BB registra prejuízo de quase r$ 1 bilhão no 1t25 devido a mudanças nas provisões do bc
A entrada em vigor da Resolução 4.966 do Banco Central, a partir de janeiro de 2025, marcou uma mudança significativa na forma como os bancos brasileiros devem calcular e provisionar perdas com crédito.
Inspirada no padrão internacional IFRS 9, a nova norma exige um modelo mais preditivo, o que alterou profundamente a contabilidade das instituições financeiras e afetou diretamente seus resultados.
O caso mais emblemático dessa mudança foi o do Banco do Brasil (BBAS3), que viu seu lucro cair significativamente no primeiro trimestre de 2025, perdendo quase R$ 1 bilhão em resultado líquido apenas com provisões.
A reação do mercado foi imediata: as ações da estatal despencaram mais de 10% na B3, e o guidance anual foi colocado em revisão.
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O que é a resolução 4.966?
A resolução 4.966 é uma norma do Banco Central que impõe novas regras contábeis para o registro de perdas esperadas com crédito. Ela substitui o modelo antigo, baseado em perdas já incorridas, por um modelo prospectivo, que considera projeções de inadimplência mesmo antes de haver atraso.
Objetivo da nova regra
A medida visa aumentar a resiliência do sistema financeiro, garantindo que os bancos estejam preparados para perdas futuras, especialmente em cenários macroeconômicos adversos. Ela aproxima o Brasil de práticas internacionais adotadas após a crise de 2008, como a IFRS 9.
Principais mudanças trazidas pela resolução
De provisão reativa para previsão de perdas
Antes:
Provisionamento apenas após evidência de inadimplência.
Agora:
Provisionamento com base em modelos estatísticos e análise de risco futuro, mesmo sem atraso do cliente.
Classificação dos créditos em estágios
- Estágio 1: Clientes com até 30 dias de atraso ou risco estável. Provisão baseada nas perdas esperadas em 12 meses.
- Estágio 2: Atrasos entre 31 e 90 dias ou aumento de risco. Provisão para todo o prazo do crédito.
- Estágio 3: Mais de 90 dias de atraso ou sem expectativa de pagamento. Provisão de 100% sobre a perda esperada.
Segmentação das carteiras
As carteiras foram separadas em cinco grupos (C1 a C5), conforme o tipo e a qualidade das garantias:
- C1: Créditos com garantias fortes, como imóveis ou garantias do governo.
- C2 e C3: Garantias moderadas, como hipotecas e penhor.
- C4 e C5: Créditos sem garantias, como crédito pessoal ou rural, exigindo provisões maiores.
Por que o Banco do Brasil foi o mais afetado?
O impacto desproporcional sofrido pelo BBAS3 tem relação direta com a composição de sua carteira de crédito, fortemente exposta ao agronegócio. O setor, embora estratégico, é volátil e altamente dependente de fatores externos, como clima e preços de commodities.
Agronegócio: um ponto sensível
A carteira agrícola do Banco do Brasil representa quase R$ 400 bilhões. Pequenos e médios produtores enfrentaram adversidades recentes, como clima desfavorável, aumento de custos e queda na produtividade, o que elevou os riscos de inadimplência.
Recuperações judiciais em alta
Outro fator de impacto foi o aumento de pedidos de recuperação judicial (RJ) no setor agroindustrial. Mesmo sem atrasos formais, esses pedidos obrigaram o banco a reclassificar operações diretamente ao estágio 3, com provisões pesadas e imediatas.
Segundo o próprio BB, 38,5% das operações em estágio 3 estavam adimplentes, mas foram classificadas como problemáticas apenas pelo pedido de RJ, o que evidencia o rigor da nova norma.
Comparativo com outros grandes bancos
Itaú, Bradesco e Santander
Bancos como Itaú (ITUB4), Bradesco (BBDC4) e Santander (SANB11) sofreram menos impacto por terem carteiras mais diversificadas e com menos exposição ao crédito agro. Além disso, essas instituições já vinham se preparando com modelos de previsão mais robustos.
O caso particular do BB
Com foco em linhas de crédito rural, muitas das quais são pagas em parcelas únicas no fim do contrato (modalidade bullet), o BB sentiu o peso da nova contabilidade.
Essas operações, mesmo sem inadimplência, exigem provisão integral caso o risco aumente ou haja qualquer sinal de problema — como é o caso de uma recuperação judicial.
A resposta do Banco do Brasil
Diante do impacto da resolução 4.966, o BB iniciou negociações com o Banco Central para tratar de um possível regime diferenciado para o setor agro.
Proposta de ajuste regulatório
A ideia é criar um modelo que considere as especificidades do calendário agrícola, com pagamentos sazonais e riscos muito associados à natureza. A proposta está sendo debatida junto à Febraban e com outras instituições com forte presença no setor.
O vice-presidente do BB, Felipe Prince, defendeu o pleito:
“Devido à dinâmica própria do agronegócio, discutimos com o regulador formas de mensurar melhor os impactos financeiros decorrentes da inadimplência.”
Expectativas para os próximos balanços
Especialistas apontam que o segundo trimestre de 2025 será fundamental para avaliar como os bancos estão internalizando a resolução. Até o momento, o impacto foi sentido mais como um ajuste contábil do que uma deterioração real de crédito.
O que observar nos próximos resultados?
- Movimentações entre os estágios 1, 2 e 3
- Nível de provisões em relação à inadimplência real
- Reclassificações positivas de carteiras (volta aos estágios mais leves)
- Abertura por segmento: agro, varejo, crédito corporativo
Segundo Rodrigo Bauce, da KPMG,
“O primeiro trimestre foi um teste. Agora os bancos terão tempo para calibrar seus modelos. O segundo balanço será o divisor de águas.”
Impacto nas ações do BBAS3
A surpresa negativa no balanço do 1T25 afetou diretamente a cotação das ações do Banco do Brasil, que caíram mais de 10% após a divulgação. Isso também influenciou os papéis de outros bancos, embora com menor intensidade.
Reações do mercado
Analistas de grandes corretoras, como BTG Pactual e XP, passaram a revisar suas projeções para o banco. Apesar disso, muitos continuam recomendando manutenção ou compra, sob o argumento de que o impacto é contábil e pode ser revertido com ajustes futuros.
Conclusão: um novo paradigma para os bancos
A resolução 4.966 representa uma mudança de paradigma na gestão de risco de crédito no Brasil. Exige dos bancos mais sofisticação nos modelos preditivos e maior antecipação de riscos, o que tende a tornar os balanços mais realistas e prudentes.
No curto prazo, o ajuste é duro — como mostra o caso do Banco do Brasil. Mas no longo prazo, a expectativa é de um sistema financeiro mais robusto, preparado para choques e transparente para investidores e reguladores.
O que investidores devem fazer?
- Acompanhar a evolução das provisões
- Observar como cada banco lida com as exigências da norma
- Monitorar carteiras expostas a setores sensíveis, como agro e varejo
- Focar no guidance para o 2T25, que será mais esclarecedor sobre o futuro
A norma 4.966 chegou para ficar — e os bancos precisarão se adaptar ou enfrentar oscilações ainda mais intensas em seus resultados.
Entrevista concedida e publicada pelo portal Seu Dinheiro.