A Caixa Econômica Federal lançou recentemente o SuperCaixa, um novo programa de remuneração variável que unifica sistemas como o Bônus Caixa e o TDV (Time de Vendas).
SuperCaixa: novo projeto da Caixa gera disputa entre colegas e desgaste emocional
Novo programa SuperCaixa, lançado sem diálogo pela Caixa, gera clima de insegurança, afeta saúde mental dos empregados e ignora diretrizes.
Anunciado como uma estratégia de modernização e valorização dos empregados, o projeto tem gerado críticas contundentes de entidades representativas e especialistas em saúde ocupacional, que alertam para um ambiente de trabalho cada vez mais hostil, competitivo e emocionalmente desgastante.
A ausência de diálogo prévio, somada à falta de informações claras sobre as metas e critérios de avaliação do programa, vem causando insegurança generalizada entre os funcionários, conforme aponta a Federação Nacional das Associações do Pessoal da Caixa (Fenae).
Para a entidade, a forma como o programa foi imposto evidencia mais uma vez uma gestão autoritária, que negligencia o fator humano e desconsidera os impactos psicossociais nas equipes.
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O que é o programa SuperCaixa

Unificação dos sistemas de premiação
O SuperCaixa surge como uma tentativa da direção da Caixa de consolidar diferentes mecanismos de incentivo financeiro — como o Bônus Caixa e o TDV — em uma única plataforma.
A proposta promete simplificar a lógica de premiação por desempenho, aumentar a eficiência e alinhar metas individuais e coletivas com os objetivos corporativos.
Segundo informações internas, o novo sistema busca implementar um modelo de avaliação contínua, em que as equipes deverão atingir indicadores semanais e mensais de produtividade e desempenho, com maior monitoramento e relatórios mais frequentes.
Foco em metas e competitividade
Na prática, o programa fortalece uma cultura de metas agressivas, em que os resultados são constantemente avaliados e comparados, gerando uma atmosfera de competição intensa entre colegas de trabalho.
O novo modelo também reduz a previsibilidade dos pagamentos variáveis, tornando-os mais condicionados ao desempenho pontual e à avaliação direta da chefia imediata.
Clima de medo e desgaste emocional nas agências
Cresce o número de queixas por estresse e ansiedade
Desde o anúncio do SuperCaixa, em junho de 2025, sindicatos e associações regionais relatam um aumento significativo nas queixas por ansiedade, estresse, exaustão e medo de punições.
O ambiente, segundo relatos dos próprios trabalhadores, passou a ser dominado por uma sensação constante de cobrança, incerteza e vigilância.
“O problema não é só o conteúdo do programa, mas o processo de sua implementação”, alerta Sergio Takemoto, presidente da Fenae. “Os empregados foram pegos de surpresa, sem qualquer debate prévio ou formação adequada para lidar com a nova realidade de metas e cobranças”.
Mudança sem diálogo agrava insegurança
Para a Comissão Executiva dos Empregados da Caixa (CEE/Caixa), que acompanha o cotidiano das agências e unidades operacionais do banco, o SuperCaixa é mais um exemplo de gestão verticalizada, que ignora os canais formais de escuta e participação dos trabalhadores.
“A decisão foi tomada de cima para baixo, sem envolver as entidades representativas. Não se trata de falha de comunicação, mas de uma escolha deliberada de governança autoritária”, afirmou Takemoto após reunião com a direção da Caixa.
SuperCaixa e os riscos psicossociais no ambiente de trabalho
NR-1 exige que empresas considerem riscos mentais
A Norma Regulamentadora nº 1 (NR-1) do Ministério do Trabalho e Emprego, atualizada recentemente, passou a considerar riscos psicossociais, como pressão emocional, medo, estresse e ansiedade, como parte obrigatória da gestão de riscos nas empresas.
Com isso, toda instituição — pública ou privada — está legalmente obrigada a incorporar o Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) ações que previnam o adoecimento mental dos trabalhadores.
Para a Fenae, o novo programa da Caixa vai na contramão dessas diretrizes, uma vez que aumenta a pressão e ignora os limites de saúde dos empregados.
“Em 2025, isso é inaceitável”, diz Fenae
“Em pleno 2025, não é admissível que um banco público com milhões de clientes e milhares de empregados trate o bem-estar dos seus trabalhadores como algo secundário”, afirma Takemoto.
“A Caixa parece despreparada para lidar com o que há de mais atual em gestão de pessoas: o cuidado com a saúde mental.”
Impactos já estão sendo estudados por pesquisa nacional
Fenae inicia levantamento sobre saúde dos empregados
Com o objetivo de mensurar o grau de adoecimento entre os empregados da Caixa após a implantação de programas como o SuperCaixa, a Fenae lançou uma pesquisa nacional voltada a trabalhadores da ativa e aposentados.
O questionário pode ser acessado via aplicativo Viva Fenae/Apcefs ou pelo link: https://link.fenae.org.br/pesquisafenae.
Cobranças excessivas e rotatividade preocupam
A entidade pretende verificar como mudanças constantes, metas voláteis e cobranças acima da média estão interferindo na qualidade de vida e na saúde física e emocional dos empregados.
Dados parciais já apontam para aumento nos pedidos de afastamento por transtornos mentais, além de rotatividade crescente nas funções de atendimento direto ao público.
Falta de transparência e comunicação ineficiente
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Empregados relatam desinformação e medo de retaliação
Entre os maiores problemas relatados nas unidades está a falta de informação clara sobre como o SuperCaixa funcionará na prática.
Segundo relatos anônimos de empregados, nem os gestores intermediários sabem exatamente como aplicar os novos critérios de avaliação, o que gera um efeito dominó de desorientação, rumores e medo de retaliação por parte da chefia.
Aumento do assédio moral é risco real
Para especialistas em psicologia organizacional, esse cenário de ambiguidade e insegurança pode favorecer práticas de assédio moral.
“Sempre que as metas são descoladas da realidade do dia a dia e os critérios de avaliação são obscuros, o risco de abuso aumenta”, afirma a psicóloga do trabalho Juliana Amaral, consultora independente em gestão humanizada.
Reações sindicais e pedidos de revisão

Entidades exigem revisão imediata do SuperCaixa
A Fenae, em conjunto com outras entidades, solicitou à direção da Caixa uma revisão urgente do programa, com o objetivo de garantir mais transparência, critérios objetivos, acompanhamento psicológico e canais permanentes de escuta dos empregados.
Entre as propostas das entidades estão:
- Inclusão de representantes dos trabalhadores nas decisões sobre remuneração;
- Realização de audiências públicas internas para discussão do programa;
- Implantação de comissões de saúde mental em todas as regionais da Caixa;
- Suspensão temporária do SuperCaixa até que as diretrizes da NR-1 sejam totalmente atendidas.
Caixa ainda não respondeu oficialmente
Até o fechamento desta reportagem, a Caixa Econômica Federal não havia se pronunciado oficialmente sobre os questionamentos levantados pela Fenae, pela CEE/Caixa e pelos sindicatos regionais.
Procurada, a assessoria de imprensa do banco limitou-se a dizer que o programa “visa alinhar os interesses institucionais e valorizar os resultados dos empregados”.
Conclusão: gestão precisa rever prioridades
A implantação do SuperCaixa, da forma como foi conduzida, revela um modelo de gestão centrado em metas, controle e produtividade, que negligencia os efeitos emocionais e psicossociais nas equipes.
Em um contexto em que as empresas estão sendo legalmente obrigadas a considerar o bem-estar como parte estratégica da gestão, a Caixa se distancia do padrão exigido pela nova legislação trabalhista e pelos princípios da administração moderna.
A expectativa das entidades representativas é de que o banco público abra canais de escuta ativa, reconheça os erros no processo de implementação e priorize a saúde mental de seus mais de 80 mil empregados.
O futuro da Caixa, enquanto empresa pública com papel social, passa necessariamente pela valorização humana e não apenas pelos números dos balanços trimestrais.
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