O governo federal lançou, nesta terça-feira (1º), o Plano Safra empresarial 2025/2026, com expectativa de liberar um volume recorde de recursos para o setor agropecuário. A medida, no entanto, ocorre em meio a uma crescente tensão com o setor produtivo, agravada por medidas recentes como o aumento do IOF (Imposto sobre Operações Financeiras) e o fim da isenção de IR para investidores em Letras de Crédito do Agronegócio (LCAs).
Plano Safra 2025: crédito mais caro gera críticas do setor agro
Governo lança o Plano Safra empresarial 2025/2026 com crédito recorde, juros mais altos e tensão com o setor produtivo após medidas arrecadatórias.
Além do valor expressivo que deve superar os R$ 584 bilhões anunciados no ano anterior, a nova edição do Plano Safra traz também uma realidade menos favorável para produtores: juros mais altos, redução de isenções e limitações orçamentárias.
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Plano Safra da agricultura familiar antecede anúncio empresarial

Na véspera, o governo apresentou o Plano Safra da Agricultura Familiar 2025/2026, com R$ 89,2 bilhões destinados aos pequenos produtores. A edição voltada à agricultura familiar já indicava um caminho de encarecimento do crédito, seguindo a tendência ditada pela atual taxa Selic.
Aumento de juros pressiona o campo
Impacto direto da Selic nas linhas de crédito rural
Com a Selic mantida em 15% ao ano, todas as linhas do crédito rural no Plano Safra 2025/2026 apresentam juros maiores, tanto para pequenos quanto para grandes produtores. O encarecimento ocorre em meio a uma série de fatores econômicos e fiscais, que colocam pressão sobre o governo para manter o equilíbrio das contas públicas.
LCAs deixam de ser atrativas após tributação
A maior polêmica recente, no entanto, recai sobre a Medida Provisória que revoga a isenção do Imposto de Renda sobre as LCAs. Com a nova tributação de 5%, os títulos perdem atratividade para investidores e comprometem uma das principais fontes de financiamento do setor.
A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) foi enfática: classificou a medida como “preocupante” e alertou para uma possível retração no funding do crédito rural, o que poderia comprometer a eficiência do próprio Plano Safra.
“Essa retração impacta diretamente a disponibilidade de funding para o crédito rural”, pontuou a CNA em nota oficial.
Participação das LCAs já havia caído antes da MP
Mesmo antes da mudança, a participação das LCAs na safra 2024/2025 já havia sofrido uma queda expressiva: de 43% para 29%. Agora, com a tributação, a tendência é de redução ainda mais acentuada, o que obriga o governo a buscar alternativas para manter o fluxo de recursos ao setor.
Setor cobra mais recursos para o seguro rural
PSR é política-chave para mitigação de riscos climáticos
Outra demanda não atendida diz respeito ao Programa de Subvenção ao Prêmio do Seguro Rural (PSR). O setor produtivo reivindica o aumento do orçamento para R$ 4 bilhões — quase quatro vezes mais do que o valor atual.
O PSR é visto como essencial para proteger os produtores de eventos climáticos extremos, como secas e enchentes. Contudo, o próprio ministro da Agricultura, Carlos Fávaro, já admitiu publicamente que o espaço fiscal é limitado, o que dificulta atender ao pedido.
Cortes e contingenciamentos prejudicam previsibilidade
Em junho, o governo bloqueou R$ 354,6 milhões e contingenciou outros R$ 90,5 milhões do orçamento previsto para o PSR. A medida gerou insatisfação generalizada e comprometeu a credibilidade da política agrícola, segundo representantes do setor.
Financiamento rural em dólar ganha força como alternativa

Proposta atende a produtores com receita em moeda estrangeira
Diante do cenário de juros altos e redução de recursos tradicionais, o setor produtivo propõe uma nova linha de financiamento rural indexada ao dólar. A iniciativa visa beneficiar produtores com receita dolarizada, como os de soja, milho, algodão e café.
Ideia avança no governo e tem apoio de ministros
A proposta encontra boa receptividade no governo federal. Integrantes da equipe econômica e do Ministério da Agricultura consideram a medida viável, sobretudo para os produtores exportadores.
O modelo prevê a utilização de instrumentos de hedge, como contratos futuros, e uma regulamentação do spread bancário para garantir que os custos não inviabilizem a operação.
“É uma maneira de reduzir o peso dos juros internos, sem abrir mão da responsabilidade fiscal”, afirmou uma fonte ligada ao Ministério da Fazenda.
Orçamento apertado limita expansão do crédito rural
Alta demanda x baixa capacidade de execução
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Mesmo com o anúncio de recursos recordes, a principal crítica do setor é de que há uma distância entre promessa e execução. Isso porque a disponibilidade orçamentária para garantir os subsídios e programas complementares segue aquém da necessidade.
Expectativa x realidade no Plano Safra
O governo aposta no volume expressivo de crédito como forma de demonstrar apoio ao agronegócio. No entanto, sem instrumentos de mitigação de risco (como o seguro) e com taxas de juros elevadas, a efetividade do plano pode ser comprometida.
Pressão política e riscos eleitorais
Governo tenta equilibrar arrecadação e base de apoio
As recentes medidas arrecadatórias — como o aumento do IOF e a MP das LCAs — foram duramente criticadas por bancadas do agronegócio no Congresso. O governo, por sua vez, tenta justificar que tais ações são necessárias para compensar a perda de arrecadação após o recuo em outras frentes fiscais.
A situação evidencia o conflito entre a necessidade de arrecadação e o apoio político do setor rural, base tradicionalmente influente no Parlamento.
Expectativas para o ciclo 2025/2026

Governo aposta em inovação e sustentabilidade
Apesar das críticas, o Executivo promete incluir linhas de crédito voltadas à agricultura sustentável e digital, em parceria com o BNDES e bancos públicos. A ideia é modernizar o setor, ampliando acesso a tecnologias e práticas que reduzem a emissão de carbono.
Setor vê risco de retração
Do lado do setor produtivo, o receio é de que, diante da combinação de juros altos, menor atratividade das LCAs e incerteza fiscal, o resultado final seja uma safra com menos investimentos e menor produtividade.
Conclusão: um Plano Safra ambicioso, mas desafiador
O Plano Safra empresarial 2025/2026 é, ao mesmo tempo, um esforço ambicioso do governo federal para manter a força do agronegócio e um retrato das limitações fiscais e políticas do momento.
Com juros elevados, tensionamento político com o setor e instrumentos tradicionais de financiamento sob ataque, o plano chega com potencial de impacto — mas também cercado de dúvidas.
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