Recorde? Taxa média do governo Lula está entre as mais altas do século
A taxa básica de juros do Brasil, a Selic, voltou a ganhar destaque no debate econômico e político nacional. Dados apontam que o terceiro mandato do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) deverá registrar uma média da Selic de 12,25% ao ano, o segundo maior patamar deste século, atrás apenas de seu primeiro governo (2003–2006), que teve média de 18,3%.
Essa trajetória confirma que a política monetária sob Lula permanece em modo restritivo, com efeitos diretos sobre a inflação, o consumo e o cenário eleitoral que se aproxima em 2026.
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Comparativo histórico: juros sob Lula e outros presidentes
Desde a adoção do regime de metas para a inflação, a Selic passou a ser o principal instrumento do Banco Central para conter pressões inflacionárias. Quando comparados os últimos mandatos presidenciais, os dados da MoneYou revelam:
- Lula 1 (2003–2006): Selic média de 18,3%
- Lula 2 (2007–2010): Selic média de 11,8%
- Dilma Rousseff (2011–2016): Selic média de 10,5%
- Michel Temer (2016–2018): Selic média de 8,0%
- Jair Bolsonaro (2019–2022): Selic média de 6,9%, com mínima histórica de 2,0% durante a pandemia
- Lula 3 (2023–2026, estimado): Selic média de 12,25%
A trajetória dos juros sob Lula volta a apresentar viés de alta moderada, após um ciclo de afrouxamento agressivo no governo anterior, sobretudo em 2020, durante a crise sanitária.
Juros reais sobem: maior nível desde 2003
Além da taxa nominal, a Selic real — ou seja, descontada da inflação — também deve registrar o maior nível em mais de uma década. Segundo a MoneYou, a média de juros reais no atual governo será de 7,65% ao ano, superando os 5,5% de Bolsonaro e se aproximando dos 11,2% do primeiro mandato de Lula.
Entendendo os juros reais
Os juros reais medem o grau de restrição da política monetária. Quanto mais altos, maior o incentivo à poupança e menor ao consumo e crédito. São determinantes para avaliar se a Selic está de fato ajudando a conter a inflação ou se está apenas acompanhando a elevação dos preços.
Expectativa para as eleições de 2026: Selic de 13,00% em setembro
De acordo com a mediana das projeções do mercado financeiro, a taxa Selic deve ser elevada a 13,00% ao ano em setembro de 2026, mês imediatamente anterior ao primeiro turno das eleições presidenciais. Se isso se confirmar, será o quarto maior patamar em meses eleitorais no século XXI.
Selic em eleições anteriores
- 2002: 18,00%
- 2006: 14,25%
- 2022: 13,75%
- 2026 (projeção): 13,00%
Esse cenário reforça o impacto da política monetária sobre o calendário político, pois decisões do Copom (Comitê de Política Monetária) realizadas até setembro tendem a afetar diretamente a percepção dos eleitores quanto à economia.
Horizonte relevante: aumento gradual desde 2025
O horizonte relevante da política monetária, ou seja, o período em que as decisões de hoje afetam a inflação futura (cerca de 18 meses), contempla o ciclo entre janeiro de 2025 e setembro de 2026.
Durante esse período, a Selic deverá passar de 12,25% para 13,00%, um aumento acumulado de 0,75 ponto percentual. Embora inferior aos ciclos anteriores, trata-se de um movimento contracíclico para um país que tenta recuperar o crescimento sustentável.
Aperto monetário nas eleições anteriores
- 2022: +11,75 p.p. (de 2,00% para 13,75%)
- 2014: +3,75 p.p.
- 2002: +2,25 p.p.
- 2026 (estimado): +0,75 p.p.
Obstrução nos canais de transmissão da política monetária
O presidente do Banco Central, Gabriel Galípolo, afirmou em audiência pública na Câmara dos Deputados no dia 9 de julho de 2025 que há uma “obstrução” nos canais de política monetária, ou seja, os efeitos do aumento da Selic não estão chegando com a intensidade esperada à economia real.
“Há subsídios cruzados que distorcem e retiram potência da Selic”, explicou Galípolo.
Entre os principais fatores estão:
- Créditos subsidiados (como o Pronampe e o Fies)
- Programas de refinanciamento de dívidas com juros abaixo do mercado
- Indexação de contratos a taxas fixas, que atrasam o repasse da Selic ao consumidor
Jason Vieira: “Canal de transmissão está entupido”
O economista Jason Vieira, da MoneYou, corrobora a análise de Galípolo ao afirmar que o “canal de transmissão da política monetária está entupido”, o que obriga o Banco Central a elevar os juros mais do que o necessário para obter os mesmos efeitos de contenção da inflação.
Implicações dessa limitação
- A política monetária se torna menos eficiente;
- A economia precisa de juros mais altos por mais tempo;
- O controle da inflação depende mais da credibilidade fiscal e das reformas estruturais.
Incertezas fiscais aumentam pressão sobre os juros
Outro ponto crítico apontado pelo mercado é o desequilíbrio fiscal. A ausência de medidas estruturais para controlar os gastos públicos contamina as expectativas de inflação futura e, por consequência, exige juros elevados para manter a credibilidade da política monetária.
Segundo Vieira:
“As expectativas estão contaminadas pela ausência de reformas. A Selic precisa ficar alta porque a política fiscal não dá segurança ao mercado.”
Selic alta pode impactar eleições, mas não define resultados
Historicamente, uma taxa de juros elevada tem efeito negativo sobre o consumo, o crédito e a aprovação popular de governos. No entanto, Vieira lembra que a Selic não foi o fator decisivo para a derrota de Bolsonaro em 2022.
“Não é bom, politicamente, ter juros altos, mas também não é necessariamente um fator determinante. Há outros elementos, como inflação, emprego e renda real, que pesam mais no bolso do eleitor.”
Perspectivas para o consumidor
1. Crédito mais caro
Com a Selic em dois dígitos, linhas de crédito rotativo, pessoal e financiamento imobiliário permanecem caras. A recomendação é buscar alternativas de renda fixa ou quitar dívidas com juros elevados.
2. Investimentos em alta
A Selic elevada beneficia quem investe em:
- Tesouro Selic
- CDBs e LCIs pós-fixados
- Fundos de renda fixa conservadora
3. Inflação sob controle, mas com risco fiscal
A projeção da MoneYou aponta inflação acumulada em 12 meses de 4,9% até o fim do governo Lula, número abaixo dos 5,5% registrados sob Bolsonaro, mas ainda acima do centro da meta.
Imagem: Agência Brasil