O Ministério Público Federal (MPF) no Rio de Janeiro reforçou a cobrança para que o Banco do Brasil (BB) apresente ações concretas de reparação à população afrodescendente brasileira. A exigência surge em meio a investigações que ligam a instituição financeira ao apoio à escravidão durante o século XIX.
Uma audiência pública realizada na última terça-feira (22) colocou o tema em evidência, envolvendo representantes do MPF, do Ministério da Igualdade Racial (MIR), do Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania, e do próprio banco.
A Investigação e Suas Revelações

O inquérito do MPF foi instaurado em setembro de 2023 e é sustentado por um estudo realizado por 14 pesquisadores de universidades brasileiras e americanas. A pesquisa revelou vínculos entre o Banco do Brasil e o comércio de africanos escravizados, evidenciando o uso de capital investido no banco para financiar o tráfico de escravos. Além disso, os estudiosos destacaram que a instituição se beneficiou do crédito garantido por propriedades escravistas, prática comum durante a primeira metade do século XIX.
Leia mais: MPF identifica dezenas de empresários recebendo bolsa família irregular
Essas descobertas reacenderam o debate sobre a necessidade de reparações históricas no Brasil. Segundo o procurador regional dos Direitos do Cidadão, Julio José Araujo Junior, é fundamental que o Banco do Brasil adote medidas concretas para compensar a população negra por seu envolvimento com o sistema escravista. A questão central, para o MPF, é garantir que o reconhecimento histórico se traduza em ações efetivas de reparação.
Reconhecimento e Pedido de Desculpas do Banco do Brasil
Em novembro de 2023, o Banco do Brasil reconheceu publicamente sua ligação com a escravidão, emitindo um pedido de desculpas à população afrodescendente. Embora seja um gesto simbólico importante, representantes do MPF afirmam que ele não é suficiente para reparar as injustiças históricas. De acordo com Jaime Mitropoulos, outro procurador dos Direitos do Cidadão, são necessárias ações práticas que superem o simbolismo das desculpas.
Sugestões da Sociedade Civil para a Reparação
Em dezembro de 2023, o MPF abriu uma consulta pública para receber sugestões de reparação da sociedade civil, resultando em mais de 500 propostas de 37 entidades. Entre os proponentes estavam o Movimento Negro Unificado (MNU), a Coordenação Nacional de Articulação de Quilombos (Conaq), e a União de Núcleos de Educação Popular para Negras/os e Classe Trabalhadora (Uneafro Brasil). As propostas abrangiam desde políticas públicas para reduzir desigualdades econômicas e sociais até investimentos específicos em comunidades negras e quilombolas.
A estudante e ativista Brenna Vilanova, representando o MNU do Distrito Federal, reforçou a necessidade de que todas as sugestões dos movimentos negros sejam implementadas com prazos definidos para garantir a efetividade das medidas.
Já Júlia Mota, representante do Fundo Agbara, destacou a relação direta entre as desigualdades sociais atuais e a histórica desigualdade racial. Ela defendeu que o Banco do Brasil invista em ações que possam corrigir essas distorções, como renda básica para populações negras, fundos de reparação e desenvolvimento de territórios tradicionais.
Resposta do Banco do Brasil
Na audiência, o Banco do Brasil foi representado por João Alves, consultor jurídico, e Nivia Silveira da Mota, gerente de Relações Institucionais. Ambos ressaltaram os esforços da instituição para promover a equidade racial e reconheceram a necessidade de avanços. Desde 2023, o banco é liderado por Tarciana Medeiros, a primeira mulher negra a ocupar a presidência da instituição, o que reflete um compromisso com a inclusão.
O banco anunciou o lançamento, em dezembro de 2024, de um plano de ações voltado para a reparação à população negra. No entanto, os representantes destacaram que algumas das sugestões recebidas não podem ser implementadas diretamente pela instituição, pois envolvem questões que demandam aprovação do Congresso Nacional, como a implementação de uma renda básica.
O Papel dos Ministérios
Isadora de Oliveira Silva, coordenadora de Ações Governamentais do Ministério da Igualdade Racial, participou da audiência representando o MIR. Ela destacou que o governo federal está em processo de sistematização das contribuições recebidas da sociedade civil e de outros órgãos para formular um plano de ação. Silva reconheceu a importância do processo de escuta para construir políticas públicas que sejam realmente efetivas e transformadoras.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
O Ministério dos Direitos Humanos e da Cidadania também se comprometeu a colaborar com a implementação de medidas que garantam dignidade às populações historicamente marginalizadas.
Perspectivas Futuras para as Reparações Históricas

A pressão do MPF sobre o Banco do Brasil para implementar ações de reparação marca um momento importante na luta por justiça racial no Brasil. A escravidão, que perdurou por mais de três séculos, deixou um legado de desigualdade e discriminação que ainda se reflete nas condições de vida da população afrodescendente.
Embora o reconhecimento do passado escravocrata seja um passo significativo, os desafios para promover a reparação histórica são enormes. As expectativas em torno das ações do Banco do Brasil, somadas às iniciativas governamentais e à mobilização da sociedade civil, formam um cenário em que a reparação pode finalmente começar a se concretizar.
A partir de agora, é essencial que o diálogo entre as partes continue e que as promessas se transformem em políticas públicas de impacto. O foco deve ser em ações que reduzam a desigualdade social e econômica, promovam a inclusão e melhorem as condições de vida das comunidades negras e tradicionais.
Considerações finais
O debate sobre reparações históricas no Brasil ganha força com a pressão do MPF sobre o Banco do Brasil para implementar ações concretas em favor da população afrodescendente. A resposta da instituição e do governo federal será crucial para definir os rumos da justiça racial no país. O envolvimento contínuo da sociedade civil e a execução de políticas públicas são fundamentais para que as reparações saiam do papel e se tornem uma realidade.
O caminho para a equidade racial é longo, mas passos significativos podem ser dados com o esforço conjunto de instituições financeiras, governo e movimentos sociais.
