Os preços dos alimentos deram uma trégua inesperada ao bolso das famílias brasileiras em 2025, contrariando até mesmo os aumentos sazonais típicos do fim do ano. Tradicionalmente, os últimos meses concentram maior demanda no varejo e enfrentam impactos climáticos no campo, fatores que costumam pressionar os valores. Neste ano, no entanto, o cenário foi diferente e surpreendeu economistas, consumidores e o próprio mercado.
Alimentos vão ficar mais caros em 2026? Entenda o que dizem as previsões
Queda inesperada dos preços dos alimentos em 2025 trouxe alívio ao bolso. Especialistas alertam para possível alta em 2026.
A combinação de uma safra agrícola recorde no Brasil, boas colheitas em outros grandes países produtores e a desvalorização do dólar frente ao real criou um ambiente favorável para a redução dos preços de itens essenciais da cesta básica. O resultado foi um alívio inflacionário consistente, especialmente para a alimentação no domicílio.
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Produção agrícola em níveis históricos
O desempenho do setor agrícola foi decisivo para a desaceleração dos preços. O Brasil colheu volumes expressivos de grãos, hortifrutigranjeiros e outros alimentos básicos, aumentando a oferta interna. Ao mesmo tempo, produtores internacionais também registraram boas colheitas, o que reduziu a pressão sobre os preços globais.
Esse excesso de oferta ajudou a derrubar os valores pagos pelo consumidor final, inclusive em itens que costumam sofrer forte oscilação ao longo do ano.
Câmbio teve papel central no controle da inflação
Além da safra robusta, a desvalorização do dólar frente ao real teve papel determinante no comportamento dos preços. Segundo Claudia Moreno, economista do C6 Bank, a moeda americana acumulou queda de cerca de 10% ao longo de 2025, impactando diretamente os custos de produção e importação.
“A gente teve uma queda do dólar que foi significativa ao longo do ano. Isso trouxe um alívio muito grande à inflação”, afirmou a economista. Esse movimento favoreceu tanto os alimentos quanto os bens industriais, ampliando o efeito desinflacionário.
Ano eleitoral deve mudar o cenário em 2026
Insegurança fiscal e pressão cambial
Para 2026, especialistas avaliam que a conjuntura positiva dificilmente se repetirá. Um dos principais fatores de preocupação é o ambiente eleitoral no Brasil, que tende a gerar incertezas em relação à política fiscal e aos gastos públicos.
De acordo com André Braz, coordenador dos Índices de Preços do Instituto Brasileiro de Economia da Fundação Getulio Vargas (Ibre/FGV), anos eleitorais costumam pressionar o câmbio, dificultando uma valorização do real.
“Normalmente é um ano de maior incentivo ao gasto público, o que mantém o ruído fiscal e evita uma valorização cambial mais forte”, explicou Braz. Com o real mais fraco, as exportações se tornam mais atrativas, reduzindo a oferta interna e pressionando os preços.
Supersafra não garante preços mais baixos
Mesmo que o Brasil registre outra safra volumosa em 2026, isso não significa, necessariamente, queda nos preços ao consumidor. Segundo Braz, o câmbio desvalorizado pode estimular as exportações, impedindo que o excesso de produção se traduza em maior oferta doméstica.
“Nem sempre uma supersafra se materializa em oferta que abra espaço para novas quedas de preços aqui no Brasil”, afirmou o economista.
Dados confirmam queda expressiva em 2025
Sete meses consecutivos de recuo
Com a ajuda do dólar mais barato e da produção agrícola recorde, os preços dos alimentos para consumo em casa recuaram por sete meses consecutivos, entre junho e dezembro de 2025. Os dados são do IPCA-15, prévia da inflação oficial apurada pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
No acumulado do ano, a alimentação no domicílio subiu apenas 1,94%, um resultado considerado bastante moderado diante do histórico recente.
Quedas de dois dígitos em itens essenciais
Alguns alimentos registraram quedas expressivas em 2025, com recuos de dois dígitos, entre eles:
- Arroz: -26,04%
- Feijão preto: -31,82%
- Batata-inglesa: -27,70%
- Laranja-lima: -35,33%
- Limão: -29,64%
- Leite longa-vida: -10,42%
- Azeite de oliva: -20,90%
- Alho: -12,24%
Para Maria Andreia Parente Lameiras, pesquisadora do Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea), o câmbio teve impacto até maior que a própria safra.
“Mais do que safra, o câmbio ajuda muito a inflação de alimentos”, afirmou.
Cadeia produtiva também foi beneficiada
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Segundo Lameiras, o dólar mais fraco reduziu os custos de insumos agrícolas, como fertilizantes, além de baratear a aquisição de máquinas e equipamentos. Isso contribuiu para ganhos de produtividade e ajudou a reforçar a oferta.
Além disso, o câmbio menos favorável às exportações desestimulou a venda externa de produtos agrícolas, direcionando maior volume ao mercado interno.
Oferta interna ampliada pressiona preços para baixo
Com mais produção e menor incentivo à exportação, o excesso de alimentos permaneceu no mercado doméstico, gerando quedas expressivas de preços nos últimos meses do ano.
“Você está produzindo mais e não tem estímulo para exportar. Isso acaba pressionando os preços para baixo de forma impressionante”, explicou a pesquisadora do Ipea.
Expectativa é de alta dos alimentos em 2026
Revisão das projeções para 2025
O próprio Ipea foi surpreendido pelo comportamento dos preços. Em setembro, a projeção era de alta de 4,4% na alimentação no domicílio em 2025. Com a sequência de quedas, a estimativa foi revisada para 2,1%.
Carnes devem liderar a pressão inflacionária
Para 2026, a expectativa é de uma aceleração dos preços, com alta projetada de 4,2% nos alimentos consumidos em casa. O principal fator será o aumento das carnes, em razão do abate recente de fêmeas destinadas à reprodução, o que reduz a oferta futura.
Com as carnes mais caras, o consumo tende a migrar para outras proteínas, pressionando também seus preços.
Câmbio deixa de ajudar
Outro fator relevante é o câmbio. Diferentemente de 2025, a expectativa é de um dólar mais estável ou levemente depreciado, sem o efeito positivo observado neste ano. O Ipea projeta a moeda americana a R$ 5,40 ao fim de 2025 e em torno de R$ 5,35 ao final de 2026.
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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital
