O adiamento da regulamentação do Pix Parcelado, uma das inovações mais esperadas pelo setor financeiro, expôs um revés institucional que reflete a atual crise de confiança no sistema. O Banco Central, agora sob a presidência de Gabriel Galípolo, decidiu postergar a publicação das regras de padronização após uma série de ataques cibernéticos e revelações de fraudes com o uso de fintechs por organizações criminosas.
Crise de segurança nas fintechs leva o BC a frear temporariamente o Pix Parcelado
Pix Parcelado tem regras adiadas após escândalos e ataques, refletindo crise de confiança e falhas de governança no setor.
Durante o Fitch in Fintechs 2025, realizado nesta terça-feira (14), especialistas apontaram que o momento exige reconstrução da confiança, antes da retomada de projetos mais ousados. A situação levanta preocupações sobre governança, segurança digital, responsabilidade compartilhada e até sobreposição regulatória entre órgãos de fiscalização.
Leia mais:
Regulação do Pix parcelado: Banco Central divulga novas regras

Inovação em pausa: o dilema entre avanço tecnológico e segurança
Pix Parcelado como aposta frustrada
O Pix Parcelado era visto como o próximo passo para popularizar o crédito no varejo digital, com potencial para substituir o cartão de crédito em muitas transações. No entanto, o adiamento da padronização do produto, que vinha sendo esperado para o segundo semestre de 2025, causou frustração entre os players que já vinham se preparando para sua implementação.
Segundo Pedro Carvalho, diretor sênior da Fitch Ratings, o Banco Central enfrentou um dilema delicado:
“Preservar a credibilidade do sistema sem frear demais a inovação. Só que redirecionar esforços para conter riscos inevitavelmente atrasa outros projetos.”
Impacto nos players e no ecossistema financeiro
Investimentos represados e incerteza regulatória
Com a falta de definição sobre as regras do Pix Parcelado, empresas de tecnologia, fintechs e bancos digitais que já estavam investindo em infraestrutura e produto agora enfrentam incertezas jurídicas e comerciais. A ausência de previsibilidade afeta o planejamento e pode desacelerar o ritmo de expansão do crédito.
“Se há desconfiança do usuário, todo mundo perde. Não adianta competir em inovação se a credibilidade do sistema está em risco”, afirmou Auziane Morais, líder de compliance do Stark Bank.
Risco de retrocesso na transformação digital
A crise evidencia um paradoxo: o Brasil é referência global em pagamentos instantâneos com o Pix, mas enfrenta dificuldades para evoluir quando a segurança e a governança não acompanham a inovação.
Escândalos que abalaram a confiança no sistema financeiro
Fraude bilionária com envolvimento do PCC
No fim de agosto, a Polícia Federal deflagrou três grandes operações — Carbono Oculto, Quasar e Tank — que desmantelaram um esquema bilionário de fraudes no setor de combustíveis liderado por membros do Primeiro Comando da Capital (PCC).
As investigações revelaram que:
- Foram sonegados mais de R$ 7,6 bilhões em tributos;
- O esquema utilizava fintechs e fundos de investimento para lavagem de dinheiro e ocultação de patrimônio;
- Pelo menos 40 fundos e diversas empresas foram usadas para simular transações financeiras fictícias.
O caso gerou forte reação das autoridades e pressionou o Banco Central a endurecer regras para prestadores de serviços tecnológicos.
Ameaças cibernéticas: três ataques em quatro meses

Julho: C&M Software
A C&M Software, que conecta instituições financeiras ao Banco Central, relatou um ataque à sua infraestrutura em julho. Embora nenhum vazamento tenha sido oficialmente confirmado, o episódio acendeu o alerta sobre a segurança do elo tecnológico entre bancos e o sistema financeiro nacional.
Setembro: Monbank
No mês seguinte, a Monbank, uma fintech de menor porte, informou ter sido vítima de um ataque hacker que desviou R$ 4,9 milhões. Segundo a empresa, nenhum cliente foi prejudicado e R$ 4,7 milhões foram recuperados, mas o incidente abalou sua imagem no mercado.
Setembro: Sinqia
Também em setembro, um dos casos mais graves veio à tona: a Sinqia, empresa que fornece infraestrutura bancária, revelou que um ataque cibernético causou o desvio de cerca de R$ 710 milhões em transações indevidas no sistema Pix. Foi o maior evento de vulnerabilidade tecnológica já registrado desde o lançamento do sistema de pagamentos instantâneos no Brasil.
Reação do Banco Central: novas exigências para PSTIs
Regras emergenciais de segurança
Em resposta aos episódios, o Banco Central anunciou regras mais rígidas para PSTIs (Prestadores de Serviços de Tecnologia da Informação), que funcionam como pontes tecnológicas entre instituições financeiras e o BC.
As medidas incluem:
- Capital mínimo de R$ 15 milhões para empresas que atuam como PSTIs;
- Certificação obrigatória de segurança cibernética;
- Regras de responsabilidade compartilhada para instituições de pagamento não autorizadas no Pix.
“A reação do BC pode ter sido repentina, mas as novas exigências são, na prática, boas práticas de governança”, afirmou François Guérin, diretor de serviços de banking da Opea.
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Governança: a nova prioridade para o setor
Falhas humanas e ausência de diligência
Os especialistas apontam que os problemas não foram apenas técnicos, mas também de conduta. Para Guérin, as instituições falharam em questões básicas de diligência e supervisão.
“Você pode colocar todas as regras, mas se a pessoa não segue, não adianta. Os eventos recentes mostraram que não é só uma questão de regulação. É governança.”
O executivo defende maior compartilhamento de informações e práticas de autorregulação entre os players, para garantir mais confiança no sistema como um todo.
Sobreposição regulatória: falhas entre CVM e BC
Lacunas entre órgãos de supervisão
Outro tema que ganhou força foi a discussão sobre sobreposição regulatória, especialmente entre a CVM (Comissão de Valores Mobiliários) e o Banco Central. Segundo Alexandre Assolini, diretor de segurança da Vórtx, há falhas que surgem nos espaços onde a competência dos reguladores não se sobrepõe claramente.
“Quando você tem dois reguladores, sempre tem uma fresta ali no meio, e algumas coisas caem nessa fresta.”
Essa avaliação aponta para a necessidade de maior integração entre os órgãos reguladores, visando evitar zonas cinzentas que podem ser exploradas por criminosos.
O desafio da retomada da confiança no sistema financeiro

Reconstrução antes da inovação
Com o adiamento do Pix Parcelado e o impacto negativo no ecossistema, o setor agora vive uma fase de reconstrução da confiança, tanto entre os próprios players quanto junto à sociedade.
“Não dá pra continuar inovando se a base de confiança foi abalada”, disse Auziane Morais. “O momento é de reconstrução, e isso exige uma mudança de postura de todo o ecossistema.”
Previsibilidade como fator-chave
Empresas e investidores dependem de previsibilidade regulatória para inovar e crescer. A ausência de uma régua clara sobre prazos, exigências e padrões de conduta gera insegurança e pode inibir a entrada de novos players ou o crescimento de modelos já em desenvolvimento.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
Pode ser do seu interesse:
