e à possibilidade de maior entrada de capital no país.
Quando investidores estrangeiros aumentam suas posições em ações, títulos ou outros ativos brasileiros, precisam converter recursos para reais. Em determinadas circunstâncias, esse movimento aumenta a oferta de dólares no mercado e contribui para reduzir a cotação.
O câmbio, contudo, também depende de fatores externos, como juros nos Estados Unidos, comportamento das commodities, cenário geopolítico e fluxo internacional de capital. Por isso, não é possível atribuir toda a movimentação do dólar exclusivamente ao resultado eleitoral.
O mercado já sabe como será a economia em 2027?
Não.
Essa é uma das principais diferenças entre expectativa e realidade. O resultado do primeiro turno mudou as apostas dos investidores, mas ainda não definiu a política econômica do próximo governo.
Um eventual programa de ajuste fiscal precisará ser detalhado, aprovado pelo Congresso e efetivamente executado. Além disso, medidas relacionadas a despesas públicas podem enfrentar resistência política e jurídica.
A campanha de Flávio Bolsonaro apresentou propostas de redução de gastos e mencionou um ajuste equivalente a cerca de 1,5% do PIB, estimado em aproximadamente R$ 190 bilhões. Entretanto, a efetividade desse plano dependerá de quais despesas seriam cortadas, de que maneira as medidas seriam implementadas e de quanto do ajuste representaria economia permanente.
Para o mercado, portanto, o próximo passo será observar a capacidade de transformar promessas em medidas concretas.
Segundo turno ainda pode mudar as expectativas

A vantagem obtida no primeiro turno não elimina a incerteza. A diferença entre os candidatos foi relativamente estreita e ainda há semanas de campanha até a votação definitiva.
Pesquisas eleitorais, debates, alianças partidárias, declarações dos candidatos e composição do Congresso podem alterar novamente as expectativas dos investidores.
Também será importante observar a formação de uma eventual equipe econômica. Nomes escolhidos para áreas como Fazenda, Planejamento e Banco Central podem influenciar a percepção do mercado sobre a condução das contas públicas e da política monetária.
Por isso, a reação positiva registrada após o primeiro turno pode continuar, perder força ou até ser revertida.
O que o investidor deve observar daqui para frente?
Para quem investe em bolsa, renda fixa ou dólar, acompanhar apenas a cotação diária pode ser insuficiente. O mais importante será observar se a expectativa de ajuste fiscal começa a ganhar sustentação.
Entre os principais indicadores estão a trajetória da dívida pública, as metas fiscais, as propostas de controle de despesas, a relação com o Congresso e as projeções para inflação e juros.
Também será necessário acompanhar a reação do Banco Central. Uma eventual melhora das expectativas fiscais pode contribuir para reduzir as pressões inflacionárias e abrir espaço para juros menores no futuro, mas a autoridade monetária continuará tomando decisões com base em seus objetivos e nos dados econômicos.
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