Brasil pode criar reserva oficial de Bitcoin: projeto avança na Câmara com apoio de relator
Um movimento inédito no cenário financeiro e institucional brasileiro ganhou força nesta semana: o projeto de lei que propõe a criação de uma reserva de Bitcoin (RESBit) no Brasil avançou oficialmente na Câmara dos Deputados.
Com relatório favorável do deputado Luis Gastão (PSD-CE), a proposta recebeu sinal verde da Comissão de Desenvolvimento Econômico, abrindo caminho para uma possível adoção oficial de criptoativos como ativos estratégicos de reserva pelo Estado brasileiro.
Leia mais:
Sete motivos pelos quais o bitcoin pode proteger seu bolso contra a inflação
O que é o PL 4501?
De autoria do deputado Eros Biondini (PL-MG), o Projeto de Lei 4501 propõe a criação de uma reserva nacional de Bitcoin como mecanismo de diversificação das reservas internacionais do país.
Segundo o texto, o objetivo é mitigar riscos de dependência exclusiva de moedas fiduciárias — como dólar, euro ou iene — que estão sujeitas a oscilações geopolíticas, políticas monetárias de bancos centrais estrangeiros e instabilidades macroeconômicas.
O PL propõe que até 5% das reservas internacionais do Brasil possam ser convertidas e mantidas em Bitcoin, desde que o processo ocorra de forma gradual, segura e com supervisão institucional adequada.
RESBit: A proposta da Reserva Estratégica de Bitcoin
A RESBit, ou Reserva Estratégica de Bitcoin, é o nome dado à proposta de reserva institucional de criptoativos sob gestão oficial do Estado brasileiro.
Conforme descrito no projeto, essa reserva será integrada às reservas internacionais do país — atualmente compostas por ativos como títulos do Tesouro dos EUA, ouro e moedas estrangeiras — e terá um teto máximo de 5% do total das reservas.
Implementação gradual e com segurança
A aquisição de Bitcoins será realizada de forma planejada, com foco na estabilidade e na integridade do sistema financeiro nacional. A proposta obriga a utilização de carteiras frias (cold wallets), que armazenam os ativos fora da internet, reduzindo os riscos de ataques cibernéticos.
Além disso, a gestão da reserva será responsabilidade conjunta do Banco Central do Brasil e do Ministério da Fazenda, com supervisão e auditoria por órgãos de controle como o Tribunal de Contas da União (TCU) e a Controladoria-Geral da União (CGU).
Transparência e governança: pilares do projeto
Para garantir a transparência da RESBit, o projeto exige que relatórios detalhados sobre as operações, balanços e riscos sejam divulgados ao Congresso Nacional a cada seis meses. Esses documentos deverão ser públicos e incluir informações técnicas e financeiras sobre o desempenho da reserva em Bitcoin.
Comitê consultivo e tecnologia de ponta
Um comitê técnico consultivo será instituído para auxiliar na governança da RESBit. Esse grupo será formado por especialistas em economia digital, criptografia, segurança da informação e blockchain. O objetivo é garantir decisões técnicas de alto nível, com respaldo de conhecimento atualizado e multidisciplinar.
Além disso, o uso de blockchain e inteligência artificial para monitoramento das operações e análise de riscos é uma das exigências centrais do projeto, assegurando modernidade e rastreabilidade às ações governamentais nesse setor.
Educação, inovação e segurança: eixos complementares
O PL 4501 também propõe um conjunto de ações educacionais e de fomento à inovação tecnológica no Brasil. Dentre as iniciativas previstas estão:
- Programas de formação e capacitação em blockchain, criptografia e segurança digital para servidores públicos.
- Estímulo à criação de startups do setor cripto, com acesso a linhas de crédito, incubadoras e redes de mentoria.
- Desenvolvimento de infraestrutura tecnológica nacional, com investimentos em centros de dados, redes seguras e laboratórios de inovação.
Parcerias internacionais
A proposta menciona ainda a possibilidade de estabelecer parcerias com organismos internacionais, como o Banco Mundial, FMI, OCDE, entre outros, para intercâmbio de experiências e boas práticas em gestão de criptoativos e cibersegurança.
Por que o relator recomendou a aprovação?
O deputado Luis Gastão, responsável pelo relatório aprovado na Comissão de Desenvolvimento Econômico, destacou que a adoção de Bitcoin como parte das reservas nacionais representa uma estratégia moderna de gestão de ativos.
Segundo o relator, diversificar a composição das reservas permite maior resiliência a choques externos, especialmente em um cenário global de instabilidade financeira.
Além disso, Gastão defendeu que o Brasil não pode ignorar o avanço da economia digital e que ativos como o Bitcoin passaram a ocupar papel de destaque nas estratégias macroeconômicas de diversos países.
“A alocação controlada de uma fração das reservas internacionais em criptoativos representa uma inovação estratégica. Estamos diante de uma transformação que já ocorre globalmente, e o Brasil precisa estar na vanguarda, não na retaguarda”, afirmou o relator durante a leitura de seu parecer.
Caminho legislativo: o que falta para o projeto virar lei?
Apesar do parecer positivo da Comissão de Desenvolvimento Econômico, o PL 4501 ainda precisa ser analisado por outras três comissões permanentes da Câmara dos Deputados:
- Comissão de Ciência, Tecnologia e Inovação
- Comissão de Constituição e Justiça e de Cidadania (CCJC)
- Comissão de Finanças e Tributação
Caso alguma dessas comissões emita parecer contrário ou surjam divergências entre os pareceres, o projeto poderá ser levado ao plenário da Câmara para votação por todos os deputados, mediante requerimento com o apoio mínimo de 52 parlamentares.
Tramitação no Senado Federal
Se for aprovado na Câmara, o projeto segue para o Senado, onde passará por processo semelhante: análise por comissões, elaboração de pareceres e eventual votação em plenário.
Caso os senadores proponham alterações no texto, ele retorna à Câmara para nova apreciação. Se não houver modificações, o projeto segue para a última fase: sanção presidencial.
Sanção ou veto presidencial
O Presidente da República poderá então sancionar o projeto, transformando-o oficialmente em lei, ou vetá-lo, parcial ou integralmente. Se vetado, o Congresso poderá derrubar o veto com maioria absoluta.
Repercussões e debate no setor cripto
Especialistas e entusiastas do setor de criptoativos comemoraram a aprovação do relatório como um marco histórico. A proposta, que até recentemente parecia improvável no cenário político brasileiro, agora abre espaço para uma discussão mais madura sobre o papel dos criptoativos na economia do país.
Críticas e questionamentos
Apesar do entusiasmo, críticos do projeto argumentam que a volatilidade do Bitcoin pode representar riscos para a estabilidade financeira nacional, especialmente em momentos de crise.
Alguns economistas também questionam se a adoção de criptoativos por governos nacionais não representa uma antecipação precipitada de tendências ainda não consolidadas.
Comparações internacionais
Vários países já estudam ou implementaram reservas em Bitcoin de forma direta ou indireta. El Salvador é o exemplo mais conhecido, tendo adotado o Bitcoin como moeda legal em 2021. Outros países, como a Suíça e Singapura, estudam formas de integrar criptoativos à estratégia nacional de reservas ou regulamentação de ativos digitais.
Considerações finais
O avanço do Projeto de Lei 4501 na Câmara dos Deputados sinaliza um novo momento na relação entre o Estado brasileiro e a economia digital. Ao propor uma reserva institucional em Bitcoin, o Brasil entra no radar internacional como um dos primeiros grandes países a considerar o criptoativo não apenas como investimento privado, mas como ativo estratégico soberano.
Ainda há um longo caminho legislativo pela frente, com possíveis embates em comissões e no plenário, mas a simples tramitação da proposta já representa uma ruptura de paradigma. A criação da RESBit poderá posicionar o Brasil como referência na adoção institucional de ativos digitais, com impactos não apenas econômicos, mas também sociais e tecnológicos.
Acompanhar os desdobramentos desse projeto é essencial para entender os rumos da política econômica e tecnológica brasileira nos próximos anos.