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Petróleo Brent salta 6% e chega a US$ 91 com escalada entre EUA e Irã

O preço do petróleo voltou a ganhar força no mercado internacional diante da escalada militar entre Estados Unidos e Irã e das incertezas sobre o funcionamento do Estreito de Hormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte mundial de energia. A pressão, que já havia levado o petróleo Brent a abrir a semana em […]

Avatar de Jessica Cassana Jessica Cassana · · 10 min de leitura
PETROLEO BRENT

O preço do petróleo voltou a ganhar força no mercado internacional diante da escalada militar entre Estados Unidos e Irã e das incertezas sobre o funcionamento do Estreito de Hormuz, uma das rotas mais importantes para o transporte mundial de energia.

A pressão, que já havia levado o petróleo Brent a abrir a semana em forte alta, continuou nos pregões seguintes. Nesta quinta-feira, 3 de setembro, o Brent chegou a superar US$ 97 durante as negociações, alcançando a maior cotação em cerca de seis semanas, antes de perder parte do avanço.

O mercado acompanha principalmente o risco de novas interrupções no transporte de petróleo pelo Oriente Médio. A preocupação aumentou depois que forças americanas voltaram a atacar posições iranianas e Teerã intensificou as restrições à passagem de embarcações pelo Estreito de Hormuz.

Ao mesmo tempo, investidores tentam calcular o efeito de um amplo acordo envolvendo Estados Unidos e Venezuela, que poderá aumentar a produção venezuelana nos próximos anos. O projeto, porém, dificilmente oferece uma resposta imediata para uma eventual redução da oferta no Golfo Pérsico.

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O principal fator por trás da valorização é novamente o Oriente Médio.

Os Estados Unidos retomaram ataques contra posições iranianas depois de um período de relativa redução das ações militares. Uma das operações atingiu lançadores de foguetes do Irã próximos ao Estreito de Hormuz.

A Associated Press informou que a ofensiva foi a primeira ação militar americana desse tipo em cerca de um mês. Segundo autoridades americanas, os alvos poderiam representar uma ameaça à navegação comercial na região.

A Guarda Revolucionária iraniana afirmou que houve mortos e feridos e prometeu reagir.

A retomada dos confrontos mudou rapidamente a percepção dos investidores. Antes da nova escalada, havia esperança de que avanços diplomáticos entre Washington e Teerã pudessem reduzir os riscos para o fornecimento mundial.

Com os ataques, esse cenário voltou a ser colocado em dúvida.

O Brent, referência internacional utilizada na formação dos preços do petróleo, chegou a avançar mais de US$ 4 por barril na terça-feira, 1º de setembro, fechando a US$ 94,65. Na quarta-feira, avançou novamente e terminou a US$ 95,63.

Nesta quinta-feira, a commodity chegou a alcançar aproximadamente US$ 97 durante o pregão, antes de recuar para US$ 95,52 no fechamento, mantendo-se em patamar elevado.

Estreito de Hormuz virou o centro das preocupações

Para entender a reação do preço do petróleo, é preciso observar a importância do Estreito de Hormuz.

A passagem marítima fica entre o Irã e Omã e conecta o Golfo Pérsico ao Golfo de Omã e ao Mar da Arábia. Países entre os maiores produtores de petróleo do mundo dependem dessa rota para levar suas cargas aos mercados internacionais.

Dados da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) mostram que aproximadamente 20,9 milhões de barris de petróleo e derivados por dia atravessaram Hormuz no primeiro semestre de 2025.

Esse volume correspondia a aproximadamente 20% do consumo mundial de líquidos de petróleo e a cerca de um quarto de todo o petróleo comercializado por transporte marítimo no planeta.

Por isso, qualquer ameaça à circulação na região provoca uma reação quase imediata nas cotações.

Poucas alternativas conseguem substituir Hormuz

Outro problema é que não existe capacidade suficiente para simplesmente redirecionar todo o petróleo caso Hormuz permaneça fechado ou com tráfego muito reduzido.

Oleodutos da Arábia Saudita e dos Emirados Árabes Unidos conseguem retirar parte da produção da região sem passar pelo estreito.

Entretanto, de acordo com a EIA, a capacidade combinada dessas rotas alternativas é de cerca de 4,7 milhões de barris por dia, muito inferior ao volume que normalmente circulava por Hormuz.

É essa diferença que ajuda a explicar o chamado “prêmio de risco” incorporado ao preço do petróleo sempre que aumenta a possibilidade de bloqueio da passagem.

Tráfego de petroleiros continua irregular

Os últimos dados de movimentação marítima reforçaram a preocupação dos investidores.

O fluxo de navios pelo Estreito de Hormuz tem apresentado oscilações expressivas desde o agravamento da guerra.

Na quarta-feira, informações citadas pela Reuters mostravam apenas quatro embarcações atravessando a passagem em determinado período, enquanto a média recente era de aproximadamente 13.

Essa irregularidade é particularmente importante porque não é necessário que Hormuz fique completamente fechado para causar impacto no mercado.

A simples percepção de maior risco pode levar empresas de transporte marítimo a evitar a região.

Também podem aumentar os custos de seguros, fretes e segurança dos navios. Na prática, transportar cada barril fica mais caro, o que contribui para pressionar os preços internacionais.

Irã usa Hormuz como instrumento de pressão

O governo iraniano continua condicionando uma normalização mais ampla da navegação ao comportamento dos Estados Unidos.

A Guarda Revolucionária sustenta que mantém controle sobre a passagem e tem utilizado restrições ao tráfego como uma das principais ferramentas de pressão durante o conflito.

Esse é um ponto delicado para o mercado.

Uma retomada consistente da circulação de navios poderia reduzir parte da pressão sobre o petróleo. Por outro lado, novos ataques americanos ou uma retaliação iraniana de maior escala podem provocar movimento no sentido contrário.

O resultado tem sido um mercado extremamente sensível às notícias militares e diplomáticas.

Uma declaração, ataque ou movimentação de navios pode alterar rapidamente as expectativas sobre a oferta mundial e, consequentemente, o preço do barril.

Acordo entre Estados Unidos e Venezuela pode aumentar a oferta

Enquanto o Oriente Médio pressiona os preços para cima, outra movimentação geopolítica pode aumentar a oferta global de petróleo no longo prazo.

Estados Unidos e Venezuela anunciaram um amplo acordo para desenvolvimento do setor petrolífero venezuelano.

A presidente interina venezuelana, Delcy Rodríguez, afirmou que o plano terá duração de 25 anos e prevê inicialmente o desenvolvimento de 17 campos considerados estratégicos.

A meta anunciada é levar a produção venezuelana para mais de 1,5 milhão de barris por dia, além de desenvolver outros oito blocos de exploração posteriormente.

Segundo números apresentados pelo governo venezuelano, a primeira fase do projeto envolve reservas com potencial superior a 65 bilhões de barris.

A estimativa de Caracas é de aproximadamente US$ 209 bilhões em receitas para o governo venezuelano, considerando um cenário em que o petróleo seja vendido a US$ 65 por barril.

Petróleo venezuelano consegue derrubar os preços rapidamente?

Apesar do tamanho do acordo, o efeito sobre o preço internacional não deve ser imediato.

A Venezuela possui enormes reservas petrolíferas, mas o setor sofreu durante anos com queda de investimentos, deterioração de infraestrutura e redução da produção.

Reconstruir campos, modernizar instalações, ampliar oleodutos e aumentar a capacidade de exportação exige investimentos elevados e tempo.

A produção venezuelana atualmente está em torno de 1,25 milhão de barris por dia, ainda muito abaixo dos aproximadamente 3 milhões de barris diários produzidos pelo país no fim da década de 1990.

Por isso, o mercado tende a enxergar o acordo como uma mudança importante para a oferta de médio e longo prazo, mas não como substituto imediato para uma eventual perda de milhões de barris provenientes do Golfo Pérsico.

Hormuz, portanto, continua sendo o fator de maior peso sobre as cotações no curto prazo.

Por que a alta do petróleo importa para o Brasil?

Mesmo sendo um grande produtor de petróleo, o Brasil não fica isolado das oscilações internacionais da commodity.

A primeira consequência pode aparecer nas ações de empresas ligadas ao setor, especialmente a Petrobras.

Quando o barril sobe, a receita esperada de produtores e exportadores de petróleo tende a aumentar, embora o desempenho das empresas também dependa de custos, câmbio, investimentos, política de preços e decisões corporativas.

O petróleo mais caro também pode favorecer a balança comercial brasileira por elevar o valor das exportações da commodity.

Por outro lado, uma alta prolongada gera riscos para inflação e atividade econômica.

Gasolina e diesel podem ficar mais caros?

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Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

Uma das principais dúvidas dos consumidores é se o petróleo próximo de US$ 100 significa aumento imediato da gasolina e do diesel no Brasil.

A resposta é: não necessariamente.

O preço do petróleo é apenas um dos componentes que influenciam os combustíveis.

Também entram nessa conta a cotação do dólar, preços praticados pelas refinarias, margens de distribuição e revenda, biocombustíveis adicionados à gasolina e ao diesel e tributos cobrados no país.

Por isso, uma valorização do petróleo durante poucos dias não significa automaticamente um reajuste nos postos.

Entretanto, se o barril permanecer em um patamar elevado durante um período mais longo, aumenta a pressão econômica sobre toda a cadeia.

Essa pressão pode ser especialmente relevante quando a alta internacional ocorre simultaneamente a uma valorização do dólar frente ao real.

Petróleo mais caro também pode aumentar a inflação

O impacto não se restringe aos postos de combustíveis.

O diesel é essencial para o transporte rodoviário brasileiro. Caminhões transportam alimentos, medicamentos, produtos industriais e praticamente todo tipo de mercadoria entre diferentes regiões do país.

Uma alta relevante dos custos de transporte pode acabar sendo repassada, pelo menos parcialmente, aos preços finais.

O petróleo também é matéria-prima de plásticos, produtos químicos, fertilizantes e diferentes insumos industriais.

Por isso, grandes choques na cotação podem gerar efeitos indiretos sobre a inflação.

Essa preocupação não é exclusiva do Brasil. A recente valorização do petróleo já voltou a chamar atenção dos mercados internacionais para os riscos inflacionários associados ao conflito no Oriente Médio.

Petróleo pode chegar a US$ 100?

Com o Brent já tendo alcançado a região dos US$ 97 nesta semana, uma possível chegada aos US$ 100 por barril voltou ao radar do mercado.

Mas não existe garantia de que isso acontecerá.

O comportamento das cotações dependerá principalmente do que ocorrer com a guerra entre Estados Unidos e Irã e com o tráfego pelo Estreito de Hormuz.

Uma escalada dos ataques, novas restrições a petroleiros ou uma queda adicional da oferta podem pressionar os valores para cima.

Já uma retomada das negociações diplomáticas e uma recuperação consistente do fluxo marítimo poderiam retirar parte do prêmio de risco atualmente embutido nas cotações.

Também entram nessa equação a produção da Opep+, os estoques americanos, as exportações do Iraque e da Rússia e a perspectiva de demanda das principais economias mundiais.

O que acompanhar agora?

O preço do petróleo deve continuar altamente sensível às notícias do Oriente Médio nos próximos dias.

O principal indicador será o tráfego pelo Estreito de Hormuz. Quanto mais próxima a circulação estiver de uma situação normal, menor tende a ser o temor de falta de oferta.

Novas ações militares, porém, podem produzir exatamente o efeito contrário.

O acordo entre Estados Unidos e Venezuela também merece atenção, principalmente pela possibilidade de recuperação da produção venezuelana ao longo dos próximos anos. Mas seu impacto é estrutural e não resolve, no curto prazo, o principal problema enfrentado atualmente pelo mercado.

Enquanto Hormuz continuar operando com restrições e o conflito entre Washington e Teerã permanecer sem uma solução clara, o risco geopolítico deve continuar exercendo forte influência sobre o preço do petróleo — e a possibilidade de o Brent voltar aos US$ 100 seguirá no radar dos investidores.

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