Os contratos futuros de soja começaram a semana em forte queda na Bolsa de Chicago, em um movimento provocado principalmente pela decisão da China de não incluir o grão norte-americano na nova rodada de redução de tarifas. A medida veio após os recentes entendimentos comerciais entre Washington e Pequim e contrariou parte das expectativas que haviam sido incorporadas aos preços da commodity.
No início dos negócios desta segunda-feira (28), o contrato para novembro de 2026 chegou a recuar 20,50 pontos, para US$ 12,98 por bushel. O vencimento de janeiro de 2027 também perdia 20,50 pontos, enquanto março de 2027 registrava baixa de 19,50 pontos.
A reação demonstra a importância da China para o mercado internacional da soja. O país é um dos principais compradores mundiais da oleaginosa e, por isso, qualquer mudança nas condições de acesso ao seu mercado pode alterar rapidamente as expectativas de produtores, tradings e investidores.
Leia mais:
Soja perde força com cenário externo e pressão logística
Por que a soja caiu em Chicago?

O principal fator foi a lista divulgada pela China com produtos agrícolas norte-americanos que terão tratamento tarifário mais favorável. A relação inclui milho, trigo, sorgo, carnes, lácteos, óleos vegetais e derivados, entre outros produtos.
A soja em grão, porém, ficou de fora. Com isso, a commodity continua sujeita a uma tarifa adicional de 10% no mercado chinês. Reuters informou que a medida faz parte de um pacote de redução tarifária envolvendo aproximadamente US$ 60 bilhões em mercadorias negociadas entre os dois países.
A exclusão é particularmente relevante porque a soja ocupa posição central na pauta agrícola entre Estados Unidos e China. A manutenção da cobrança aumenta o custo do produto norte-americano para compradores chineses e pode reduzir sua competitividade diante de fornecedores de outras origens.
Mercado esperava uma abertura maior
Nos últimos dias, os investidores acompanharam com atenção os sinais de aproximação entre os governos de Donald Trump e Xi Jinping. Havia expectativa de que o entendimento comercial pudesse favorecer uma retomada mais ampla das compras chinesas de produtos agrícolas dos Estados Unidos, especialmente de soja.
Quando os detalhes foram conhecidos, o mercado precisou ajustar essas projeções. O problema não foi apenas a permanência da tarifa, mas também o contraste com o tratamento concedido a outros produtos agrícolas norte-americanos.
Segundo a Reuters, mais de 90% dos produtos agrícolas abrangidos pela nova lista estarão sujeitos às tarifas de nação mais favorecida, enquanto a soja permanece com a cobrança adicional.
China continua comprando soja dos Estados Unidos
A manutenção da tarifa não significa que o comércio de soja entre os dois países tenha sido interrompido.
Empresas estatais chinesas, incluindo Sinograin e COFCO, já compraram mais de 12 milhões de toneladas de soja norte-americana. O volume corresponde a quase metade das 25 milhões de toneladas anuais que, segundo a Casa Branca, a China teria se comprometido a adquirir até 2028. Pequim, contudo, ainda não confirmou publicamente essa meta nos mesmos termos.
Essa diferença é importante para a interpretação do mercado. Uma coisa é a existência de compras efetivas; outra é a confirmação de um compromisso futuro de grande escala.
Para as empresas privadas chinesas, a tarifa também pesa de maneira diferente. Processadoras precisam avaliar o custo total da matéria-prima e a margem obtida com a produção de farelo e óleo. Se a soja norte-americana ficar mais cara que alternativas disponíveis em outros países, a tendência é comparar cuidadosamente as diferentes origens antes de fechar novos contratos.
O que a decisão significa para o Brasil?
A política comercial chinesa em relação à soja dos Estados Unidos também tem reflexos sobre o mercado brasileiro. Isso ocorre porque Brasil e Estados Unidos disputam uma parcela importante das compras internacionais realizadas pela China.
Quando a soja norte-americana enfrenta uma tarifa adicional, o produto brasileiro pode ganhar competitividade relativa. Isso, porém, não significa que o preço pago ao produtor brasileiro subirá automaticamente.
O valor recebido no mercado nacional depende de uma combinação de fatores. Entre eles estão a cotação internacional em Chicago, o dólar, os prêmios de exportação, a disponibilidade de soja nos portos, os custos de transporte e o equilíbrio entre oferta e demanda doméstica.
Por isso, uma queda forte em Chicago pode pressionar as cotações brasileiras mesmo quando a soja do Brasil se torna relativamente mais competitiva para os compradores chineses.
Dólar e prêmio ganham importância
Para quem acompanha o preço da soja no Brasil, olhar somente para a Bolsa de Chicago pode levar a uma interpretação incompleta.
O produtor que comercializa a produção para exportação está exposto à combinação entre a cotação internacional e o câmbio. Uma eventual valorização do dólar pode compensar parte de uma queda em Chicago, enquanto um movimento contrário pode ampliar a pressão sobre as cotações domésticas.
Os prêmios de exportação também funcionam como uma variável importante. Eles refletem, entre outros fatores, a relação entre oferta e demanda por soja de determinada origem em portos específicos.
Assim, a manutenção da tarifa chinesa sobre o produto dos Estados Unidos deve ser acompanhada junto com a reação dos compradores à soja brasileira.
Colheita dos EUA aumenta pressão sobre os preços
A questão comercial não é o único fator que pesa sobre Chicago nesta semana. O mercado também acompanha o avanço da colheita da safra norte-americana de 2026/27.
A entrada de uma quantidade maior de soja no mercado aumenta a disponibilidade física nos Estados Unidos. Em períodos de colheita, esse aumento de oferta costuma ganhar relevância para a formação dos preços, principalmente quando ocorre simultaneamente a dúvidas sobre o ritmo das exportações.
No cenário atual, portanto, existem dois vetores importantes sendo observados pelos investidores: de um lado, a perspectiva de maior oferta norte-americana; de outro, as incertezas sobre quanto da demanda chinesa será efetivamente direcionada aos Estados Unidos.
Essa combinação ajuda a explicar a intensidade da queda registrada nos contratos futuros.
O que pode acontecer com a soja nas próximas semanas?

O comportamento da commodity dependerá de novas informações sobre as relações comerciais entre China e Estados Unidos e do ritmo efetivo das compras chinesas.
Caso as estatais chinesas continuem adquirindo grandes volumes de soja norte-americana, parte da pressão poderá ser reduzida. Por outro lado, se as compras ficarem abaixo das expectativas, a oferta crescente durante a colheita poderá ganhar ainda mais peso.
Outro ponto de atenção será qualquer mudança nas tarifas. Uma eventual redução da cobrança sobre a soja em grão alteraria de forma significativa as condições de competitividade do produto norte-americano no mercado chinês.
Enquanto isso, a China continuará comparando diferentes fornecedores internacionais. Para o Brasil, isso torna o mercado chinês ainda mais relevante durante a definição das estratégias de comercialização da próxima safra.
Imagem: Reprodução
