O primeiro pregão após o primeiro turno das eleições de 2026 provocou uma forte mudança nos preços dos títulos públicos. A queda das taxas de juros futuros fez os papéis prefixados e os títulos do Tesouro IPCA+ se valorizarem rapidamente, criando oportunidades de ganho para quem já carregava esses investimentos.
O movimento ocorreu em meio à forte reação dos mercados ao resultado eleitoral de 4 de outubro. Segundo o TSE, a votação marcou o encerramento do primeiro turno e a preparação para a segunda etapa do pleito, prevista para 25 de outubro.
No mercado financeiro, a reação foi especialmente intensa nos vencimentos mais longos. Levantamentos divulgados nesta semana mostram que o Tesouro IPCA+ 2050, por exemplo, teve uma expressiva valorização com o fechamento das taxas reais. Em determinado momento, o papel passou de uma remuneração próxima de IPCA + 7% para patamares abaixo desse nível.
Isso é importante porque o investidor pode observar uma situação aparentemente contraditória: o título passa a oferecer uma taxa menor para quem compra hoje, mas pode valer muito mais para quem comprou anteriormente com uma taxa elevada.
Leia mais:
Tesouro Direto terá novas regras em março (1)
Por que os títulos públicos subiram tanto?

A explicação está na relação inversa entre taxa de juros e preço dos títulos.
Quando o mercado passa a exigir uma remuneração menor para emprestar dinheiro ao governo, os títulos antigos, adquiridos com taxas maiores, tornam-se mais valiosos. É justamente esse mecanismo que caracteriza a chamada marcação a mercado.
O próprio Tesouro Direto explica que uma redução das taxas praticadas no mercado tende a elevar o preço dos títulos. Em uma eventual venda antes do vencimento, o investidor recebe o valor correspondente à cotação de mercado daquele momento.
Foi exatamente esse mecanismo que potencializou os ganhos dos investidores que haviam comprado títulos prefixados ou IPCA+ quando as taxas estavam mais altas.
Em um levantamento baseado nas taxas de 5 de outubro, por exemplo, o Tesouro IPCA+ 2050 apresentou valorização de 14,8% somente naquele pregão em determinadas simulações, enquanto a valorização acumulada em um mês chegou a 24,9% para uma aplicação realizada quando o papel oferecia taxa mais elevada.
Isso não significa, porém, que todos os investidores tenham obtido exatamente esse retorno. O resultado depende da data da compra, da taxa contratada, do preço de aquisição, do prazo restante e do momento da eventual venda.
Quem comprou Tesouro IPCA+ ou Prefixado deve vender?
Não necessariamente.
A primeira pergunta que o investidor precisa responder é por que comprou aquele título. Quem adquiriu um Tesouro IPCA+ para proteger o patrimônio no longo prazo, financiar a aposentadoria ou alcançar uma meta em uma data específica não precisa vender simplesmente porque o preço subiu.
Se o título permanecer até o vencimento, a rentabilidade contratada no momento da compra será preservada, conforme as regras do papel. As oscilações intermediárias de preço não alteram esse resultado para quem não realiza o investimento antes da data final.
Por outro lado, quem tinha como estratégia justamente aproveitar a valorização provocada pela marcação a mercado pode considerar a realização de parte dos ganhos.
Nesse caso, porém, vender só faz sentido se houver uma finalidade para o dinheiro ou uma nova oportunidade de investimento que justifique a troca.
O perigo de vender um título com taxa alta
Um dos principais riscos neste momento é o investidor confundir valorização patrimonial com dinheiro que necessariamente deveria ser retirado da carteira.
Imagine alguém que comprou um Tesouro IPCA+ quando o mercado oferecia uma taxa real de 7,5% ao ano. Depois da queda dos juros, esse mesmo tipo de papel passa a ser negociado perto de 6,8%.
Ao vender, o investidor pode realizar um ganho expressivo. Entretanto, se decidir comprar novamente um título semelhante, provavelmente encontrará uma remuneração inferior àquela que possuía anteriormente.
Por isso, trocar simplesmente um título por outro igual pode não melhorar a carteira. Além disso, a venda antecipada pode gerar cobrança de Imposto de Renda sobre o rendimento. No Tesouro Direto, a alíquota é regressiva e varia de 22,5% a 15%, conforme o período da aplicação.
O investidor também precisa considerar a taxa de custódia e eventuais custos envolvidos na operação.
E quem tem títulos próximos do vencimento?

A situação pode ser diferente para títulos com vencimento relativamente próximo.
Quanto menor o prazo restante, menor tende a ser a sensibilidade do preço do título às mudanças nas taxas de juros. Isso significa que o impacto da marcação a mercado costuma ser mais limitado conforme a data de vencimento se aproxima.
Para esses investidores, uma decisão relevante é avaliar o chamado risco de reinvestimento.
Se o título estiver perto de vencer, o dinheiro será devolvido em breve. O problema é que, quando chegar o momento de reaplicar, as taxas disponíveis podem estar menores do que aquelas encontradas atualmente.
Assim, antecipar uma realocação pode ser considerado em determinadas situações, especialmente quando o investidor consegue trocar um papel próximo do vencimento por outro que ainda ofereça uma taxa considerada atrativa para seu objetivo.
Não existe, contudo, garantia de que os juros continuarão caindo. Inflação, contas públicas, atividade econômica, cenário internacional e decisões do Banco Central podem alterar rapidamente as expectativas do mercado.
Imagem gerada por IA
