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Careca do INSS tentou três acordos de milhões com Ministério da Saúde, entenda

Documentos e mensagens revelam tentativas do Careca do INSS de fechar contratos com o Ministério da Saúde em 2024 e 2025.

Vitória MonckesPor Vitória Monckes6 min de leitura
careca do inss

A Operação Sem Desconto, deflagrada pela Polícia Federal em abril de 2025 para investigar fraudes envolvendo benefícios do INSS, revelou um capítulo até então pouco conhecido: as articulações de Antônio Carlos Camilo, conhecido como Careca do INSS, para fechar contratos na área da saúde federal. Documentos, mensagens e registros obtidos por veículos jornalísticos mostram que, entre o fim de 2024 e o início de 2025, o lobista e seus funcionários movimentaram-se para oferecer produtos ao Ministério da Saúde, incluindo medicamentos à base de cannabis, testes de dengue e alimentos infantis.

Apesar da aproximação e de ao menos um encontro presencial registrado no órgão, nenhuma das propostas resultou em compra por parte do governo. Ainda assim, as revelações ampliam o alcance da investigação e levantam suspeitas sobre uma possível rota empresarial financiada pelos desvios detectados no âmbito da Previdência.

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Origem das suspeitas e avanço da investigação

A Operação Sem Desconto estourou em 23 de abril de 2025 e rapidamente colocou o nome do Careca do INSS em destaque nacional. O esquema inicialmente investigado envolvia fraudes em aposentadorias e benefícios previdenciários. No entanto, a dimensão do caso ganhou amplitude quando, em dezembro de 2025, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), afirmou em despacho que o Ministério da Saúde surgia como uma “nova possível área de atuação da organização criminosa”.

Decisão do STF e recado à Anvisa

Na mesma decisão, Mendonça determinou que a Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) apurasse administrativamente eventuais irregularidades cometidas por servidores, indicando preocupação com fluxos internos e processos regulatórios que pudessem ter sido alvo de influência.

Tentativas de negócios com cannabis medicinal

World Cannabis e o foco no canabidiol

Uma das empresas vinculadas ao lobista é a World Cannabis, voltada para o mercado de cannabis medicinal. Em 19 de dezembro de 2024, mensagens internas mostraram que o grupo monitorava mudanças regulatórias na Anvisa, especialmente uma revisão da resolução nº 327, que trata da importação e fabricação de produtos derivados de cannabis.

Mensagens internas e busca por reuniões

Naquele dia, o Careca escreveu a funcionários pedindo agenda e mencionando encontro com o então secretário-executivo do Ministério da Saúde, Swedenberger Barbosa, conhecido como Berger. A mensagem não detalhava se a reunião seria presencial ou remota.

Dias antes, em 13 de dezembro, a equipe havia compartilhado o rascunho de um Termo de Referência (TR) para aquisição de 1,2 milhão de frascos de canabidiol pelo governo federal, com dispensa de licitação e direcionamento a quatro empresas, incluindo a World Cannabis. A prática sugeria a intenção de entregar ao governo um documento pronto para guiar a compra.

No entanto, não houve aquisição. O Ministério da Saúde afirmou posteriormente que não compra nem fornece canabidiol, que o produto não integra o SUS e que não havia qualquer processo em andamento voltado a isso.

Tentativas com testes rápidos de dengue

Reuniões presenciais e estratégia para 2025

Com o avanço do verão e a alta sazonal de casos de arboviroses, o foco do lobista mudou no início de 2025. Em 9 de janeiro, mensagens internas indicavam que o grupo preparava documentos para uma reunião presencial com Berger no Ministério da Saúde.

Estratégia e documentos produzidos

De acordo com conversas, o lobista relatou que Berger teria orientado agenda posterior com a Secretaria de Vigilância em Saúde e Ambiente (SVA). Assim como no caso do canabidiol, a equipe do Careca produziu um Termo de Referência propondo uma compra emergencial por dispensa de licitação, desta vez para testes de dengue fabricados pela empresa chinesa Alltest.

O documento foi editado pela diretora jurídica da empresa do Careca, Vitória Sernégio, sua sobrinha. Mais uma vez, o TR não partiu do ministério, mas sim da iniciativa privada, sugerindo um modelo pronto para ser adotado pelo órgão.

Nota técnica e falta de ligação com o lobista

Em 16 de janeiro de 2025, a SVA emitiu nota técnica recomendando distribuição de 4,5 milhões de testes rápidos da Alltest aos estados. A proximidade das datas chamou atenção, mas o ministério afirmou que tais testes haviam sido adquiridos meses antes, ainda em março de 2024, por meio de licitação pública sem vínculo com o lobista. O plano do Careca voltou a não se concretizar.

Após as investigações avançarem, Berger deixou o ministério em março de 2025. Em nota posterior, afirmou que a reunião com representantes da World Cannabis foi registrada em sua agenda pública e que não houve qualquer orientação para aquisição de produtos.

Tentativas na área de nutrição infantil

Parceria com empresa goiana e programa de inovação

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Em outra frente, o lobista buscou atuação no fornecimento de alimentos infantis ao Ministério da Saúde via Indústria Química do Estado de Goiás (Iquego). Para isso, uma de suas empresas, a Camilo Comércio e Serviços SA, assinou um memorando de entendimentos confidencial com a DAUS Indústria de Alimentos em 31 de outubro de 2024.

Programa de Desenvolvimento e Inovação Local

O acordo se apoiava no Programa de Desenvolvimento e Inovação Local (PDIL), lançado pelo Ministério da Saúde, que prevê transferência de tecnologia entre empresas e laboratórios públicos. No caso, a DAUS forneceria conhecimento técnico à Iquego para produção.

Contudo, o órgão informou que a proposta foi analisada e reprovada em agosto de 2025. A DAUS afirmou que não pagou nada ao lobista e que havia cláusulas anticorrupção que garantiriam o rompimento da parceria caso houvesse dúvidas sobre conduta.

Uso de recursos desviados e frentes de investigação

Além das tentativas de fornecer produtos ao Ministério da Saúde, uma das suspeitas em análise é que valores supostamente desviados de aposentadorias e benefícios previdenciários tenham sido usados tanto para custear propina quanto para estruturar empresas com alvo em contratos públicos milionários.

Esse desdobramento amplia o escopo da investigação e explica por que o caso hoje envolve diferentes áreas do governo e do setor regulatório.

Governo não comprou produtos e reforçou regras

Apesar das tentativas, nenhum dos negócios apresentados pelo Careca e suas empresas foi concluído. O Ministério da Saúde reforçou que licitações seguiram protocolos técnicos e que reuniões institucionais com representantes do mercado são previstas na administração pública.

O avanço das apurações, no entanto, permanece sob sigilo. As mensagens obtidas via WhatsApp e documentos anexados ao inquérito estão sob análise da Polícia Federal, que investiga as frentes empresarial, política e financeira do caso.

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INFORMAÇÕES ATUALIZADAS 2026:

Vitória Monckes

Autor

Vitória Monckes

Vitória Monckes é turismóloga, comissária de voo e futura enfermeira. No Seu Crédito Digital, atua como redatora especializada na tradução clara e acessível de políticas públicas, direitos sociais, previdência, programas assistenciais e medidas econômicas. Sua missão é transformar temas governamentais complexos em conteúdos compreensíveis e úteis para os brasileiros, contribuindo para decisões mais conscientes no dia a dia.

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