O Banco Central poderá encontrar espaço para acelerar o ritmo de redução da taxa Selic a partir de dezembro, caso o cenário econômico após as eleições apresente sinais favoráveis. A avaliação é da Quantitas e foi apresentada pelo economista-chefe da instituição, Ivo Chermont, após a comunicação mais recente do Comitê de Política Monetária (Copom).
A leitura não representa uma decisão antecipada do Banco Central. O ritmo dos próximos cortes dependerá dos dados de inflação, atividade econômica, expectativas, câmbio e condições fiscais, fatores que fazem parte da análise do Copom em cada reunião.
Mesmo assim, a avaliação chama atenção porque identifica mudanças na comunicação recente do Banco Central que, na interpretação da Quantitas, indicariam uma postura um pouco menos rígida em relação aos próximos passos da política monetária.
O ponto central da análise está no calendário. Enquanto a reunião de novembro ocorrerá pouco depois do primeiro turno das eleições, dezembro permitirá que o mercado e o próprio Banco Central tenham mais informações sobre os rumos da política econômica do próximo governo.
Leia mais:
Dólar fecha a R$ 5,10 após cair 0,72% com mercado atento ao cenário eleitoral
O que mudou na comunicação do Banco Central

Segundo Ivo Chermont, as alterações feitas pelo Copom no comunicado mais recente foram pequenas, mas apresentaram uma característica em comum: apontaram para uma comunicação considerada mais suave.
Um dos pontos destacados pelo economista foi o reconhecimento de que a atividade econômica brasileira está desacelerando. A percepção, segundo a análise da Quantitas, é de que essa perda de ritmo ocorre de maneira disseminada entre os diferentes setores, embora com velocidades distintas.
Esse fator é relevante porque uma atividade econômica menos aquecida tende a reduzir algumas pressões sobre preços. Quando esse movimento ocorre simultaneamente a uma melhora das expectativas de inflação, pode surgir um ambiente mais favorável para uma política monetária menos restritiva.
Ainda assim, isso não significa que o Banco Central tenha sinalizado oficialmente uma aceleração dos cortes.
O próprio funcionamento do Copom exige que cada decisão seja tomada a partir da avaliação do cenário econômico e dos riscos associados. O Comitê se reúne periodicamente e utiliza informações sobre inflação, atividade, condições financeiras e cenário internacional para definir a taxa básica.
Por que dezembro ganhou importância nas projeções
A diferença entre novembro e dezembro está principalmente na quantidade de informações que estará disponível para os integrantes do Copom.
As eleições brasileiras estão previstas para 25 de outubro. A reunião de novembro acontecerá pouco tempo depois desse processo, o que pode limitar a capacidade de observar os efeitos das novas expectativas sobre política fiscal, câmbio e inflação.
Dezembro, por outro lado, permitirá um intervalo maior para que os mercados avaliem as primeiras sinalizações do governo eleito.
É justamente esse período adicional que aparece como um dos principais argumentos da análise da Quantitas.
Na avaliação de Chermont, a política fiscal será um dos elementos mais importantes para determinar o espaço disponível para novos cortes de juros. Caso as primeiras sinalizações do presidente eleito sejam interpretadas como favoráveis à sustentabilidade das contas públicas, poderá haver mudanças nas expectativas dos investidores.
Esse movimento poderia afetar variáveis importantes para a política monetária, como o prêmio de risco, o câmbio e as expectativas de inflação.
O que poderia fazer a Selic cair mais rapidamente
A possibilidade de cortes maiores não depende apenas do resultado eleitoral.
Para que o Banco Central tenha espaço para acelerar a redução dos juros, será necessário observar um conjunto de condições econômicas favoráveis.
Entre elas está a continuidade da desaceleração da inflação. Também será importante acompanhar o comportamento das expectativas para os próximos anos, já que a política monetária busca manter a inflação convergente com a meta estabelecida pelo Conselho Monetário Nacional.
Outro ponto é a atividade econômica.
Uma economia que perde força pode reduzir pressões inflacionárias, especialmente quando a desaceleração ocorre de maneira disseminada. Nesse cenário, uma redução gradual da taxa básica pode se tornar mais compatível com o ambiente econômico.
O cenário externo também permanece relevante. Mudanças na política monetária dos Estados Unidos podem afetar o câmbio, os fluxos de capital e as condições financeiras brasileiras.
Por isso, mesmo que o ambiente doméstico apresente melhora, o Banco Central precisa considerar também os riscos vindos do exterior.
Quantitas vê espaço para corte de 0,50 ponto percentual
Ao avaliar qual poderia ser o tamanho de uma eventual aceleração, Ivo Chermont apontou cortes de 0,50 ponto percentual como uma possibilidade.
Nesse cenário, a redução seria equivalente a 50 pontos-base.
A avaliação, porém, deve ser entendida como uma projeção de uma instituição privada, e não como indicação oficial do Banco Central. O Copom não se compromete previamente com um determinado tamanho de corte e pode alterar sua decisão de acordo com a evolução dos indicadores.
A escolha entre reduções de 25 ou 50 pontos-base, por exemplo, dependeria da combinação entre inflação, expectativas, atividade econômica, câmbio, cenário fiscal e ambiente internacional.
Por isso, o resultado das eleições, isoladamente, não determina a trajetória da Selic.
O que pode ocorrer é uma mudança nas expectativas econômicas após o processo eleitoral, influenciando variáveis que, posteriormente, entram na avaliação do Banco Central.
Política fiscal pode ser decisiva para os juros
A política fiscal aparece como um dos principais pontos de atenção para o cenário projetado pela Quantitas.
Isso ocorre porque as contas públicas influenciam a percepção de risco dos investidores e podem afetar tanto o câmbio quanto as expectativas de inflação.
Uma trajetória fiscal considerada mais previsível pode contribuir para reduzir incertezas. Em determinadas circunstâncias, isso pode ajudar a diminuir o prêmio de risco exigido pelos investidores e melhorar as condições financeiras.
O movimento contrário também pode acontecer.
Caso aumentem as preocupações com a trajetória das contas públicas, o mercado pode exigir prêmios maiores para investir em ativos brasileiros. Dependendo da intensidade, isso pode pressionar o câmbio e dificultar a convergência da inflação.
Nesse caso, o Banco Central pode precisar manter uma política monetária mais restritiva por mais tempo.
É por esse motivo que a análise da Quantitas coloca as primeiras sinalizações do governo eleito como uma variável relevante para a reunião de dezembro.
Inflação continua sendo o principal limite para os cortes
Mesmo com uma possível desaceleração da economia, existe um limite para a redução dos juros: o comportamento da inflação.
Ivo Chermont destacou que, em um cenário no qual a atividade econômica enfraqueça, mas a inflação permaneça elevada ou resistente, o Banco Central tende a dar maior peso ao comportamento dos preços.
A lógica está relacionada ao próprio objetivo da política monetária.
O Copom define a Selic tendo como referência a necessidade de manter a inflação alinhada à meta. Para isso, considera não apenas a inflação observada, mas também suas perspectivas e os riscos que podem alterar essa trajetória.
Assim, uma economia mais fraca não garante automaticamente cortes maiores.
Se a inflação permanecer pressionada, o Banco Central poderá optar por reduzir os juros em ritmo menor, interromper temporariamente os cortes ou manter a taxa em nível considerado suficientemente restritivo.
O exemplo de 2015 citado pelo economista
Para explicar por que a atividade econômica, sozinha, não determina a política de juros, Chermont mencionou o cenário vivido pelo Brasil em 2015.
Naquele período, o país enfrentou forte retração econômica ao mesmo tempo em que a inflação permanecia elevada. O exemplo foi utilizado para mostrar que uma queda do Produto Interno Bruto (PIB) não necessariamente abre espaço para redução da Selic.
A referência histórica não significa que a Quantitas esteja projetando uma repetição daquele episódio.
O argumento é outro: caso a economia perca força, mas as pressões inflacionárias permaneçam relevantes, o combate à inflação pode continuar sendo prioritário para a autoridade monetária.
Essa dinâmica ajuda a entender por que as próximas decisões do Copom dependerão de um conjunto amplo de indicadores.
O que observar até a reunião de dezembro
Para entender se haverá espaço para uma eventual aceleração dos cortes, alguns indicadores deverão ganhar atenção nos próximos meses.
Entre os principais estão:
- inflação corrente e medidas de inflação subjacente;
- expectativas de inflação;
- dados de atividade econômica;
- comportamento do mercado de trabalho;
- trajetória do câmbio;
- condições financeiras;
- evolução das contas públicas;
- cenário internacional;
- decisões dos principais bancos centrais.

O Banco Central reúne essas informações antes de cada decisão. O próprio órgão explica que os membros do Copom analisam o cenário macroeconômico e os principais riscos antes de deliberar sobre a Selic.
Por isso, ainda não é possível afirmar qual será o tamanho do corte em dezembro.
A projeção de 50 pontos-base apresentada pela Quantitas é uma possibilidade dentro de um cenário específico, condicionado à evolução dos indicadores.
Novembro pode trazer menos informações sobre o novo governo
A reunião de novembro também terá importância, mas o intervalo reduzido entre as eleições e a decisão pode limitar a quantidade de informações disponíveis sobre a política econômica do próximo governo.
Isso não significa que o Copom ficará sem referências.
Os integrantes do Comitê terão acesso aos indicadores econômicos divulgados até então e poderão avaliar mudanças nas expectativas do mercado. Entretanto, decisões e sinalizações iniciais do governo eleito poderão ainda estar em processo de definição.
Em dezembro, o cenário poderá estar mais claro.
Nesse momento, será possível observar com maior distância os efeitos iniciais das eleições sobre o mercado financeiro e as expectativas relacionadas à política fiscal.
É essa diferença de timing que sustenta a avaliação de que dezembro poderá representar um momento importante para a trajetória da Selic.
Corte maior da Selic não está garantido
Apesar da possibilidade levantada pela Quantitas, não existe garantia de que o Banco Central acelerará os cortes em dezembro.
A decisão pertence ao Copom e será tomada com base nas informações disponíveis naquele momento.
O cenário poderá ser diferente caso a inflação permaneça pressionada, as expectativas se deteriorem, o câmbio sofra forte desvalorização ou o ambiente externo fique mais adverso.
Também poderá haver mudanças nas perspectivas fiscais após as eleições.
Dessa forma, a principal questão para os próximos meses não será apenas o resultado eleitoral, mas a forma como esse resultado se traduzirá em expectativas para a economia brasileira.
Se houver melhora simultânea em inflação, expectativas, risco fiscal e condições financeiras, poderá existir maior espaço para flexibilização monetária. Se esses fatores caminharem na direção oposta, a política de juros poderá continuar mais cautelosa.
O que a análise significa para quem acompanha a Selic
Para consumidores, empresas e investidores, uma eventual aceleração dos cortes teria efeitos que poderiam aparecer gradualmente na economia.
A Selic funciona como referência para diversas taxas de juros praticadas no país. Quando a taxa básica começa a cair, as condições de crédito podem mudar ao longo do tempo, embora o repasse para consumidores e empresas não seja automático nem ocorra na mesma velocidade em todas as modalidades.
Em aplicações financeiras, a queda da Selic também pode alterar a rentabilidade de investimentos vinculados à taxa básica ou ao CDI.
Por isso, cada decisão do Copom costuma ser acompanhada de perto pelo mercado.
No cenário atual, entretanto, o ponto mais importante é separar expectativa de decisão oficial. A Quantitas identificou espaço potencial para cortes maiores a partir de dezembro, mas a trajetória efetiva da Selic dependerá das condições econômicas observadas pelo Banco Central nas próximas reuniões.
Até lá, inflação, atividade, política fiscal, câmbio e cenário internacional continuarão sendo os principais indicadores para entender os próximos passos da política monetária.
