Ensino a distância vai mudar? Veja as novas normas em debate no MEC

O ensino a distância (EAD) no Brasil está prestes a passar por uma transformação significativa. Em 19 de maio de 2025, o presidente Luiz Inácio Lula da Silva assinou, ao lado do ministro da Educação, Camilo Santana, um novo decreto que institui a Nova Política Nacional de Educação a Distância.

A proposta tem como foco democratizar o acesso ao ensino superior, mas também garantir qualidade acadêmica, diante do crescimento acelerado e desregulado dos cursos oferecidos nessa modalidade nos últimos anos.

O decreto ainda será publicado no Diário Oficial da União, mas suas diretrizes já causam impacto nas instituições e alunos.

O texto traz mudanças estruturais importantes, como a criação do modelo semipresencial obrigatório para alguns cursos, restrições à oferta de ensino a distância em áreas práticas, e a introdução de regras de qualidade mais rigorosas.

Neste artigo, explicamos o que muda no EAD, quais cursos serão afetados, os novos formatos permitidos e como essas mudanças podem impactar o futuro da educação superior no Brasil.

Leia mais:

Ovo mais caro: valor sobe 43,6% em quatro meses, segundo Procon-SP

O que é a nova política de EAD?

Ensino à distância
Imagem: Freepik

A Nova Política Nacional de Educação a Distância tem como objetivo principal reorganizar o modelo de ensino remoto nas universidades públicas e privadas.

A medida busca equilibrar expansão e qualidade, oferecendo um ensino que atenda tanto à demanda por acesso quanto à necessidade de formação sólida e responsável.

A proposta nasceu após críticas severas à proliferação de cursos 100% online em áreas que exigem práticas laboratoriais ou presenciais, como medicina, direito e enfermagem. Segundo o MEC, muitos desses cursos não ofereciam suporte suficiente aos alunos, comprometendo a formação profissional.

Principais mudanças do ensino a distância a partir do decreto

Três modalidades de ensino definidas

A política atual define com clareza as três modalidades de ensino permitidas no Brasil:

1. Ensino presencial com uso de ensino a distância (até 30%)

  • Cursos presenciais podem usar até 30% da carga horária em atividades a distância.
  • Aulas assíncronas, fóruns e vídeos gravados continuam permitidos nesse limite.

2. Ensino semipresencial

  • Mínimo de 30% de atividades presenciais.
  • Obrigatório ter ao menos 20% de aulas síncronas mediadas por tecnologia.
  • Indicada para áreas com parte teórica robusta e práticas moderadas.

3. Ensino a distância (EAD)

  • A maior parte do curso ocorre a distância.
  • Obrigatório ter pelo menos 20% de atividades presenciais ou síncronas.
  • Avaliações presenciais passam a ser obrigatórias e com peso maior na nota.

Cursos que não poderão mais ser ofertados 100% a distância

Áreas proibidas para o EAD

O decreto estabelece restrições claras para cursos com alta exigência prática. A partir da publicação e prazo de transição:

  • Cursos proibidos no formato EAD:
    • Medicina;
    • Direito;
    • Enfermagem;
    • Odontologia;
    • Psicologia.

Esses cursos só poderão ser oferecidos presencialmente.

Áreas com oferta restrita

Outros cursos da área da saúde e licenciaturas também estão restritos:

  • Serão obrigatoriamente presenciais ou semipresenciais.
  • Objetivo: garantir a formação de profissionais aptos a atuar com responsabilidade e prática supervisionada.

Valorização docente e mediação pedagógica

Um dos pilares do novo modelo é a valorização dos professores. O decreto estabelece:

  • Criação da função de mediador pedagógico:
    Um profissional com papel exclusivamente acadêmico, responsável por orientar o processo de aprendizagem dos alunos no ambiente digital.
  • Incentivo à formação continuada:
    Docentes e mediadores deverão passar por capacitação constante para atuar com tecnologias educacionais e metodologias ativas.

Exigência de infraestrutura adequada nos polos

Para combater a precarização dos cursos de ensino a distância, o novo decreto traz regras rígidas para os polos presenciais:

  • Necessidade de laboratórios, salas de estudo, bibliotecas físicas e digitais.
  • Aulas práticas obrigatórias devem ter espaços adequados e profissionais qualificados.
  • Os polos deverão ter infraestrutura fiscalizada pelo MEC.

Avaliações presenciais com peso maior

A nova política determina que:

  • Todas as avaliações finais de curso devem ser presenciais.
  • Avaliações terão peso elevado na nota final, garantindo que o aluno domine o conteúdo.
  • Medida visa combater fraudes e evasão de responsabilidade por parte das instituições.

Período de transição: o que muda para quem já está matriculado?

As instituições terão dois anos para se adequar às novas exigências. Durante esse período:

  • Alunos que já estão matriculados não serão prejudicados.
  • Cursos em andamento poderão ser concluídos no formato atual.
  • Instituições deverão comunicar com clareza sobre as mudanças futuras.

Como essas mudanças impactam o futuro da educação?

Democratização com qualidade

O Brasil tem dimensões continentais e muitas áreas com baixa oferta de ensino superior. O ensino a distância é um meio estratégico para democratizar o acesso, especialmente para quem mora longe dos grandes centros urbanos.

No entanto, a qualidade da formação não pode ser comprometida. A nova política do MEC tenta equilibrar essa equação: mais acesso, sem abrir mão da excelência.

Controle e regulamentação

Nos últimos anos, houve um crescimento explosivo de cursos de ensino a distância, muitas vezes com foco apenas no lucro. O decreto sinaliza uma postura mais rigorosa do governo federal, que busca retomar o controle sobre a expansão desordenada dessa modalidade.

O que dizem especialistas?

Especialistas em educação superior elogiaram a iniciativa, mas alertam para os desafios de implementação:

  • Professor Luiz Roberto Liza Curi, do Conselho Nacional de Educação:
    “O modelo semipresencial pode ser o caminho ideal para muitas formações. É preciso agora garantir que as universidades tenham estrutura e planejamento para adotar essas mudanças.”
  • Ana Paula Dourado, pesquisadora da UFBA:
    “A exigência de atividades presenciais nos polos pode elevar os custos para algumas instituições, mas é um passo importante para combater a mercantilização do ensino.”

Conclusão

A Nova Política Nacional de Educação a Distância marca uma mudança de rumo para o ensino a distância no Brasil. Com novas exigências de qualidade, infraestrutura e presença física, o MEC tenta equilibrar os benefícios do ensino remoto com a responsabilidade da formação profissional.

Se bem implementada, a política pode fortalecer o papel do EAD como ferramenta de inclusão, sem comprometer o nível de ensino. Para alunos, professores e instituições, o momento é de adaptação e planejamento estratégico.

Imagem: @lookstudio / Freepik