Durante sua participação no 18º Congresso de Meios Eletrônicos de Pagamento, realizado em São Paulo, o economista-chefe do Itaú Unibanco, Mario Mesquita, lançou um alerta importante ao governo e ao mercado: a retomada do teto de gastos será inevitável no próximo mandato presidencial. Segundo ele, o atual arcabouço fiscal não é suficiente para estabilizar a dívida pública, e a política econômica precisa de ajustes profundos para garantir a saúde fiscal do país.
Itaú projeta volta do teto de gastos e aponta desafios fiscais para o governo Lula
Mario Mesquita, economista-chefe do Itaú, defende a retomada do teto de gastos no próximo mandato presidencial e alerta para riscos fiscais.
A fala de Mesquita ocorre em um contexto de pressões crescentes sobre as contas públicas, expectativa de desaceleração da economia e instabilidade política no Congresso. Com projeções atualizadas para o Produto Interno Bruto (PIB) e alertas sobre os riscos fiscais, o economista também abordou temas sensíveis, como a popularidade do presidente Lula, o impacto de medidas como o consignado privado e a possível trajetória do dólar nos próximos meses.
Leia mais:
Salário mínimo e teto de gastos: saiba como os reajustes podem ser limitados

Retorno ao teto de gastos: inevitável para a estabilidade fiscal
Críticas ao atual arcabouço fiscal
Mario Mesquita foi enfático ao afirmar que o atual modelo fiscal adotado pelo governo federal — o chamado “arcabouço fiscal” — tem limitações sérias. Na visão dele, manter esse modelo pode impedir que a dívida pública brasileira seja estabilizada como proporção do PIB, um dos principais indicadores de solvência e credibilidade do país.
O economista defende que a política fiscal deve ter como objetivo reduzir a dívida bruta para cerca de 60% do PIB, aproximando o Brasil de padrões observados em economias com grau de investimento. Hoje, o Brasil opera com uma dívida próxima ou acima de 75% do PIB, um patamar considerado arriscado em tempos de juros altos.
Teto de gastos como ancoragem fiscal
Criado em 2016, o teto de gastos limitava o crescimento das despesas públicas à inflação do ano anterior, sendo considerado um dos pilares de responsabilidade fiscal. O mecanismo, no entanto, foi revogado durante o governo Lula para dar lugar ao novo arcabouço, mais flexível e com metas fiscais ajustáveis.
Para Mesquita, esse movimento pode ter sido necessário do ponto de vista político, mas a falta de uma âncora fiscal clara compromete a previsibilidade e a confiança dos agentes econômicos. Daí a previsão de que, cedo ou tarde, o teto terá que ser reintroduzido ou substituído por algo igualmente rígido.
Projeções do Itaú para o PIB em 2025 e 2026
Durante sua apresentação, Mesquita também compartilhou as projeções do Itaú para o crescimento econômico do Brasil nos próximos dois anos:
- PIB de 2025: crescimento de 2,2%, com viés de alta.
- PIB de 2026: projeção mais cautelosa, com alta estimada em 1,5%.
Segundo ele, o crescimento mais modesto esperado para 2026 pode ser amenizado por uma recuperação mais forte do setor agropecuário, o que vem se consolidando como um vetor anticíclico da economia brasileira.
Além disso, Mesquita destacou o impacto positivo esperado do novo modelo de crédito consignado privado, que poderá adicionar até 0,6 ponto percentual ao PIB no próximo ano, efeito semelhante ao observado em 2003, quando medidas de ampliação do crédito também impulsionaram o consumo.
Popularidade de Lula e riscos políticos

Aprovação presidencial como fator de reeleição
O economista também analisou a situação política do governo Lula, destacando a baixa popularidade como obstáculo para uma possível reeleição em 2026. Segundo Mesquita, um índice mínimo de 40% de aprovação é necessário para viabilizar a reeleição de um presidente, com base em experiências passadas no Brasil.
Ele mencionou os casos de Dilma Rousseff e Jair Bolsonaro, ambos reeleitos com índices próximos desse limite em seus primeiros mandatos, mas que enfrentaram forte desgaste ao final dos ciclos.
Com índices de aprovação abaixo dos 40%, Lula corre o risco de não obter apoio suficiente nas urnas, principalmente diante do cenário fiscal desafiador e da falta de governabilidade no Congresso.
Fragilidade do governo no Congresso
Outro ponto de preocupação é a fragilidade da articulação política do Planalto, refletida na dificuldade de atrair nomes do Centrão para cargos de ministério. Mesquita vê esse fator como um entrave significativo à aprovação de medidas impopulares, porém necessárias, como:
- Tributação de lucros e dividendos
- Ampliação da faixa de isenção do Imposto de Renda para quem ganha até R$ 5 mil mensais
- Reformas estruturais nas despesas obrigatórias
Sem uma base sólida no Legislativo, o governo Lula corre o risco de ficar paralisado diante da necessidade de ajustes profundos na política fiscal.
Mercado cambial e cenário internacional
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
Tendência de enfraquecimento do dólar
Questionado sobre o comportamento do câmbio, Mesquita afirmou que há espaço para um enfraquecimento do dólar frente ao real. Contudo, ele pondera que o diferencial de juros entre Brasil e Estados Unidos ainda favorece o fortalecimento do dólar no curto prazo.
No médio prazo, o real pode se beneficiar de fatores como:
- Entrada de capital estrangeiro com crescimento moderado
- Redução da taxa Selic no Brasil
- Ajustes na política monetária americana
Impactos globais e os EUA de Trump
Por fim, Mesquita abordou a conjuntura econômica internacional, com destaque para os Estados Unidos. Na visão do economista, o país está passando por um “choque de laboratório” herdado das políticas econômicas adotadas durante o governo Trump. Segundo ele, as intervenções fiscais e comerciais promovidas pelo ex-presidente americano ainda repercutem no comportamento da inflação, dos juros e da balança comercial dos EUA.
Esse ambiente de incerteza pode impactar diretamente economias emergentes como o Brasil, exigindo ainda mais cautela na formulação de políticas fiscais e monetárias.
Análise técnica: o que está em jogo?

Sustentabilidade da dívida
A dívida pública brasileira é hoje o principal ponto de atenção para investidores e agências de classificação de risco. Manter essa dívida em trajetória crescente, mesmo que gradual, aumenta o custo do crédito, desvaloriza o real e pressiona a inflação.
Crescimento com responsabilidade fiscal
Mesquita defende que é possível conciliar crescimento com responsabilidade fiscal, desde que o governo adote medidas de corte de gastos, revisão de subsídios e maior eficiência administrativa. O desafio, segundo ele, é fazer isso com legitimidade política e apoio parlamentar.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
