O mercado de juros futuro brasileiro encerrou a sessão desta terça-feira (15) em clima de cautela. Enquanto os contratos de vencimentos curtos oscilaram próximos da estabilidade, os vértices intermediários e longos fecharam em alta, refletindo tanto a elevação nos rendimentos dos Treasuries quanto o aumento na percepção de risco fiscal no cenário doméstico.
A taxa do contrato de Depósito Interfinanceiro (DI) para janeiro de 2026 recuou levemente de 14,941% para 14,935%. Já os contratos com vencimentos mais longos subiram: o DI de janeiro de 2027 passou de 14,304% para 14,340%; o de janeiro de 2028, de 13,597% para 13,705%; e o de janeiro de 2029 avançou de 13,493% para 13,615%.
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Influência do cenário externo

Treasuries em alta puxam curva brasileira
A principal influência sobre a curva de juros local veio do exterior. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano, os Treasuries, avançaram após a divulgação do índice de preços ao consumidor (CPI) nos Estados Unidos. O indicador veio em linha com as expectativas, com alta de 0,3% em junho ante maio, mas analistas ainda enxergam impactos das taxas comerciais impostas recentemente.
Segundo Seema Shah, estrategista-chefe global da Principal Asset Management, os aumentos em categorias como moradia, lazer e vestuário refletem a pressão das taxas sobre os bens essenciais. Embora a expectativa seja de que esses impactos inflacionários sejam transitórios, o contexto internacional de elevação de preços e tensão comercial acaba alimentando a cautela dos investidores, inclusive em mercados emergentes como o Brasil.
“O ambiente externo tem sido de alta dos juros. Várias economias estão passando por desafios, como EUA, Reino Unido e Japão”, aponta André Muller, economista-chefe da gestora AZ Quest. Para ele, o movimento dos Treasuries amplia a volatilidade da curva brasileira e pode inclusive influenciar o cenário político doméstico com o prolongamento das incertezas econômicas.
Fed cauteloso adia cortes nos EUA
A possibilidade de o Federal Reserve (Fed) adiar o início do ciclo de corte de juros também pesa no mercado. A autoridade monetária americana segue prudente diante do comportamento da inflação, especialmente após os novos embargos comerciais e a ausência de avanços diplomáticos. Essa postura, por consequência, impacta diretamente as decisões do Banco Central do Brasil, que depende de um ambiente internacional mais estável para avançar na flexibilização monetária local.
Pressão fiscal e incerteza política
PEC dos precatórios reacende alerta no mercado
Internamente, os investidores monitoram com atenção o avanço da Proposta de Emenda à Constituição (PEC) 66, que trata do regime de pagamento de precatórios e Requisições de Pequeno Valor (RPVs) pelas prefeituras. Aprovado na Comissão Especial da Câmara, o texto estabelece que tais dívidas devem ser quitadas integralmente e dentro do orçamento público.
Especialistas apontam que a medida pode ter impactos relevantes sobre a trajetória fiscal do país, ao comprometer a previsibilidade orçamentária dos entes federativos. “Tenho dificuldade em identificar o fator por trás dessa PEC e, em um ambiente já incerto, isso tem trazido um prêmio a mais para a curva”, afirma André Muller.
O receio é de que a nova regra gere um efeito cascata, pressionando ainda mais o orçamento público federal e estadual, além de criar um precedente perigoso para outras dívidas judiciais.
Impasse sobre IOF reforça tensão
Outro fator que adiciona ruído ao ambiente doméstico é o imbróglio envolvendo a cobrança do Imposto sobre Operações Financeiras (IOF). A audiência de conciliação entre representantes do Executivo e do Legislativo, mediada pelo Supremo Tribunal Federal (STF), terminou sem acordo. Com isso, caberá ao ministro Alexandre de Moraes decidir o futuro da cobrança, após suspender atos dos dois Poderes sobre o imposto.
A indefinição sobre o tema gera apreensão nos mercados, já que o IOF impacta diretamente as operações de crédito e de câmbio, com reflexos na economia real e na arrecadação.
Ofensiva diplomática e comercial do Brasil

Governo se mobiliza após taxas dos EUA
O agravamento das tensões comerciais com os Estados Unidos, após a imposição de taxas sobre produtos brasileiros, também segue no radar. Em Brasília, o vice-presidente e ministro do Desenvolvimento, Indústria, Comércio e Serviços (MDIC), Geraldo Alckmin, se reuniu com líderes do setor industrial e do agronegócio para avaliar os impactos da medida.
Em São Paulo, o governador Tarcísio de Freitas também se envolveu nas tratativas, conversando com o encarregado de negócios da embaixada americana e representantes da indústria paulista. A movimentação demonstra a tentativa do governo brasileiro de mitigar os danos econômicos e diplomáticos causados pelas novas barreiras comerciais.
Expectativas para os próximos dias
Volatilidade deve persistir
Com a curva de juros pressionada pelos dois lados — externo e interno —, a tendência é que a volatilidade se mantenha elevada nos próximos dias. A expectativa do mercado gira em torno de três eixos: a evolução da política monetária nos Estados Unidos, a tramitação da PEC 66 no Congresso e o desfecho da questão do IOF no STF.
Além disso, novos dados econômicos, tanto locais quanto internacionais, poderão modificar o cenário. O Banco Central brasileiro, por sua vez, aguarda um ambiente mais estável para retomar uma trajetória de cortes na Selic, que hoje permanece em patamar elevado.
Conclusão
O fechamento em alta dos juros intermediários e longos nesta terça-feira evidencia a fragilidade do ambiente macroeconômico. A combinação entre incertezas externas — especialmente em relação ao comportamento do Fed e à política comercial americana — e riscos fiscais internos cria um cenário desafiador para a economia brasileira.
Enquanto os investidores exigem prêmios maiores para alongar seus compromissos com o país, autoridades políticas e econômicas tentam articular soluções para evitar uma deterioração mais acentuada do quadro. Até lá, o mercado seguirá reagindo com cautela, refletindo a instabilidade de um mundo em transformação.
Imagem: Freepik/Edição: Seu Crédito Digital




