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Move Brasil esbarra em exigências bancárias para financiar caminhões

Programa Move Brasil amplia acesso ao crédito, mas motoristas enfrentam reprovação, burocracia e demora na liberação dos financiamentos.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes7 min de leitura
Move Brasil esbarra em exigências bancárias para financiar caminhões

Lançado para facilitar a compra de veículos por taxistas e motoristas de aplicativos, o programa Move Brasil surgiu com a promessa de ampliar o acesso ao crédito e reduzir a dependência do aluguel de automóveis. Entretanto, pouco mais de um mês após o início das operações, a iniciativa enfrenta uma realidade diferente da expectativa inicial.

Embora milhares de profissionais tenham demonstrado interesse na linha de financiamento, grande parte das propostas não chega à etapa de contratação. A combinação entre inadimplência, critérios rigorosos de análise de crédito, dificuldade para comprovar renda e atrasos operacionais tem limitado o alcance do programa.

Na prática, muitos trabalhadores continuam utilizando veículos alugados, mesmo pagando valores mensais elevados, porque não conseguem aprovação para adquirir um carro próprio. O cenário levou o governo federal, bancos públicos e representantes da categoria a discutir mudanças capazes de tornar a linha de crédito mais acessível.

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Foto: Ricardo Stuckert /PR

Como funciona o Move Brasil

O Move Brasil foi criado para financiar automóveis destinados ao trabalho de motoristas profissionais. A linha contempla veículos novos e seminovos dentro dos critérios estabelecidos pelo programa, respeitando um limite de valor definido pelo governo.

O financiamento conta com recursos apoiados pelo Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES), além da participação de instituições financeiras responsáveis pela análise de crédito e formalização dos contratos.

Apesar da existência de um fundo garantidor para reduzir parte do risco das operações, a aprovação continua dependendo da política de crédito de cada banco participante.

Isso significa que cada instituição mantém autonomia para avaliar capacidade de pagamento, histórico financeiro e documentação apresentada pelo cliente.

Procura existe, mas contratações ainda avançam lentamente

O interesse pelo programa chamou atenção logo após o lançamento. Segundo informações divulgadas pelo governo, a demanda alcançou aproximadamente R$ 2,2 bilhões nas primeiras semanas.

Apesar do número expressivo, esse volume representa apenas uma pequena parcela dos R$ 30 bilhões disponibilizados para o programa.

Na prática, concessionárias relatam aumento significativo na procura por informações e simulações de financiamento, mas poucas negociações chegam à assinatura do contrato.

Em diversas lojas, vendedores afirmam que muitos clientes iniciam o processo, entregam documentos e realizam análise cadastral, porém acabam recebendo resposta negativa ou desistem diante das exigências impostas pelas instituições financeiras.

Esse comportamento evidencia que o principal desafio não está na procura pelo programa, mas na conversão das intenções de compra em financiamentos efetivamente aprovados.

Inadimplência continua sendo o maior obstáculo

Entre todos os fatores apontados pelos bancos e pelas entidades representativas da categoria, a inadimplência aparece como o principal motivo das recusas.

Grande parte dos motoristas trabalha como profissional autônomo e enfrentou dificuldades financeiras nos últimos anos. Muitos recorreram ao crédito para manter a atividade, acumularam dívidas ou passaram por períodos de queda na renda.

Mesmo aqueles que renegociaram seus débitos recentemente ainda enfrentam um problema importante: a recuperação do score de crédito costuma ocorrer de forma gradual.

Na prática, limpar o nome nem sempre significa conseguir financiamento imediatamente.

Como as instituições financeiras utilizam diferentes modelos de avaliação de risco, um consumidor pode estar sem restrições cadastrais e, ainda assim, receber resposta negativa por apresentar histórico recente de inadimplência.

Esse cenário tem limitado principalmente profissionais que atualmente conseguem gerar boa renda trabalhando diariamente nos aplicativos, mas carregam registros financeiros negativos do passado.

A comprovação de renda também dificulta o acesso

Outro desafio importante envolve a comprovação dos rendimentos.

Ao contrário dos trabalhadores com carteira assinada, motoristas de aplicativos normalmente recebem valores variáveis ao longo do mês.

Durante as primeiras semanas do programa, diversos bancos não aceitavam os extratos das plataformas digitais como documento suficiente para comprovar renda.

Essa situação gerou frustração entre candidatos ao financiamento, que precisavam apresentar documentação complementar ou simplesmente tinham seus pedidos recusados.

Nos últimos dias, esse cenário começou a mudar.

Instituições como Caixa Econômica Federal e Banco do Brasil passaram a aceitar, em determinadas operações, os demonstrativos emitidos pelos próprios aplicativos, facilitando a comprovação dos ganhos mensais.

A mudança representa um avanço importante, já que permite analisar com maior precisão o faturamento real desses profissionais.

Bancos públicos assumem protagonismo

Enquanto algumas instituições privadas decidiram não aderir ao programa, os bancos públicos passaram a concentrar boa parte das operações.

A Caixa Econômica Federal e o Banco do Brasil ampliaram parcerias com plataformas de mobilidade para estimular a contratação dos financiamentos.

Além da linha de crédito, algumas iniciativas oferecem benefícios financeiros para incentivar a adesão.

Entre eles estão programas de cashback destinados aos motoristas que financiam veículos e permanecem ativos nos aplicativos parceiros.

Na prática, parte do valor investido retorna ao trabalhador ao longo dos meses, reduzindo o custo efetivo da operação.

A estratégia busca tornar o financiamento mais competitivo em relação ao aluguel de veículos, alternativa bastante utilizada por motoristas de aplicativo.

Por que bancos privados demonstram cautela

Mesmo com garantias previstas na estrutura do programa, diversas instituições privadas adotaram postura conservadora.

O motivo principal está relacionado ao perfil do público atendido e ao risco da operação.

Como o automóvel representa o instrumento de trabalho do motorista, uma eventual retomada do veículo em caso de inadimplência pode gerar repercussões sociais e operacionais mais complexas.

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Além disso, veículos utilizados intensivamente em transporte por aplicativo costumam apresentar maior quilometragem e depreciação acelerada.

Esses fatores reduzem o valor do bem ao longo do tempo e aumentam o risco financeiro para o credor.

Outro aspecto observado pelo mercado é o crescimento da inadimplência nas operações de crédito no país.

Dados divulgados pelo Banco Central mostram aumento dos índices de atraso em diferentes modalidades de financiamento, levando instituições financeiras a reforçarem critérios internos para aprovação de novos contratos.

Fundo garantidor não elimina a análise de crédito

Um dos equívocos mais comuns entre os interessados no Move Brasil é acreditar que a existência de um fundo garantidor assegura aprovação automática.

Na realidade, o Fundo Garantidor para Investimentos (FGI) funciona como uma proteção parcial para as instituições financeiras, reduzindo parte das perdas em caso de inadimplência.

Isso não substitui a avaliação individual de cada cliente.

Antes de liberar o financiamento, os bancos continuam analisando fatores como:

  • capacidade de pagamento;
  • histórico financeiro;
  • comprometimento da renda;
  • documentação apresentada;
  • situação cadastral;
  • perfil de risco.

Por esse motivo, dois motoristas com renda semelhante podem receber respostas diferentes dependendo do relacionamento bancário e do histórico de crédito.

Entidades da categoria pedem ajustes

Representantes dos motoristas de aplicativos defendem mudanças capazes de ampliar o acesso ao programa.

Entre as principais reivindicações estão a padronização da análise de crédito entre os bancos, maior integração tecnológica entre as instituições participantes e o reconhecimento definitivo dos extratos dos aplicativos como comprovantes oficiais de renda.

Também há pedidos para reduzir exigências relacionadas ao valor da entrada e acelerar a liberação dos recursos após a aprovação do financiamento.

Segundo representantes da categoria, muitos profissionais possuem capacidade financeira para pagar as parcelas, mas acabam impedidos de adquirir um veículo por critérios considerados excessivamente rígidos.

Governo busca ampliar a adesão

move brasil
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Diante da baixa utilização dos recursos disponíveis, o governo federal acompanha os resultados e trabalha em conjunto com bancos públicos e parceiros do setor para ampliar o alcance do programa.

Entre as medidas discutidas estão novos convênios com plataformas de mobilidade, aperfeiçoamento dos processos tecnológicos e divulgação mais ampla das regras do financiamento.

O objetivo é reduzir obstáculos operacionais e aumentar o número de contratos efetivamente concluídos, aproximando o desempenho do programa da expectativa criada em seu lançamento.

Foto: Ricardo Stuckert/PR

INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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