A crise institucional entre a Ordem dos Advogados do Brasil (OAB) e o Banco do Brasil (BB) ganhou um novo capítulo nesta segunda-feira (18), após a entidade anunciar que vai notificar a presidente do banco, Tarciana Medeiros, e não descarta levá-la à Justiça.
OAB vai recorrer à Justiça após fala da presidente do Banco do Brasil
OAB reage à fala da presidente do Banco do Brasil e avaliará ação judicial. Entenda o caso, as declarações polêmicas e o impacto no setor.
O motivo: uma declaração feita pela executiva durante entrevista coletiva em que afirmou que o banco estuda acionar judicialmente escritórios de advocacia que orientam produtores rurais a ingressar com recuperação judicial sem procurar o banco para renegociação.
A fala da presidente foi vista pela OAB como uma tentativa de criminalizar a advocacia, gerando forte reação dentro do setor jurídico e político.
A Ordem afirma que a declaração coloca em risco as prerrogativas da profissão e promete usar “todos os recursos disponíveis” para defender os advogados envolvidos.
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Declaração de Tarciana Medeiros acende alerta jurídico

Durante coletiva de imprensa na sexta-feira (15), Tarciana Medeiros, que ocupa o cargo de presidente do Banco do Brasil desde janeiro de 2023, foi questionada sobre o aumento expressivo nas provisões para perdas de crédito do banco, especialmente no setor do agronegócio.
Na ocasião, ela afirmou:
“Nosso jurídico está analisando os escritórios que estão orientando de forma ostensiva contra o Banco do Brasil e avaliando acioná-los judicialmente.”
A declaração causou surpresa e inquietação. A OAB entendeu que a executiva tentou imputar ilegalidade à atuação de advogados que representam produtores rurais — algo que, segundo a entidade, é um direito constitucional legítimo.
O que está em jogo? O exercício da advocacia
Posição oficial da OAB
Logo após a declaração vir à tona, o Conselho Federal da OAB divulgou nota pública repudiando a fala da presidente do BB. Segundo a entidade, o discurso configura uma ameaça direta ao livre exercício da advocacia, e afirmou:
“É inaceitável que, em pleno 2025, uma integrante do primeiro escalão do governo, líder de um dos maiores bancos do país, tente criminalizar o exercício legítimo da advocacia.”
A Ordem acrescentou que enviará uma notificação extrajudicial à executiva e que, caso a intenção de processar advogados se confirme, tomará todas as medidas legais cabíveis.
Impacto institucional
Além de ferir princípios da advocacia, o embate pode gerar repercussão institucional. A fala da presidente ocorre em um momento sensível para o banco, que enfrenta queda expressiva nos lucros e forte pressão por parte do setor agrícola, historicamente um dos maiores clientes da instituição.
Contexto: crise no crédito rural e impacto nas contas do BB
Resultados financeiros preocupantes
O Banco do Brasil anunciou na última sexta-feira seus resultados referentes ao segundo trimestre de 2025. A instituição registrou uma queda de 60% no lucro líquido ajustado, impulsionada por um crescimento expressivo nas provisões para perdas com crédito.
Segundo os dados apresentados:
- Provisões totais: R$ 15,9 bilhões
- Alta em relação a 2024: 104%
- Perdas esperadas no agronegócio: R$ 7,9 bilhões
- Participação do agro na carteira do banco: 33,8%
A situação expôs uma tensão crescente entre o banco e produtores rurais, muitos dos quais optaram por entrar diretamente com pedidos de recuperação judicial, sem buscar renegociação com o banco.
A crítica da presidente
A presidente Tarciana Medeiros associou esse movimento a uma suposta orientação inadequada de consultores e advogados, o que motivou sua fala sobre possíveis medidas judiciais contra escritórios.
“Conhecemos uma parte desses clientes e sabemos que eles não procuraram o banco para renegociar. Nesse espaço jurídico, houve uma tentativa de abuso.”
Recuperação judicial e a legalidade da orientação jurídica
O que diz a legislação?
A recuperação judicial é um instrumento legal previsto na Lei nº 11.101/2005, que permite que empresas em dificuldades financeiras reorganizem suas dívidas e evitem a falência. Advogados especializados podem, e devem, orientar seus clientes sobre a viabilidade dessa alternativa.
Do ponto de vista jurídico, não há ilegalidade na atuação de advogados que assessoram produtores rurais nesse processo. Para a OAB, a tentativa de judicializar essa atuação beira o autoritarismo.
“Advogar em defesa dos direitos do cliente não pode ser considerado um ato passível de punição”, argumenta um conselheiro da Ordem.
Reação do Banco do Brasil
Após a repercussão negativa, o Banco do Brasil divulgou uma nota oficial tentando minimizar a crise. No comunicado, o banco diz que respeita a advocacia, mas condena práticas que considera abusivas.
“O BB respeita e enaltece o exercício da advocacia. O que combate são práticas inadequadas de alguns profissionais que vão de encontro aos preceitos éticos da OAB, sobrecarregando o Judiciário e prejudicando produtores rurais.”
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A instituição também afirmou já ter procurado a OAB para dialogar sobre o tema e encontrar uma solução que respeite ambas as partes.
A politização do caso
Pressão no Congresso e no Executivo
O caso já começa a repercutir entre parlamentares e integrantes do governo. Deputados da Frente Parlamentar da Agropecuária classificaram a fala da presidente do BB como uma tentativa de “transferir responsabilidade” para advogados e produtores.
Por outro lado, aliados do governo avaliam que a reação da OAB pode ter sido desproporcional, já que Tarciana Medeiros não teria citado nomes nem feito ameaças diretas.
Mesmo assim, o Palácio do Planalto monitora a situação de perto, temendo desgastes políticos num momento em que o agronegócio enfrenta dificuldades e pressiona por mais apoio financeiro.
O que pode acontecer agora?

Possibilidades legais em análise
A depender da resposta da presidente Tarciana à notificação extrajudicial, a OAB poderá:
- Ingressar com ação judicial por danos morais coletivos à categoria;
- Solicitar reunião com o Ministério da Justiça para tratar da proteção das prerrogativas dos advogados;
- Promover uma representação institucional junto ao Congresso Nacional.
O caso também poderá resultar em uma audiência pública no Senado ou na Câmara dos Deputados para debater o tema e as responsabilidades das instituições financeiras.
Clima tenso entre advocacia e setor financeiro
Mesmo que a crise seja contornada nos próximos dias, a relação entre advogados e o sistema bancário pode ter sido definitivamente abalada, principalmente em regiões do país com forte presença do agronegócio, como Centro-Oeste, Sul e parte do Sudeste.
Conclusão
O embate entre a OAB e a presidente do Banco do Brasil escancara uma tensão crescente entre o sistema financeiro e os profissionais do direito em meio à crise no agronegócio brasileiro.
As falas de Tarciana Medeiros, embora possam ter sido mal interpretadas, acenderam um alerta vermelho sobre os limites do discurso institucional e a necessidade de proteger o livre exercício da advocacia — um dos pilares do Estado Democrático de Direito.
A evolução do caso dependerá das próximas movimentações jurídicas e políticas, mas já serve de exemplo do quão sensível é a relação entre economia, política e direito no Brasil de 2025.
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