A Natura enfrentou um segundo trimestre de 2026 marcado por queda nas vendas, falta de produtos e dificuldades na execução de mudanças importantes em sua operação. Entre abril e junho, a receita líquida consolidada chegou a R$ 5,17 bilhões, recuo de 9,1% na comparação anual.
O principal impacto veio do Brasil. A receita da operação brasileira caiu 14,8%, para R$ 3,07 bilhões. Embora a companhia reconheça um ambiente de consumo mais fraco, a administração admite que boa parte da frustração com o resultado está relacionada a problemas internos.
Entre os fatores estão mudanças comerciais, implantação de sistemas, transição do modelo de franquias e dificuldades na cadeia de abastecimento.
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Falta de produtos prejudica operação da Natura no Brasil

A indisponibilidade de produtos foi um dos problemas mais relevantes do trimestre. A situação prejudicou principalmente a produtividade das consultoras, que representam um canal estratégico de vendas da companhia.
Segundo o CEO João Paulo Ferreira, a Natura já conseguiu reduzir significativamente o problema. A empresa estaria operando com menos da metade do nível observado no pico da falta de produtos, com recuperação gradual a cada semana.
A normalização dos estoques será um indicador importante nos próximos meses. Quando produtos procurados pelos consumidores ficam indisponíveis, as consultoras podem perder vendas e clientes podem recorrer a concorrentes.
O desempenho das marcas evidencia a pressão enfrentada no País. As vendas da Natura recuaram 14,5%, enquanto as da Avon diminuíram 22,5%.
Implantação do SAP trouxe dificuldades
Parte dos problemas de abastecimento apareceu após a implementação do novo sistema de gestão SAP.
A implantação foi concluída no primeiro trimestre. Durante o processo, a operação precisou passar por uma interrupção que gerou estresse na cadeia de suprimentos.
Na retomada, a companhia identificou desequilíbrios relacionados a outro sistema de planejamento integrado. Segundo a administração, alguns parâmetros não estavam adequadamente configurados.
O resultado foi uma combinação de dificuldades no planejamento e falta de determinados produtos.
A situação mostra um dos principais riscos enfrentados por grandes empresas durante transformações tecnológicas: mesmo quando a implantação de um sistema ocorre conforme planejado, falhas de integração com processos de estoque, demanda e logística podem afetar toda a operação.
Mudanças comerciais aumentaram a complexidade
A Natura também realizou alterações nas políticas de preços e nas regras comerciais entre seus canais.
As mudanças buscaram responder a reclamações de consultoras sobre diferenças nas condições oferecidas aos consumidores dependendo do canal utilizado.
Paralelamente, a companhia concluiu a migração de 100% dos contratos de franquia para um modelo baseado nas vendas efetivamente realizadas aos consumidores, o chamado sell out.
Durante a adaptação, franqueados deixaram temporariamente de comprar determinados produtos para ajustar seus estoques e adequar o mix às novas regras. O movimento também pressionou a receita do trimestre.
A empresa enfrentou ainda um efeito tributário relacionado a alterações no regime de substituição tributária do ICMS em São Paulo.
Lucro líquido da Natura despenca 92,1%
Além da queda nas vendas, o lucro líquido apresentou forte retração.
A Natura registrou lucro de R$ 35 milhões entre abril e junho, queda de 92,1% em relação ao segundo trimestre de 2025.
Um dos fatores foi uma deterioração de aproximadamente R$ 320 milhões no resultado financeiro líquido. A companhia relacionou o impacto aos custos de liquidação de derivativos e a uma base de comparação desfavorável envolvendo efeitos cambiais contábeis.
O Ebitda consolidado chegou a R$ 620 milhões, queda anual de 5,9%. Na Natura Brasil, o indicador recuou 23,8%, para R$ 662 milhões.
Mercados hispânicos apresentam recuperação
Enquanto o Brasil enfrentou dificuldades, os demais mercados latino-americanos tiveram desempenho mais favorável.
A receita dos mercados hispânicos ficou em aproximadamente R$ 2,1 bilhões, crescimento de 0,7% em reais e de 7,2% em moeda constante.
O Ebitda dessa operação avançou 92,7%, alcançando R$ 160 milhões.
A recuperação ajudou a compensar parcialmente os problemas brasileiros e apareceu entre os pontos positivos destacados por analistas após a divulgação do balanço.
Natura reduz dívida e mantém geração de caixa
Mesmo com o trimestre mais fraco, a Natura conseguiu reduzir sua dívida líquida.
O indicador terminou junho em R$ 3,86 bilhões, ante R$ 3,98 bilhões no mesmo período de 2025. A relação entre dívida líquida e Ebitda caiu de 2,18 vezes para 2,06 vezes.
A companhia registrou R$ 342 milhões em fluxo de caixa livre e recebeu R$ 160 milhões provenientes de um FIDC. Esses recursos ajudaram a compensar despesas financeiras e liquidações de derivativos.
A geração de caixa é especialmente relevante diante de um cenário de juros elevados, que aumenta o custo das dívidas corporativas.
Empresa muda expectativa para margem em 2026
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A Natura também decidiu não buscar expansão da margem Ebitda em 2026 sobre os 14,1% registrados em 2025.
Segundo a companhia, atingir esse objetivo poderia exigir cortes em investimentos considerados fundamentais para o crescimento futuro.
A estratégia é preservar recursos destinados a marketing, pesquisa e desenvolvimento, fortalecimento das marcas e outras iniciativas estratégicas.
Mesmo com a mudança, a empresa ainda espera gerar mais caixa em 2026 do que em 2025 e pretende manter a alavancagem em um nível considerado saudável.
Bancos seguem cautelosos com a Natura
O balanço fraco já era parcialmente esperado pelo mercado porque a Natura havia antecipado dificuldades anteriormente.
O Citi manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10 para as ações. O banco destacou positivamente a recuperação dos mercados hispânicos, embora continue cauteloso com a operação brasileira.
O BTG Pactual também manteve recomendação neutra, com preço-alvo de R$ 12. Para a instituição, a capacidade de melhorar a execução operacional será essencial para a recuperação da companhia.
Já o Itaú BBA manteve recomendação neutra e preço-alvo de R$ 10, destacando a baixa visibilidade sobre a velocidade de recuperação das receitas no Brasil.
Entrada da Advent aumenta expectativa sobre mudanças
Outro fator acompanhado pelo mercado é a entrada da Advent no capital da Natura. A gestora americana de private equity passou a deter uma participação de aproximadamente 8% na companhia.
O acordo prevê ainda a indicação de dois novos integrantes para o conselho, mediante as aprovações societárias necessárias.
A presença da gestora aumenta as expectativas sobre possíveis melhorias na execução, na estratégia de canais e na eficiência operacional.
O que esperar da Natura nos próximos trimestres?
Os próximos resultados deverão mostrar se os problemas enfrentados entre abril e junho foram realmente transitórios.
A normalização dos estoques será um dos principais indicadores. Também será necessário observar se as vendas brasileiras começam a reagir e se a produtividade das consultoras melhora.
Apesar da forte queda do lucro, a Natura continuou gerando caixa e reduziu sua dívida líquida. Por isso, o desafio imediato está principalmente na recuperação operacional.
Se a disponibilidade de produtos voltar ao normal e as mudanças realizadas começarem a produzir resultados, a companhia poderá recuperar gradualmente as vendas. Caso as dificuldades de execução continuem, porém, a retomada da operação brasileira poderá levar mais tempo do que inicialmente previsto.



