As mangas produzidas no Vale do São Francisco, região referência na produção e exportação da fruta, enfrentam um cenário preocupante com a imposição de uma nova tarifa de 50% pelo governo dos Estados Unidos sobre as frutas brasileiras.
Manga brasileira pode encalhar com nova tarifa dos EUA, alertam produtores
Tarifa dos EUA encarece manga brasileira, trava exportações e causa queda de preços no Vale do São Francisco.
A medida, que entra em vigor no dia 6 de agosto, ameaça inviabilizar as vendas para um dos principais mercados consumidores da manga brasileira, causando impactos diretos não só para exportadores, mas para toda a cadeia produtiva.
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Tarifa de 50% imposta pelos EUA ameaça mercado de manga brasileiro

A notícia de que as mangas brasileiras sofreriam uma tarifa extra de 50% para entrar nos Estados Unidos pegou produtores e exportadores de surpresa. Em Casa Nova, na Bahia, onde está uma das propriedades de Hidherica Torres, as mangas estão prontas para a colheita, mas sem um destino garantido.
“Na terça-feira fui informada que as mangas não teriam mais saída para os EUA”, relata Hidherica, preocupada com o destino das frutas. “Estou tentando negociar envio para o Canadá ou Europa, mas tenho medo de que a manga fique jogada no chão e o trator passe por cima”, completa.
O presidente Donald Trump assinou o decreto no dia 30 de julho, confirmando a tarifa de 50% para diversos produtos brasileiros, incluindo as mangas, que ficaram de fora das exceções concedidas para alguns setores, como aeronaves e suco de laranja.
Impactos imediatos para produtores do Vale do São Francisco
O Vale do São Francisco, principal região produtora e exportadora de manga do Brasil, sente os efeitos dessa decisão mesmo antes da tarifa entrar em vigor. Pequenos e médios produtores que abastecem o mercado interno e exportam para outros países já relatam queda no preço da fruta e dificuldades para escoar a produção.
José Nilton Gonçalves, produtor de Lagoa Grande (PE), conta que o preço da manga do tipo tommy despencou de cerca de R$ 6 para menos de R$ 0,80 por quilo. “Desse jeito, não dá nem para pagar as despesas”, lamenta.
Cristiano Ferreira, líder da Associação Comunitária dos Agricultores de Malhada Real, reforça que o problema afeta todos os tipos de manga, mesmo aqueles que não seriam exportados para os EUA. “Todo mundo já vai sentir, do grande ao pequeno”, destaca.
Segundo o Sindicato dos Produtores Rurais de Petrolina (SPR), cerca de 92% da produção de manga do Vale do São Francisco é destinada à exportação. Em 2024, foram exportadas 258 mil toneladas, que geraram US$ 349,8 milhões em faturamento. A Europa é o maior destino, com 80% das vendas, seguida pelos EUA, que respondem por 15%.
Produzir para os EUA é mais caro e complexo
A produção para o mercado americano é mais cara, pois exige o cultivo preferencial da manga do tipo tommy e o cumprimento de rigorosas exigências sanitárias, como inspeções contra a mosca-da-fruta e tratamentos térmicos para eliminar larvas. Essa janela de colheita, que ocorre entre agosto e outubro, é estratégica para os produtores brasileiros, pois os EUA importam mangas conforme a sazonalidade mundial.
“Fica difícil mandar essa fruta para outros mercados. Além disso, o volume nesta época é muito grande, causando baixa nos preços internos e em outros países”, alerta Jailson Lira, presidente do SPR.
Sobrecarga do mercado interno e europeu
Com as exportações para os EUA inviabilizadas pela tarifa, o volume de manga disponível no mercado interno e europeu tende a aumentar excessivamente, provocando queda generalizada dos preços e prejuízos para toda a cadeia produtiva.
Eduardo Nakahara, produtor rural e empresário exportador, explica que as grandes empresas compram a produção de pequenos e médios produtores para exportar. Se as vendas externas caem, deixam de adquirir essas mangas, refletindo diretamente no produtor.
Além disso, os importadores europeus estão receosos devido ao excesso de oferta. A produtora Aleska Martins, de Petrolina, destaca que mesmo mangas de outros tipos, como a keitt, que não são tão comuns nos EUA, enfrentam dificuldades para serem vendidas na Europa.
“Estou oferecendo manga de graça para limpar minhas árvores, mas ninguém quer pegar, pois o custo de retirada não compensa o preço baixo”, diz Aleska, que teme perder a próxima safra por falta de preparo adequado do solo.
O agrônomo Gilson dos Santos complementa que nem o mercado brasileiro nem o europeu têm capacidade para absorver esse excedente, especialmente com a boa safra que países como a Espanha estão apresentando neste ano.
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Críticas e preocupações do setor produtivo

O presidente do Sindicato dos Produtores Rurais, Jailson Lira, criticou a falta de diálogo do governo federal e afirmou que, ao invés de negociar, o governo parece estar “medindo forças” com os EUA, sem apresentar um plano concreto para minimizar os impactos no setor.
Apesar dos pedidos, os governos da Bahia, Pernambuco e o governo federal não se manifestaram oficialmente sobre as medidas para apoiar os produtores diante dessa crise iminente.
Para Eduardo Nakahara, o impacto vai muito além da agricultura, atingindo toda a economia da região, que é uma das mais prósperas do sertão nordestino graças à agricultura irrigada.
Possível saída: valorização do consumo interno
Diante do cenário adverso, produtores como Nakahara sugerem que o Brasil invista numa campanha nacional para estimular o consumo da manga, alavancando o mercado interno.
“Seria o momento de o brasileiro abraçar a manga como fruta nacional, incentivando seu consumo em sucos, sobremesas e pratos variados”, afirma.
Enquanto isso, os produtores do Vale do São Francisco vivem a expectativa angustiante de que a nova tarifa americana leve a manga brasileira a ficar encalhada nas propriedades, gerando prejuízos financeiros e perdas significativas para um setor que se consolidou como referência mundial.
Com Informações de: BBC News
Imagem: Robert Owen-Wahl do Pixabay

