Os contratos futuros de café arábica dispararam mais de 3,5% na última quinta-feira (10) na Bolsa de Nova York, refletindo a instabilidade gerada após o anúncio do ex-presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, de que aplicará uma tarifa de 50% sobre o café importado do Brasil a partir de 1º de agosto.
Preço do café para contratos futuros dispara após anúncio de tarifa de 50% de Trump ao Brasil
Trump impõe tarifa de 50% ao café do Brasil e eleva preços do arábica em Nova York. Medida pode afetar consumidores e exportações em escala global.
A medida gerou grande repercussão no setor agrícola, no comércio internacional e entre os consumidores norte-americanos, principais importadores da commodity brasileira.
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Na quarta-feira (9), Trump publicou uma carta na plataforma Truth Social afirmando que seu governo adotaria a elevada tarifa em resposta ao que considera ser uma “caça às bruxas” contra o ex-presidente Jair Bolsonaro e uma suposta ameaça à liberdade de expressão no Brasil.
Segundo ele, a política do governo brasileiro atual justifica represálias comerciais como forma de proteger os valores democráticos norte-americanos.
A declaração rapidamente gerou incerteza nos mercados e reacendeu discussões sobre os impactos de políticas protecionistas. O Brasil é o maior exportador mundial de café arábica, e os Estados Unidos são seu principal comprador.
Impacto imediato no mercado internacional
A reação da Bolsa de Nova York
Os contratos de café arábica negociados na ICE Futures em Nova York subiram mais de 3,5% já na manhã de quinta-feira. Traders reagiram com preocupação, prevendo escassez no mercado norte-americano e aumento dos custos para torrefadoras, cafeterias e consumidores finais.
Alta também no robusta
Embora a tarifa atinja diretamente o café arábica brasileiro, os reflexos foram sentidos também no mercado do robusta, com receios de que as tensões comerciais possam se estender a outros países produtores como Vietnã, Indonésia e Colômbia.
Reações da indústria e do setor cafeeiro

Declarações de executivos e especialistas
Giuseppe Lavazza, presidente do Grupo Lavazza — uma das marcas mais tradicionais de café da Europa — afirmou ao Financial Times que tarifas aplicadas entre EUA e países produtores, como Brasil e Vietnã, são especialmente problemáticas para a cadeia global.
“O problema não é ter tarifas entre América e Europa. O problema é ter tarifas entre EUA e os países onde o café é produzido”, declarou. Segundo ele, o impacto final será o encarecimento do café para o consumidor norte-americano.
Cecafé alerta para prejuízos bilaterais
Marcos Matos, diretor-executivo do Cecafé (Conselho dos Exportadores de Café do Brasil), também se pronunciou, alertando que o consumidor norte-americano será o mais prejudicado. “Temos a esperança de que o bom senso prevaleça. Sabemos que quem vai ser onerado é o consumidor dos Estados Unidos. E tudo que gera impacto sobre o consumo é ruim para o comércio e para a indústria”, afirmou.
Ele reforçou que, para cada dólar de café importado pelos EUA, são gerados US$ 43 na economia local em empregos, transporte, processamento e revenda — o que mostra como o setor cafeeiro tem peso estratégico.
Entenda por que o Brasil é tão importante para o café mundial
O Brasil responde por mais de um terço da produção global de café, especialmente da variedade arábica, considerada de maior qualidade e usada por grandes marcas, cafeterias gourmet e produtos premium. O país também tem papel central na precificação internacional da commodity.
O solo, o clima e a expertise agrícola fazem do Brasil uma potência incontestável na cadeia produtiva cafeeira. Cafés brasileiros abastecem desde as cafeterias de bairro nos EUA até marcas multinacionais como Starbucks, Nestlé e Dunkin’.
Histórico de oscilações nos preços do café
Altas recentes
Nos últimos anos, os preços do café já vinham apresentando volatilidade significativa. Isso se deveu a diversos fatores, incluindo:
- Quebras de safra no Brasil e no Vietnã;
- Mudanças climáticas severas, como geadas e secas prolongadas;
- Ação de fundos especulativos, que aumentaram sua presença no mercado futuro.
Em Londres, os futuros do robusta chegaram a quase US$ 5.700 por tonelada neste ano — um recorde histórico, muito acima da média usual de US$ 1.700. Já os grãos de arábica subiram cerca de 70% em 2024, alcançando US$ 4,20 por libra.
Esperança de estabilidade com boas colheitas
Apesar das pressões tarifárias e geopolíticas, nos últimos meses os preços começaram a recuar diante da expectativa de colheitas mais robustas, especialmente no Brasil. Porém, a notícia da tarifa pode reverter essa tendência, reabrindo o ciclo de alta e instabilidade.
Possíveis consequências da medida
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Para os consumidores dos EUA
Com a nova tarifa, o preço do café importado do Brasil poderá subir substancialmente, gerando aumento no valor final das bebidas à base de café em cafeterias e supermercados. Marcas que dependem fortemente de insumos brasileiros precisarão reavaliar seus custos ou buscar alternativas em mercados menos competitivos.
Para os produtores brasileiros
A tarifa imposta por Trump também preocupa o agronegócio nacional. Caso se concretize, a medida pode forçar o Brasil a redirecionar seus embarques para outros mercados, como Europa e China, com menores margens e logística mais complexa. Isso geraria instabilidade na renda dos produtores, cooperativas e exportadores.
Para a economia global
Como o café é uma commodity com forte peso na economia agrícola global, qualquer ruptura na sua cadeia de fornecimento pode causar reflexos nos mercados de transporte, seguros, câmbio e política comercial entre blocos econômicos.
A disputa política por trás do anúncio
Analistas apontam que o movimento de Trump tem motivações políticas claras. A crítica ao governo brasileiro e a defesa de Bolsonaro reforçam sua base conservadora, tanto interna quanto internacionalmente. A medida também reacende o discurso protecionista que marcou o primeiro mandato de Trump, quando tarifas foram usadas como arma contra a China, União Europeia e até o Canadá.
O que pode acontecer a seguir?

Negociações diplomáticas
É possível que haja pressão do setor cafeeiro dos EUA sobre o Congresso americano para barrar a medida, especialmente diante da perspectiva de encarecimento para o consumidor. Diplomatas brasileiros também podem recorrer à OMC (Organização Mundial do Comércio) caso considerem a tarifa uma violação de acordos.
Apostas em diversificação de mercados
O Brasil, por sua vez, pode acelerar acordos comerciais com outros países importadores, fortalecendo parcerias com Alemanha, Japão, Coreia do Sul e países árabes, que já figuram entre os principais compradores do café nacional.
Incerteza para o futuro
A confirmação da tarifa ou sua suspensão nas próximas semanas será decisiva para o setor. Em um cenário de aplicação efetiva, o Brasil deve rever toda sua estratégia de exportação cafeeira. Em caso de recuo por parte dos EUA, o mercado pode se estabilizar, mas a tensão permanecerá como fator de risco permanente nas negociações futuras.
