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BTG alerta que El Niño pode afetar resultados da SLC Agrícola mesmo com projeções otimistas

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 11 min de leitura
El Niño

A SLC Agrícola prepara uma safra 2026/27 maior, com expansão da área plantada, expectativas de produtividade mais favoráveis em algumas culturas e custos considerados administráveis por parte dos analistas. O problema está fora das planilhas: o clima.

A possibilidade de um El Niño muito forte durante o ciclo agrícola aumentou a cautela do mercado. Itaú BBA, BTG Pactual e Safra enxergam espaço para melhora dos resultados da companhia em 2027, mas os bancos também apontam o fenômeno climático como o principal fator capaz de frustrar parte dessas expectativas.

A preocupação ganhou força justamente quando as perspectivas para soja, milho e algodão começaram a melhorar. Para entender o que está em jogo, é preciso olhar para a área que será cultivada, os custos, a produtividade esperada, os mecanismos de proteção utilizados pela empresa e, principalmente, a evolução do El Niño.

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O que mudou nas projeções da SLC Agrícola

El Niño
Imagem: Getty Images/wsfurlan

A SLC Agrícola estima plantar cerca de 854,4 mil hectares na safra 2026/27, alta de aproximadamente 2,2% em relação ao orçamento anterior. A expansão ocorre com mudanças na composição das culturas, e não apenas com aumento generalizado da área.

A soja deve ocupar aproximadamente 442,1 mil hectares, avanço próximo de 3%. Já o algodão terá cerca de 200,4 mil hectares, enquanto o milho de segunda safra ficará em aproximadamente 154,6 mil hectares.

A companhia também prevê aumento de produtividade em algumas lavouras. Para a soja, a estimativa é de 4.080 quilos por hectare, enquanto o milho de segunda safra deve alcançar 7.957 quilos por hectare, segundo as projeções divulgadas para o novo ciclo.

A estratégia mostra uma tentativa de crescer preservando a eficiência operacional. O problema é que essas estimativas dependem de condições climáticas que ainda podem mudar durante o ciclo.

Por que o El Niño preocupa os investidores

O El Niño é um fenômeno climático associado ao aquecimento anormal das águas do Pacífico Equatorial. Essa alteração modifica padrões de circulação atmosférica e pode provocar mudanças importantes no regime de chuvas e temperaturas.

No Brasil, os efeitos não são iguais em todas as regiões. O histórico mostra maior risco de seca em partes do Norte e Nordeste e maior ocorrência de chuvas no Sul, embora os impactos possam variar conforme a intensidade e a configuração do fenômeno.

Para a agricultura, a questão central é o momento em que chuva e temperatura ocorrem. Uma lavoura pode ter boa disponibilidade hídrica em determinado período e, ainda assim, enfrentar problemas se o regime de chuvas atrasar o plantio ou se houver excesso de água durante uma fase crítica do desenvolvimento.

O risco ganhou dimensão maior em outubro. O Instituto Nacional de Meteorologia (INMET) e o Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE) apontaram 95% de probabilidade de um El Niño de intensidade muito forte entre outubro e dezembro de 2026.

Na atualização publicada em 8 de outubro, o Climate Prediction Center, ligado à Administração Nacional Oceânica e Atmosférica dos Estados Unidos (NOAA), informou que o fenômeno continua se fortalecendo. A probabilidade de um El Niño forte a muito forte permanecer entre janeiro e março de 2027 supera 83%.

Isso não significa que a SLC Agrícola necessariamente terá uma quebra de safra. O ponto é outro: quanto mais extremo o fenômeno, maior a incerteza sobre as condições que a empresa encontrará durante o plantio e o desenvolvimento das lavouras.

Onde está o maior risco para soja, milho e algodão

O impacto do El Niño sobre a SLC Agrícola pode ocorrer por diferentes caminhos.

O primeiro é o atraso do plantio. Se as chuvas necessárias para iniciar a implantação das lavouras não ocorrerem no momento adequado, o calendário agrícola pode ser deslocado.

Esse atraso também pode afetar as culturas de segunda safra. Soja, milho e algodão não são analisados isoladamente: mudanças no calendário de uma cultura podem reduzir a janela disponível para a seguinte.

Outro risco é a distribuição irregular das chuvas. Mesmo quando o volume total de precipitação não parece excepcionalmente baixo, períodos prolongados sem chuva durante fases críticas podem reduzir o potencial produtivo.

O BTG Pactual considera justamente essa possibilidade como um dos principais riscos para sua tese de investimento na companhia. Ao mesmo tempo, o banco avalia que a SLC está mais preparada para lidar com condições climáticas adversas do que estava em episódios anteriores.

A SLC está mais preparada do que em outros ciclos?

A resposta tende a ser sim, mas isso não elimina o risco.

A companhia ampliou investimentos em tecnologia agrícola e irrigação ao longo dos últimos anos. A maior capacidade de irrigação permite reduzir parte da dependência das chuvas em determinadas áreas, embora não seja capaz de neutralizar completamente um evento climático de grande intensidade.

A própria estratégia de distribuição das culturas também funciona como uma forma de gerenciamento de risco. Na atualização da safra 2026/27, a empresa prevê aumento da segunda safra de algodão associado à expansão da área irrigada, enquanto reduz a participação do algodão de primeira safra.

Para o BTG, essa mudança ajuda a tornar o portfólio menos vulnerável. A avaliação do banco é que a redução do algodão de primeira safra, que apresenta custo por hectare mais elevado, combinada ao avanço da segunda safra apoiada pela irrigação, pode limitar parte dos efeitos negativos de um eventual problema climático.

Ainda assim, existe um limite para essa proteção. Um fenômeno muito forte pode afetar simultaneamente diferentes regiões e etapas do calendário agrícola.

Custos também entram na conta

O clima não é o único fator que pode mexer com o resultado da SLC Agrícola.

A companhia estima custo médio de produção de aproximadamente R$ 7.217 por hectare na safra 2026/27, aumento de 2,2% em relação ao orçamento anterior. A alta está relacionada, entre outros fatores, aos preços dos fertilizantes e à inflação.

Por outro lado, a leitura dos bancos é relativamente favorável.

Itaú BBA e BTG Pactual consideraram as novas premissas de custos melhores do que esperavam. O Safra adotou uma visão mais conservadora sobre o comportamento das despesas.

Para o BTG, a combinação de maior área, custos melhores do que o esperado e produtividade mais favorável do milho poderia elevar em cerca de 5% sua projeção de Ebitda ajustado para 2027.

Ebitda é a sigla em inglês para lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização. O indicador é usado para avaliar a capacidade operacional de geração de resultado de uma empresa.

A empresa já protege parte da produção contra oscilações

Outro elemento que ajuda a reduzir a incerteza financeira é o hedge.

Hedge é uma estratégia utilizada para proteger uma operação contra movimentos desfavoráveis de preços ou câmbio. No caso da SLC Agrícola, isso é particularmente relevante porque soja, algodão e milho são commodities negociadas em mercados internacionais.

Na safra 2026/27, a empresa já havia protegido uma parcela significativa da produção de soja e algodão. Cerca de 52,9% da soja estava com preço protegido a uma média de US$ 12,36 por bushel, enquanto o hedge do algodão alcançava 62,2%, com preço médio de 79,14 centavos de dólar por libra-peso.

Essa estratégia oferece maior previsibilidade para parte da receita. Entretanto, não protege a companhia de uma queda de produtividade.

Em outras palavras: travar o preço ajuda se a empresa conseguir produzir o volume esperado. Se uma condição climática reduzir significativamente a colheita, a proteção de preços não elimina o impacto operacional.

Por que os bancos continuam otimistas com a SLC Agrícola

Apesar do alerta climático, as instituições financeiras não abandonaram a visão positiva sobre a empresa.

O Itaú BBA elevou sua estimativa de Ebitda ajustado de 2027 de aproximadamente R$ 2,9 bilhões para perto de R$ 3,1 bilhões após incorporar as novas premissas de área, custos, produtividade e proteção de preços e câmbio.

O BTG Pactual também considera que a atualização da companhia melhora suas estimativas. Para o banco, a maior área cultivada, custos mais favoráveis e melhor desempenho esperado do milho compensam parcialmente uma perspectiva menos favorável para a produtividade do algodão.

O BTG mantém recomendação de compra para as ações da SLC Agrícola e estabeleceu preço-alvo de R$ 23, segundo as análises divulgadas sobre a nova safra.

Isso, porém, não significa que o banco considere o resultado garantido. A avaliação é condicionada à evolução das condições agrícolas.

O que pode acontecer se o El Niño for ainda mais intenso

O principal risco é a combinação de três problemas: atraso no plantio, perda de produtividade e aumento da volatilidade dos custos.

Uma eventual redução da produção pode afetar a receita e as margens da companhia. Se ocorrer simultaneamente com preços menos favoráveis das commodities, o impacto sobre os resultados pode ser maior.

Há, porém, um possível efeito contrário. Problemas climáticos que reduzam a oferta global ou regional podem pressionar os preços de determinadas commodities para cima. Nesse caso, uma produtora que consiga preservar sua produtividade pode se beneficiar de preços maiores.

É justamente por isso que o efeito do El Niño sobre uma empresa agrícola não pode ser resumido simplesmente a “clima ruim significa ação ruim”. O resultado depende da combinação entre produtividade, preços das commodities, câmbio, custos e nível de proteção financeira.

O que os investidores devem acompanhar daqui para frente

A evolução do clima será o principal indicador para avaliar se as projeções atuais continuarão de pé.

Entre os pontos que merecem atenção estão:

  • evolução das chuvas nas principais regiões produtoras;
  • ritmo de plantio da soja;
  • janela disponível para as culturas de segunda safra;
  • produtividade efetivamente registrada nas primeiras áreas colhidas;
  • preços internacionais da soja, milho e algodão;
  • cotação do dólar;
  • preços de fertilizantes e defensivos;
  • novas posições de hedge da companhia;
  • atualizações do orçamento e dos resultados trimestrais.

O mercado também deverá acompanhar os próximos boletins climáticos do INPE, INMET e NOAA. As instituições brasileiras já classificaram o risco de um El Niño muito forte como elevado para o último trimestre de 2026.

El Niño pode frustrar as expectativas para a SLC Agrícola?

El Niño
Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Pode, mas ainda não é possível afirmar que isso acontecerá.

A SLC Agrícola entra na safra 2026/27 com uma operação maior, investimentos em irrigação, maior proteção comercial e perspectivas melhores para algumas culturas. Esses fatores sustentam a visão positiva dos bancos.

Ao mesmo tempo, o cenário climático mudou de maneira relevante. O El Niño está se intensificando e as projeções oficiais indicam a possibilidade de um evento muito forte durante uma parcela importante do ciclo agrícola.

Por isso, a principal questão para 2027 não será apenas quanto a SLC Agrícola pretende plantar, mas quanto conseguirá efetivamente produzir.

Para o investidor, a leitura mais adequada neste momento é acompanhar a execução da safra sem tratar as projeções como resultados garantidos. A empresa apresenta mecanismos para reduzir parte da exposição ao clima, mas nenhum deles elimina completamente o risco de uma temporada excepcionalmente adversa.

Conclusão

A SLC Agrícola começa a safra 2026/27 com uma operação maior e perspectivas positivas para parte das culturas, mas o clima adiciona uma dose importante de incerteza às projeções para 2027. O avanço do El Niño pode afetar o calendário agrícola, a produtividade e, consequentemente, os resultados da companhia.

Por outro lado, a empresa conta com instrumentos para reduzir parte dessa exposição, como irrigação, diversificação das culturas e contratos de proteção de preços. Por isso, o impacto do fenômeno dependerá não apenas da intensidade do El Niño, mas também de como as condições climáticas irão evoluir nas regiões onde a companhia atua.

Para o investidor, o ponto central será acompanhar a evolução do plantio, as primeiras estimativas de produtividade e as atualizações sobre custos e preços das commodities. Neste momento, o El Niño representa um risco relevante para a tese da SLC Agrícola, mas ainda não é suficiente, por si só, para determinar o desempenho das ações SLCE3.

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