Por que passagens caras não salvam companhias aéreas da falência?
A crise crônica das companhias aéreas brasileiras ganha novo capítulo com a entrada da Azul Linhas Aéreas em recuperação judicial nos Estados Unidos, por meio do Chapter 11.
Apesar de praticarem tarifas elevadas, as principais empresas do setor enfrentam problemas financeiros graves, que vão além dos preços das passagens.
A Gol e a Latam já passaram por processos similares recentemente, evidenciando um cenário preocupante para a aviação comercial nacional.
Este artigo detalha as causas estruturais, econômicas e regulatórias que fazem com que mesmo passagens caras não garantam a saúde financeira das companhias aéreas brasileiras.
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O cenário atual da aviação no Brasil
A Azul solicitou recuperação judicial em março de 2025, prevendo uma redução de 35% em sua frota, num esforço para ajustar custos e buscar sustentabilidade.
Esse movimento repete um padrão visto em outras grandes empresas aéreas do país, refletindo um ambiente de margens apertadas, dívidas altas e desafios econômicos.
Margens operacionais e dívidas: um equilíbrio delicado
Segundo Marcus Quintella, diretor da FGV Transportes, a aviação é um setor de margens extremamente pequenas. Mesmo em momentos estáveis, o lucro líquido gira em torno de 5%.
No Brasil, essa realidade é agravada pela falta de políticas públicas que apoiem o setor em crises, como ocorreu durante a pandemia de covid-19, quando companhias aéreas não receberam ajuda governamental direta.
Por que tarifas altas não geram lucro?
A resposta para o aparente paradoxo está no descompasso entre receitas e custos. Enquanto as passagens são pagas em reais, grande parte das despesas das companhias é dolarizada. Isso cria um efeito cambial que corrói a margem de lucro, independentemente do preço cobrado.
Custos dolarizados: combustível, leasing e manutenção
O querosene de aviação (QAV), que representa cerca de 35% a 40% dos custos totais, segue a cotação internacional, mesmo sendo produzido em sua maioria no Brasil. Além disso, contratos de leasing das aeronaves e manutenção também são pagos em dólar, sujeitando as empresas à volatilidade cambial.
Tributação estadual e taxas elevadas
Outro fator que pesa no custo operacional é o ICMS sobre combustíveis, que varia entre estados e pode representar um aumento significativo no preço final do QAV.
Além disso, taxas cobradas pela Infraero, ANAC e órgãos reguladores, como pouso, permanência e navegação aérea, são consideradas elevadas quando comparadas a padrões internacionais, tornando o ambiente brasileiro menos competitivo.
Ausência de suporte público: um diferencial crítico
Ao contrário do que aconteceu em outros países, o setor aéreo brasileiro não recebeu linhas de crédito emergenciais ou subsídios durante os momentos mais críticos da pandemia.
Isso impactou negativamente a liquidez das empresas, que continuaram acumulando dívidas enquanto a demanda despencava.
Mesmo após a retomada gradual, os efeitos dessa ausência de suporte ainda são sentidos, exacerbados por um cenário macroeconômico incerto, inflação persistente e alta volatilidade do câmbio.
Estratégias empresariais: recuperação judicial e reestruturação
A recuperação judicial é vista por especialistas como uma ferramenta estratégica para preservar operações e renegociar dívidas. Por meio do Chapter 11, empresas como Azul e Gol buscam aliviar a pressão financeira, cortar custos e atrair novos investimentos.
Redução da frota e foco em rotas rentáveis
Parte do plano da Azul inclui reduzir sua frota em 35% e eliminar rotas menos lucrativas, concentrando-se nos principais centros urbanos como São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília.
Essa concentração pode gerar um ciclo vicioso: menos rotas levam a menos competição, o que pressiona os preços para cima e reduz a base de clientes.
O impacto das passagens caras no mercado
Apesar das tarifas terem aumentado acima da inflação, essa alta não se traduz em rentabilidade para as companhias. Muitas vezes, as empresas são obrigadas a vender passagens abaixo do custo para manter participação de mercado, prejudicando ainda mais sua saúde financeira.
Essa dinâmica revela que o preço da passagem sozinho não é suficiente para garantir lucro, sobretudo num mercado onde os custos fixos são elevados e dolarizados.
Possíveis soluções para a crise da aviação brasileira
Especialistas apontam para a necessidade de reformas estruturais para tirar o setor do impasse. Entre as principais propostas estão:
Reforma tributária e redução do ICMS
A unificação e redução do ICMS sobre o combustível poderiam aliviar os custos das companhias aéreas, tornando as operações mais viáveis financeiramente e estimulando a competitividade do setor.
Criação de subsídios inteligentes para aviação regional
Investimentos direcionados para estimular voos regionais, que hoje são pouco explorados, poderiam expandir a malha aérea e aumentar a demanda, melhorando a sustentabilidade do setor.
Incentivo às companhias low cost
A introdução e estímulo a companhias aéreas de baixo custo (low cost), modelo já consolidado em outros países, poderia tornar as passagens mais acessíveis e ampliar o mercado consumidor. Atualmente, esse modelo praticamente não existe no Brasil.
Fundo de estabilização cambial
Para proteger as empresas da volatilidade do dólar em contratos essenciais, a criação de um fundo de estabilização cambial pode ser uma ferramenta importante para garantir maior previsibilidade financeira.
Considerações finais
O fato de passagens aéreas brasileiras serem caras não significa que as companhias estejam saudáveis financeiramente.
O conjunto de fatores que envolve custos dolarizados, altas tributações, falta de apoio estatal e estratégia comercial de preço abaixo do custo cria uma tempestade perfeita para a crise no setor.
A recuperação judicial de Azul, Gol e Latam evidencia que é necessária uma reestruturação profunda e o alinhamento entre políticas públicas e iniciativas privadas para garantir a sobrevivência e o crescimento da aviação no Brasil.
O potencial do país para o desenvolvimento aéreo é enorme, devido à extensão territorial e às distâncias entre os centros urbanos, mas só será plenamente aproveitado com mudanças estruturais que equilibrem receitas e despesas e garantam um ambiente competitivo e sustentável para o setor.