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Calor extremo pode causar 26.700 mortes adicionais no Brasil, alerta estudo internacional

Avatar de Melissa Barbosa Melissa Barbosa · · 11 min de leitura
El Niño

Uma projeção do Climate Impact Lab, laboratório de pesquisa ligado à Universidade de Chicago, estima que o atual episódio de Super El Niño poderá estar associado a aproximadamente 857 mil mortes adicionais relacionadas ao calor extremo em todo o mundo até março de 2027.

O Brasil está entre os países que mais preocupam os pesquisadores. A estimativa inicial para o território brasileiro chega a 26,7 mil mortes adicionais entre junho de 2026 e março de 2027. Desse total, aproximadamente 19,5 mil são projetadas para os seis meses seguintes à atualização do levantamento.

Os números foram divulgados em 29 de outubro de 2026 e reacendem o alerta sobre os efeitos das temperaturas elevadas na saúde pública. Embora sejam estimativas estatísticas, e não registros de óbitos confirmados, os dados ajudam a dimensionar os riscos associados ao fenômeno climático e à vulnerabilidade das populações expostas ao calor.

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O que é o Super El Niño e por que ele preocupa os cientistas?

El Niño
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O El Niño é um fenômeno climático natural caracterizado pelo aquecimento anormal das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial, especialmente nas regiões central e leste do oceano.

Esse aquecimento interfere na circulação atmosférica e modifica os padrões de temperatura, umidade e precipitação. Como consequência, diferentes partes do planeta podem enfrentar ondas de calor, períodos de seca, chuvas intensas e alterações nas estações climáticas.

A expressão Super El Niño é utilizada para descrever episódios de intensidade excepcionalmente elevada. Não se trata de um fenômeno diferente do El Niño, mas de uma manifestação particularmente intensa do mesmo processo climático.

A Organização Meteorológica Mundial (OMM) informou, em setembro, que o episódio de 2026 deveria ganhar força nos meses seguintes, com possibilidade de atingir intensidade muito forte e persistir até fevereiro de 2027.

Por que o fenômeno pode provocar tantas mortes?

O principal fator considerado na projeção do Climate Impact Lab é o aumento da mortalidade associado às temperaturas elevadas.

O organismo humano precisa manter a temperatura interna em níveis relativamente estáveis. Quando a exposição ao calor é intensa ou prolongada, o corpo pode ter dificuldade para dissipar o excesso de temperatura, provocando desidratação, exaustão térmica e, nos casos mais graves, insolação.

As altas temperaturas também podem agravar problemas cardiovasculares, respiratórios e renais. Pessoas que já apresentam condições de saúde vulneráveis podem sofrer consequências mais graves durante períodos prolongados de calor.

O risco não está limitado às ondas de calor mais evidentes. A exposição repetida a temperaturas elevadas, inclusive durante a noite, dificulta a recuperação do organismo e aumenta a sobrecarga sobre o sistema cardiovascular.

Como o estudo chegou à estimativa de 857 mil mortes?

A projeção foi desenvolvida pelo Climate Impact Lab por meio do El Niño Heat Mortality Tracker, uma ferramenta que acompanha os possíveis efeitos do fenômeno sobre a mortalidade relacionada ao calor.

O levantamento utiliza pesquisas científicas que relacionam as temperaturas diárias à mortalidade por todas as causas, considerando diferenças entre regiões, vulnerabilidade das populações e capacidade de adaptação ao clima.

Para elaborar as estimativas, os pesquisadores utilizam duas bases de informações:

  • Dados observados: informações de temperatura referentes aos meses já transcorridos, obtidas por meio do sistema de reanálise climática ERA5.
  • Previsões futuras: projeções meteorológicas do sistema SEAS5, desenvolvido pelo Centro Europeu de Previsões Meteorológicas de Médio Prazo (ECMWF).

Os cálculos abrangem aproximadamente 3.700 regiões administrativas de primeiro nível, como estados e províncias, em diferentes países.

A comparação utiliza como referência a mortalidade estimada para o período de 1996 a 2025. Dessa forma, o estudo procura identificar quantas mortes adicionais podem estar associadas às condições de calor durante o episódio climático.

As 857 mil mortes já aconteceram?

Não. Essa distinção é fundamental para interpretar corretamente os números.

O total de aproximadamente 857 mil representa a estimativa acumulada de mortes adicionais relacionadas ao calor durante o período analisado, incluindo meses já transcorridos e projeções futuras.

Na atualização consultada em 30 de outubro, o laboratório estima aproximadamente 484 mil mortes adicionais entre junho e setembro de 2026. Outras 373 mil são projetadas para outubro de 2026 a março de 2027.

Portanto, não se trata de 857 mil óbitos oficialmente registrados ou de uma previsão de que todas essas pessoas necessariamente morrerão. São resultados de um modelo estatístico que depende das condições climáticas e das premissas utilizadas pelos pesquisadores.

Brasil aparece entre os países mais afetados pelo Super El Niño

O Brasil está entre os países com maior estimativa de mortalidade adicional relacionada ao calor no levantamento.

Considerando o período completo, de junho de 2026 a março de 2027, a projeção divulgada para o país chega a aproximadamente 26,7 mil mortes adicionais.

Desse total, cerca de 19,5 mil correspondem à estimativa para os seis meses seguintes, conforme a atualização divulgada em 29 de outubro.

A diferença entre os números considera os períodos analisados: uma estimativa contempla o intervalo completo do evento, enquanto a outra se refere à etapa futura da projeção.

O impacto preocupa especialmente porque o território brasileiro apresenta grandes diferenças climáticas e sociais. A exposição ao calor não ocorre da mesma maneira em todas as regiões, e fatores como infraestrutura urbana, acesso à saúde e condições de moradia influenciam a capacidade de proteção da população.

Quais regiões do Brasil podem sentir os efeitos do fenômeno?

O boletim de outubro do Instituto Nacional de Meteorologia (INMET), elaborado em conjunto com outras instituições federais, indica que o El Niño deve influenciar de maneira diferente o regime de chuvas nas regiões brasileiras.

Para o período entre novembro de 2026 e janeiro de 2027, a previsão aponta:

  • Sul: maior probabilidade de chuvas acima da média climatológica.
  • Sudeste: possibilidade de chuvas acima da média em parte da região.
  • Centro-Oeste: condições de chuva acima da média em algumas áreas e abaixo da média em outras.
  • Norte: tendência de precipitação abaixo da média em grande parte da região.
  • Nordeste: possibilidade de chuvas abaixo da média em áreas do território.

Em relação às temperaturas, a tendência é de valores acima da normal climatológica em quase todo o país. O Rio Grande do Sul aparece como uma exceção na previsão, com tendência de temperaturas abaixo da média no período analisado.

Calor, seca e chuvas intensas podem ocorrer ao mesmo tempo?

Sim. O El Niño não provoca as mesmas condições meteorológicas em todas as localidades.

Enquanto determinadas regiões podem enfrentar períodos mais secos e temperaturas elevadas, outras podem registrar precipitações acima da média, temporais e aumento do risco de enchentes.

No Norte e em partes do Nordeste, a redução das chuvas pode agravar problemas relacionados à disponibilidade de água e aumentar o risco de incêndios florestais.

No Sul, por outro lado, o aumento da precipitação pode favorecer episódios de chuva intensa, alagamentos e inundações.

Essas condições não significam que todos os municípios enfrentarão os mesmos problemas. A distribuição dos impactos depende também de outros fatores atmosféricos e oceânicos, além das características geográficas de cada região.

Quem corre mais risco durante períodos de calor extremo?

Embora temperaturas elevadas possam afetar qualquer pessoa, alguns grupos apresentam maior vulnerabilidade às consequências do calor.

Entre eles estão:

  • Idosos: podem apresentar maior dificuldade de regulação da temperatura corporal e maior risco de desidratação.
  • Crianças e bebês: possuem mecanismos de regulação térmica ainda em desenvolvimento e dependem de adultos para manter a hidratação.
  • Pessoas com doenças crônicas: problemas cardiovasculares, respiratórios e renais podem ser agravados pela exposição ao calor.
  • Trabalhadores expostos ao sol: profissionais da construção civil, agricultura, entregas e outras atividades externas podem passar horas sob temperaturas elevadas.
  • Pessoas em situação de vulnerabilidade social: moradias sem ventilação adequada, falta de climatização e dificuldade de acesso à água aumentam a exposição aos riscos.

As condições urbanas também influenciam a intensidade do problema. Regiões densamente construídas, com pouca vegetação e grande concentração de concreto e asfalto, podem apresentar temperaturas mais altas do que áreas arborizadas.

Como se proteger do calor extremo?

A prevenção é uma das principais medidas para reduzir os riscos à saúde durante períodos de temperaturas elevadas.

Alguns cuidados recomendados incluem:

  1. Beber água regularmente, mesmo sem sentir sede.
  2. Evitar atividades físicas intensas nos horários mais quentes do dia.
  3. Procurar ambientes frescos, ventilados ou climatizados.
  4. Utilizar roupas leves e, quando houver exposição ao sol, proteção adequada.
  5. Redobrar a atenção com crianças, idosos e pessoas com doenças crônicas.
  6. Evitar deixar crianças ou animais dentro de veículos estacionados.
  7. Procurar atendimento médico diante de sintomas como confusão mental, desmaios, tontura intensa ou alteração do nível de consciência.

A confusão mental e o desmaio durante a exposição ao calor podem indicar uma emergência médica. Nesses casos, é necessário procurar atendimento imediatamente.

O acompanhamento das previsões meteorológicas e dos alertas da Defesa Civil também ajuda a antecipar situações de risco.

O que o governo pode fazer para reduzir os impactos?

As projeções de mortalidade reforçam a necessidade de políticas públicas voltadas à adaptação climática e à proteção da saúde.

Entre as medidas que podem reduzir os riscos estão a ampliação de sistemas de alerta para ondas de calor, a criação de espaços públicos climatizados, o acesso à água potável e a preparação dos serviços de saúde para atender ao aumento de ocorrências relacionadas às temperaturas elevadas.

O próprio Climate Impact Lab aponta medidas como sistemas de alerta precoce, ampliação do acesso à assistência médica e disponibilização de água e centros de resfriamento como estratégias de adaptação.

No Brasil, o acompanhamento conjunto do INMET, Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE), Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) e Defesa Civil é fundamental para orientar ações preventivas.

O Super El Niño pode continuar até quando?

As projeções meteorológicas indicam que o episódio atual deve permanecer ativo até o início de 2027, embora sua intensidade possa variar ao longo dos próximos meses.

A Organização Meteorológica Mundial apontou elevada probabilidade de continuidade do fenômeno até fevereiro de 2027. Já o acompanhamento do Climate Impact Lab considera impactos sobre a mortalidade até março do mesmo ano.

A evolução dependerá das temperaturas do Oceano Pacífico e da interação entre diferentes sistemas climáticos. Por isso, as previsões precisam ser atualizadas regularmente.

O que esperar nos próximos meses?

El Niño
Imagem: Edição/ Seu Crédito Digital

O cenário exige atenção de governos, profissionais de saúde e da população. As projeções indicam que o calor extremo poderá ampliar os riscos de mortalidade em diferentes países, enquanto o Brasil também deverá enfrentar alterações importantes nos padrões de chuva.

Os 26,7 mil óbitos adicionais estimados para o território brasileiro não representam mortes confirmadas, mas um alerta sobre a dimensão dos riscos associados às temperaturas elevadas.

Acompanhar os avisos do INMET e da Defesa Civil, manter cuidados com a hidratação e proteger pessoas mais vulneráveis são medidas fundamentais. A preparação antecipada dos serviços públicos também pode ajudar a reduzir os impactos do fenômeno.

Conclusão

O avanço do Super El Niño coloca em evidência os desafios que o calor extremo pode representar para a saúde pública nos próximos meses. Embora as 857 mil mortes estimadas pelo Climate Impact Lab não sejam óbitos confirmados, a projeção reforça a necessidade de preparação diante dos possíveis impactos do fenômeno. No Brasil, onde a estimativa chega a 26,7 mil mortes adicionais, o acompanhamento dos alertas meteorológicos, a adoção de medidas preventivas e a proteção das pessoas mais vulneráveis serão fundamentais. Mais do que acompanhar a evolução do El Niño, será necessário investir em ações capazes de reduzir os riscos e evitar que as altas temperaturas se transformem em uma crise de saúde pública.

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