Um programa criado para ajudar estudantes de baixa renda a permanecer na escola pode produzir efeitos muito maiores do que os depósitos feitos nas contas dos beneficiários. Um estudo do Núcleo de Estudos Raciais do Insper estima que o Pé-de-Meia esteja associado a um benefício econômico e social de R$ 184,6 bilhões para o Brasil.
O valor chama atenção porque corresponde a aproximadamente 15 vezes o custo anual de R$ 12 bilhões considerado pelos pesquisadores. Isso, porém, não significa que o governo receberá R$ 184,6 bilhões imediatamente ou que cada real investido voltará aos cofres públicos no mesmo ano.
A estimativa representa o valor atual de benefícios que podem aparecer ao longo de décadas. Entre eles estão o aumento da renda dos trabalhadores, a maior produtividade da economia, a melhoria da qualidade de vida e outros efeitos ligados à conclusão do ensino médio.
O levantamento foi elaborado pelos economistas Daniel Duque e Michael França e ainda deverá passar por revisão por pares, etapa na qual outros pesquisadores avaliam a metodologia e as conclusões. Por isso, os resultados devem ser interpretados como uma projeção baseada em dados e hipóteses, e não como um retorno financeiro já confirmado.
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Como o Pé-de-Meia pode beneficiar a economia brasileira?

O raciocínio utilizado no estudo parte de uma relação conhecida na área da educação: pessoas que concluem o ensino médio geralmente têm mais oportunidades profissionais e maior remuneração durante a vida do que aquelas que abandonam a escola.
Quando milhares de jovens conseguem concluir os estudos, o benefício não fica restrito a cada estudante. O país também pode ganhar com uma força de trabalho mais qualificada, maior produtividade, aumento da renda familiar e redução da vulnerabilidade social.
Os pesquisadores estimam que os efeitos do Pé-de-Meia podem resultar em aproximadamente 372 mil conclusões adicionais do ensino médio por ano. Essas conclusões seriam de jovens que, sem o estímulo oferecido pelo programa, teriam uma probabilidade maior de abandonar os estudos.
É importante observar que “conclusão adicional” não significa simplesmente contar todos os estudantes atendidos. A projeção busca estimar quantos deles efetivamente terminariam o ensino médio por influência da política pública.
De onde vem a estimativa de R$ 184,6 bilhões?
O estudo considera um universo de aproximadamente 15,87 milhões de pessoas de 15 a 24 anos inscritas no Cadastro Único para Programas Sociais do Governo Federal, o CadÚnico.
A partir desse grupo, os autores combinaram três fatores principais:
- o impacto estimado do Pé-de-Meia sobre a permanência escolar;
- a quantidade de jovens de baixa renda que podem ser alcançados;
- a probabilidade de esses estudantes avançarem até a conclusão do ensino médio.
Com essa metodologia, chegaram à projeção de cerca de 372 mil conclusões adicionais por ano.
O levantamento dividiu os estudantes em dois grupos de idade, pois concluir o ensino médio na faixa considerada regular pode produzir efeitos diferentes de uma conclusão tardia.
Conclusões entre 15 e 19 anos
O estudo projeta aproximadamente 145,6 mil conclusões adicionais entre jovens de 15 a 19 anos. Para esse grupo, cada conclusão do ensino médio foi avaliada em R$ 537,2 mil ao longo da vida.
Multiplicadas, essas conclusões representariam um benefício econômico e social de aproximadamente R$ 78,2 bilhões.
Conclusões entre 20 e 24 anos
Entre os jovens de 20 a 24 anos, a projeção é de aproximadamente 226,1 mil conclusões adicionais.
Nesse caso, o valor estimado para cada conclusão foi reduzido para R$ 470,7 mil. O desconto considera que a conclusão tardia diminui o período durante o qual o trabalhador poderá aproveitar os possíveis ganhos profissionais proporcionados pela escolaridade.
O benefício calculado para esse grupo chega a aproximadamente R$ 106,4 bilhões.
A soma dos dois resultados — R$ 78,2 bilhões e R$ 106,4 bilhões — produz a estimativa total de R$ 184,6 bilhões.
O governo receberá R$ 184,6 bilhões?
Não. Essa é uma das principais diferenças que o leitor precisa compreender.
Os R$ 184,6 bilhões não correspondem a uma arrecadação que entrará diretamente no caixa do governo. Também não são um pagamento destinado aos estudantes ou um lucro anual do programa.
O número representa o chamado valor presente dos possíveis benefícios futuros. Em termos simples, os pesquisadores transformaram em um valor atual os ganhos econômicos e sociais que podem surgir durante a vida dos jovens beneficiados.
Esses ganhos podem incluir:
- salários mais altos ao longo da trajetória profissional;
- maior produtividade no trabalho;
- melhores condições de saúde e qualidade de vida;
- ampliação das oportunidades de emprego;
- redução da reprodução da pobreza entre gerações;
- possíveis efeitos sociais relacionados à redução da violência.
Portanto, parte dos benefícios aparece diretamente na vida do estudante e de sua família. Outra parte pode alcançar empresas, serviços públicos e a economia brasileira como um todo.
Por que a comparação com o custo anual exige cautela?
O estudo considera um custo anual de aproximadamente R$ 12 bilhões para o Pé-de-Meia. Como o benefício projetado chega a R$ 184,6 bilhões, a estimativa é cerca de 15 vezes maior.
Apesar de útil para mostrar o potencial da política pública, essa comparação reúne valores que acontecem em períodos diferentes.
O custo do programa é pago no presente, por meio dos incentivos depositados para os estudantes e das despesas necessárias à sua execução. Já os benefícios estimados podem levar décadas para se materializar.
Um jovem que concluir o ensino médio aos 18 anos, por exemplo, poderá receber salários maiores ao longo de 30 ou 40 anos de trabalho. O ganho não ocorre de uma só vez.
Também não há garantia de que todos os efeitos previstos se confirmarão exatamente nos valores calculados. O mercado de trabalho, a qualidade da educação, o crescimento econômico e as oportunidades disponíveis em cada região influenciam o resultado.
Como foi calculado o valor de cada conclusão escolar?
Para definir quanto vale economicamente a conclusão do ensino médio, os autores utilizaram como referência um estudo publicado em 2021 por Ricardo Paes de Barros e outros pesquisadores.
Esse trabalho avaliou os prejuízos econômicos e sociais relacionados à falta de conclusão da educação básica. A conta não considerou apenas a diferença salarial entre quem conclui e quem abandona a escola.
Também foram incluídos ganhos associados à produtividade, à longevidade, à qualidade de vida e à construção de uma cultura de paz. Os valores foram posteriormente atualizados para a realidade de preços considerada pelo novo levantamento.
Dessa forma, os R$ 537,2 mil atribuídos a uma conclusão na idade regular não representam o salário que o estudante receberá. Trata-se de uma estimativa agregada dos benefícios produzidos ao longo de sua vida.
O estudo considera que todos os beneficiários concluirão os estudos?
Não. Os pesquisadores adotaram uma taxa de progressão escolar baseada na Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios Contínua, a Pnad Contínua.
Isso significa que a análise não pressupõe que todo estudante mantido temporariamente na escola chegará automaticamente à conclusão do ensino médio.
A Pnad Contínua, produzida pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), acompanha características da população, incluindo dados sobre educação e mercado de trabalho. A taxa observada nessa pesquisa foi utilizada para tornar a projeção mais próxima do comportamento educacional registrado no país.
Os autores também aplicaram um valor menor às conclusões tardias e não incluíram alguns efeitos positivos possíveis, como redução das reprovações e melhoria da aprendizagem. Por esse motivo, classificam parte das escolhas metodológicas como conservadoras.
Ainda assim, a ausência de informações oficiais mais detalhadas sobre o desempenho individual dos participantes limita a precisão da análise.
O que é o Pé-de-Meia e como o programa funciona?
Instituído pela Lei nº 14.818/2024, o Pé-de-Meia é um incentivo financeiro-educacional destinado principalmente a estudantes de baixa renda matriculados no ensino médio público.
A política funciona como uma poupança vinculada à trajetória escolar. O estudante pode receber valores pela matrícula, pela frequência às aulas, pela aprovação ao final de cada ano e pela participação no Exame Nacional do Ensino Médio (Enem).
No ensino médio regular, os incentivos podem alcançar R$ 9,2 mil por estudante durante os três anos, desde que todos os requisitos sejam cumpridos.
A estrutura básica inclui:
- R$ 200 pela confirmação da matrícula;
- parcelas de R$ 200 vinculadas à frequência escolar;
- R$ 1 mil por ano concluído com aprovação;
- R$ 200 pela participação no Enem no último ano.
Os depósitos de frequência podem ser movimentados durante o ano. Já os valores referentes à conclusão funcionam como uma poupança e ficam disponíveis após o estudante terminar o ensino médio, conforme as condições do programa.
As regras completas e os calendários são divulgados pelo Ministério da Educação.
Quem pode receber o Pé-de-Meia?
O público atendido é definido a partir de informações da rede de ensino, do Cadastro de Pessoas Físicas (CPF) e do CadÚnico.
No ensino médio regular, o programa alcança estudantes de baixa renda, geralmente entre 14 e 24 anos, matriculados em escola pública e pertencentes a famílias inscritas no CadÚnico. Para a Educação de Jovens e Adultos (EJA), existem critérios próprios de idade, pagamento e frequência.
O estudante não precisa fazer uma inscrição específica no Pé-de-Meia. A seleção ocorre por meio do cruzamento das informações encaminhadas pelas escolas com os dados dos cadastros federais.
Isso torna importante manter os dados familiares atualizados no CadÚnico e verificar se a escola registrou corretamente a matrícula e a frequência.
Por que pagar para o jovem permanecer na escola?
Para muitas famílias de baixa renda, continuar estudando possui um custo indireto. Um adolescente pode sentir necessidade de trabalhar, ajudar nas despesas domésticas ou cuidar de familiares.
Nesse contexto, o abandono escolar nem sempre acontece por falta de interesse. Muitas vezes, ele está ligado à urgência financeira.
O Pé-de-Meia tenta reduzir essa pressão ao oferecer uma renda condicionada à participação escolar. A parcela mensal ajuda nas necessidades imediatas, enquanto o depósito pela conclusão cria um estímulo de médio prazo.
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A lógica é semelhante à de outros programas de transferência condicionada: o governo oferece apoio financeiro, mas vincula parte do pagamento a uma ação considerada importante para o desenvolvimento social.
Quais são as limitações da estimativa?
O resultado de R$ 184,6 bilhões é relevante, mas ainda precisa ser analisado com prudência.
Primeiramente, o estudo ainda deverá passar por revisão por pares. Esse processo permite que especialistas independentes examinem os dados, as premissas e os métodos utilizados.
Também existe uma dificuldade para separar o efeito do Pé-de-Meia de outros fatores que influenciam a trajetória escolar. Mudanças na renda familiar, políticas estaduais, oferta de transporte, qualidade da escola e situação do mercado de trabalho podem afetar a decisão de continuar estudando.
Outro desafio é acompanhar os estudantes durante vários anos. Como o programa foi instituído em 2024, ainda não existe uma série histórica longa capaz de mostrar todos os seus efeitos sobre conclusão escolar, emprego e renda.
Por isso, a estimativa deve ser entendida como uma projeção do potencial da política, sujeita a atualização conforme novos dados forem disponibilizados.
Como o estudante pode consultar o benefício?
A consulta pode ser feita pelo aplicativo Jornada do Estudante, disponibilizado pelo Ministério da Educação. Nele, é possível verificar a participação no programa, a situação dos pagamentos e eventuais pendências.
Os depósitos são realizados em conta aberta pela Caixa Econômica Federal. A movimentação pode ser acompanhada pelo aplicativo Caixa Tem.
Se o estudante for menor de 18 anos, o responsável legal poderá precisar autorizar a movimentação da conta. Problemas relacionados à matrícula ou à frequência devem ser verificados inicialmente com a escola.
Em caso de dúvida, o estudante deve:
- conferir se o CPF está regular;
- verificar se a família está inscrita e com dados atualizados no CadÚnico;
- confirmar a matrícula e a frequência registradas pela escola;
- consultar o Jornada do Estudante;
- conferir a conta e os pagamentos no Caixa Tem.
O que pode acontecer a partir de agora?
A projeção reforça o argumento de que programas educacionais devem ser avaliados não apenas pelo gasto imediato, mas também pelos resultados produzidos no longo prazo.
O próximo passo será acompanhar se a redução do abandono observada entre jovens elegíveis se transforma efetivamente em aumento das conclusões. Também será necessário verificar a qualidade da aprendizagem, pois permanecer na escola é fundamental, mas aprender o conteúdo e desenvolver habilidades profissionais também importa.
Com mais dados oficiais e avaliações independentes, será possível medir com maior precisão quanto do benefício estimado realmente se concretizou.
Para os estudantes, a orientação prática continua sendo manter o CadÚnico atualizado, acompanhar a frequência e consultar regularmente os canais oficiais. Para o país, a estimativa coloca uma questão importante no debate público: o custo de financiar a permanência escolar pode ser muito menor do que o prejuízo de permitir que milhares de jovens abandonem os estudos.
Perguntas frequentes sobre o Pé-de-Meia

O que significa o benefício de R$ 184,6 bilhões?
É uma estimativa do valor econômico e social produzido pelas conclusões adicionais do ensino médio associadas ao programa. Não se trata de dinheiro depositado imediatamente nos cofres públicos.
Quanto um estudante pode receber no Pé-de-Meia?
No ensino médio regular, o total pode chegar a R$ 9,2 mil durante os três anos, desde que o estudante cumpra todos os requisitos de matrícula, frequência, aprovação e participação no Enem.
É preciso fazer inscrição no Pé-de-Meia?
Não existe inscrição específica. O governo identifica os estudantes elegíveis cruzando dados das redes de ensino, do CPF e do CadÚnico.
Qual é a frequência mínima exigida?
O estudante precisa manter frequência mínima de 80% das horas letivas para receber o incentivo vinculado à presença escolar.
Como saber se fui aprovado no programa?
A situação pode ser consultada no aplicativo Jornada do Estudante. Informações sobre os depósitos e a conta bancária ficam disponíveis no Caixa Tem.
O valor de R$ 1 mil pode ser sacado imediatamente?
O incentivo de conclusão é depositado após a aprovação em cada ano, mas funciona como uma poupança. O saque integral depende da conclusão do ensino médio e do cumprimento das regras do programa.
O estudo do benefício de R$ 184,6 bilhões é definitivo?
Não. A pesquisa ainda deverá passar por revisão por pares e os resultados dependem das hipóteses e dos dados utilizados. A estimativa poderá ser atualizada quando houver informações oficiais mais completas.



