Santa Catarina já monitora transações de criptomoedas para combater fraudes, confirma delegado
Durante o 1º Congresso Internacional do Procon SC, em Florianópolis, o delegado da Polícia Civil de Santa Catarina, Ulisses Gabriel, revelou que a corporação já investe em sistemas avançados de rastreamento de criptomoedas.
Esse avanço, segundo ele, faz parte de uma estratégia integrada para combater crimes financeiros e golpes digitais no estado.
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Ciberlab e rastreamento: a nova frente de combate ao crime
Em parceria com o Ministério da Justiça (Ciberlab/MJ) e o Senasp, a PCSC criou um núcleo especializado em fraude financeira e monitoramento de redes virtuais, batizado informalmente de “Ciberlab”.
Esse setor foi instituído para identificar, investigar e desarticular crimes cometidos por meio da internet, desde extorsão até lavagem de dinheiro com criptomoedas.
Softwares poderosos para rastrear transações
Em declarações ao Procon SC, Ulisss Gabriel destacou:
“Investimos em softwares de alto desempenho para buscar informações e rastrear criptomoedas, já que grande parte dos criminosos faz a conversão para esconder ativos da organização criminosa.”
Esse tipo de tecnologia permite identificar a origem, caminho e destino de valores em criptomoedas — ações essenciais para desmantelar estruturas financeiras ilícitas.
Phishing e sextorsion: foco na prevenção
O delegado destacou que a Polícia Civil elaborou uma cartilha pública — destinada ao Procon SC e à população em geral — explicando os principais tipos de golpe cibernético:
- Phishing: envio de e-mails ou mensagens falsas para capturar dados sigilosos.
- Sextorsion: extorsão por ameaça de divulgação de conteúdo íntimo.
- Malwares e capturas automatizadas de dados.
A cartilha contém definições no glossário, orientando sobre o significado de “Bitcoin”, “blockchain” e outras expressões técnicas.
Criptomoedas no centro das pirâmides financeiras
No material, a PCSC alerta:
“Vários produtos e investimentos podem ser usados como pano de fundo para golpes, como criptomoedas, franquias, imóveis etc.”
A orientação inclui recomendações práticas: pesquisar no Reclame Aqui, consultar o site da CVM e analisar a reputação da empresa antes de aportar.
Casos recentes em Santa Catarina: operações que usaram criptomoni- rastreamento
Operação Cripto Farsa
Em agosto de 2024, a PCSC deflagrou a Operação Cripto Farsa, investigando um esquema que lesou cerca de R$ 90 mil de uma idosa em Lages. A ação, conduzida em parceria com delegacias de outros estados, resultou em oito mandados de busca e apreensão e revelou movimentações superiores a R$ 900 milhões por meio de criptomoedas.
Operação Lavagem Digital
Em março de 2025, a “Lavagem Digital” expôs um esquema que movia R$ 55 milhões em Bitcoin e outras criptomoedas, envolvendo fraude tipo “bilhete premiado”. A Polícia Civil realizou prisões e apreendeu dispositivos eletrônicos e carteiras frias.
Operação Wallet contra tráfico financeiro
Em 2023, a Operação Wallet resultou no bloqueio de 16 carteiras de criptomoedas, 32 mandados de busca e apreensão, 17 prisões e apreensão de veículos, destacando como o tráfico converte lucros ilícitos em ativos digitais.
Operação BitTrack
Na Operação BitTrack, realizada em junho de 2025, a polícia combateu fraude bancária com criptomoedas envolvendo contas falsas e rastreamento digital — cobrindo 13 estados brasileiros.
Operação Ghosthunters
Lançada em abril de 2025, a segunda fase da Ghosthunters visou uma fintech em Florianópolis, cujo sistema foi violado por hackers que movimentaram R$ 6 milhões, parte convertida em criptoativos.
Estrutura ampliada: investimento em inteligência e pessoal
O delegado Ulisses Gabriel destacou que o número de ocorrências cresceu de 28 mil em 2019 para 165 mil em 2024, incluindo golpes, extorsões e cyberbullying. Esse aumento pressionou a PCSC a reorganizar sua atuação em áreas como Joinville, Florianópolis e Blumenau.
Atualmente, seis delegacias especializadas em fraudes digitais operam nas principais cidades catarinenses, com unidades menores em cidades de médio porte. A meta é integrar atuação regional e centralizar investigações no Ciberlab.
Parcerias fundamentais: união entre Procon, polícia e MP
Chapecó: criptomoedas no radar do Procon
Recentemente, o Procon de Chapecó, em parceria com o Ministério Público, iniciou apurações sobre uma empresa suspeita de atuar com criptomoedas no município. Agora, com os novos softwares, a PCSC pode oferecer apoio técnico para futuras investigações.
Cooperação federativa
As operações mencionadas envolveram colaboração entre PCSC, Ministério da Justiça, Senasp, delegacias especializadas e forças de segurança de outros estados — um esforço integrado para monitorar redes sociais, carteiras blockchain e transações criminais .
Desafios operacionais e éticos no uso de criptotecnologia
Sistemas de rastreamento de criptomoedas demandam investimentos significativos em softwares especializados e treinamento contínuo de agentes. A curva de aprendizado inclui análise de blockchain, desanonimização de carteiras e cooperação internacional.
Limites legais e proteção de dados
A coleta de informações sensíveis impõe desafios jurídicos. A polícia deve respeitar decisões judiciais, leis de proteção de dados e garantias constitucionais, evitando investidas que possam gerar nulidade das provas.
Educação para prevenção
Mesmo com avanços tecnológicos, a prevenção passa por educação e conscientização do público. Por isso, a cartilha do Procon SC visa alertar e orientar potenciais vítimas antes que elas invistam em esquemas fraudulentos.
Análise final: Santa Catarina como referência nacional
Santa Catarina desponta como estado pioneiro no uso intensivo de rastreamento de criptomoedas e monitoramento de crimes digitais. O Ciberlab atua com investigação especializada, prevenção e cooperação interinstitucional.
As criptomoedas oferecem vantagens para criminosos — como anonimato e liquidez — mas, numa resposta proporcional, a polícia está investindo na contraofensiva digital. Esse movimento demonstra maturidade institucional na era cibernética.
Limites e próximos passos
O sucesso desta iniciativa passa por:
- Expansão do investimento em tecnologia e pessoal;
- Formação de profissionais em forense digital e legislação;
- Coordenação entre SC e outras unidades federativas;
- Ampliação da cartilha educacional ao público.
Conclusão: Protagonismo no enfrentamento ao crime digital
Com a implantação de ferramentas para rastreamento de criptomoedas, criação da cartilha e intensificação de operações, Santa Catarina avança como referência no combate aos crimes digitais.
O delegado Ulisses Gabriel reforça que, na era do dinheiro digital, o mundo do crime também mudou — e a polícia está determinada a acompanhá-lo.
O caminho aponta claro: tecnologia + legislação + educação = segurança eficaz. Resta observar se outros estados seguirão essa trilha — mas, por agora, Santa Catarina mostra que está pronta para enfrentar os desafios da justiça na era digital.