A Medida Provisória (MP) 1304/2025, publicada pelo governo federal, reacendeu o debate sobre os subsídios cruzados no setor elétrico e os impactos diretos na conta de luz dos consumidores brasileiros.
Teto da CDE com critério errado pode ser contraproducente, alerta Abrace
Nova MP tenta reduzir custos da energia em 2025 ao limitar subsídios via CDE, mas teto de R$ 49,2 bi ainda levanta preocupações no setor elétrico.
Com o objetivo de mitigar os altos custos associados às contratações compulsórias no setor, especialmente os “jabutis” incluídos pelo Congresso no projeto das eólicas offshore, a proposta tenta impor limites mais claros ao crescimento da Conta de Desenvolvimento Energético (CDE).
Contudo, especialistas do setor apontam preocupações quanto à forma como o teto da CDE está sendo calculado e à possibilidade de ampliação dos subsídios por meio da inclusão de receitas adicionais que não são, de fato, pagas diretamente pelos consumidores.
O total da CDE neste ano será de R$ 49,2 bilhões, e esse valor servirá como referência para o teto de crescimento futuro.
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A CDE é um fundo setorial criado para garantir o custeio de políticas públicas no setor elétrico, como a universalização do serviço, incentivos a fontes renováveis, tarifas subsidiadas para determinados consumidores e compensações tarifárias em situações excepcionais.
Financiamento da CDE
A CDE é alimentada principalmente por:
- Encargos pagos pelos consumidores via tarifa;
- Recursos do orçamento da União;
- Multas e outras receitas regulatórias arrecadadas pela Aneel.
Em teoria, o valor arrecadado deveria ser utilizado de forma equilibrada, evitando onerar demais os consumidores residenciais, comerciais e industriais. No entanto, o crescimento contínuo das despesas da CDE tem levantado alertas sobre sua sustentabilidade e transparência.
O teto de R$ 49,2 bilhões e as críticas do setor
A MP 1304/25 propõe que o valor de referência para o limite da CDE seja o total da despesa bruta anual — R$ 49,2 bilhões em 2025. No entanto, especialistas defendem que esse teto deveria considerar apenas as cotas de uso (CDE-Uso) efetivamente pagas pelos consumidores.
Problemas do cálculo atual
Ao considerar a CDE total, que inclui receitas de multas e outras fontes, o governo amplia artificialmente o teto. Isso abre margem para a manutenção ou até expansão dos subsídios embutidos na conta de luz.
A Abrace Energia, associação que representa grandes consumidores industriais, alertou em relatório que:
“Mesmo considerando que a MP 1304/25 não traz previsão de correção monetária do limite das cotas e que o efeito da inflação e o crescimento de mercado contribuirão para diluir o valor das cotas com o passar dos anos, há receio quanto aos impactos desse limite no curto prazo.”
Jabutis, vetos e custos bilionários
Um dos pontos mais polêmicos da MP está relacionado à tentativa do governo de conter os chamados “jabutis” — trechos legislativos incluídos pelo Congresso em projetos de lei que geram obrigações e custos elevados para o setor.
O caso das eólicas offshore
No projeto de regulamentação da energia eólica no mar (offshore), o Congresso havia embutido dispositivos que determinavam contratações compulsórias de usinas, inclusive térmicas, gerando custos adicionais ao sistema.
O presidente Luiz Inácio Lula da Silva vetou esses dispositivos, mas parte dos vetos foi derrubada pelo Congresso Nacional em junho de 2025. Segundo a Abrace, os dispositivos que tiveram o veto rejeitado podem gerar um custo de R$ 199 bilhões ao longo dos anos. Há ainda outros 16 itens vetados que, caso sejam também derrubados, podem elevar os custos em mais R$ 247 bilhões.
O que a MP 1304/25 tenta fazer
A nova medida provisória traz diretrizes para as contratações compulsórias, com o objetivo de mitigar os custos excessivos:
- Proíbe a imposição de obrigações de contratação sem planejamento da EPE (Empresa de Pesquisa Energética);
- Exige análise prévia de impacto tarifário pela Aneel;
- Impõe critérios técnicos e econômicos mais rigorosos para inclusão de projetos nos leilões.
A estimativa é que a aplicação dessas novas regras possa gerar uma economia de cerca de R$ 110 bilhões nos próximos anos, principalmente em relação à contratação compulsória de usinas térmicas.
O risco de perpetuar subsídios disfarçados
O que são subsídios cruzados?
Subsídios cruzados ocorrem quando um grupo de consumidores paga parte da conta de outro grupo. Um exemplo é o financiamento das tarifas reduzidas da agricultura irrigada e da energia para baixa renda, que são custeadas pelos demais consumidores.
Por que isso preocupa?
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Quando o valor total da CDE cresce, mesmo que parte das receitas venha de fontes acessórias, o impacto recai de forma desproporcional sobre os consumidores que já pagam tarifas elevadas. A continuidade desse modelo tende a:
- Penalizar consumidores residenciais e pequenas empresas;
- Reduzir a competitividade industrial;
- Aumentar o risco de inadimplência e judicialização.
A visão da indústria e dos consumidores
A Abrace, que representa grandes consumidores, tem sido uma das vozes mais atuantes no debate sobre a CDE. Segundo a entidade, é necessário estabelecer um limite realista e baseado nas cotas de uso, não na soma bruta das despesas.
Além disso, defende a revisão dos mecanismos de subsídio e a exclusão de projetos não prioritários da estrutura tarifária.
Impacto para o consumidor comum
O aumento da CDE pressiona diretamente as tarifas residenciais, que já vêm acumulando reajustes acima da inflação em muitos estados. Segundo dados da Aneel, em 2024 os reajustes médios ultrapassaram 9% em boa parte das distribuidoras.
Se os custos da CDE continuarem crescendo, os consumidores podem sofrer novos aumentos, independentemente do consumo individual.
O que esperar para os próximos anos

A MP 1304/25 será analisada pelo Congresso e pode sofrer alterações. A expectativa do governo é de que as novas regras contribuam para a racionalização dos subsídios e para a redução de custos do setor como um todo.
No entanto, o sucesso da proposta dependerá da forma como ela será regulamentada e aplicada, especialmente no que diz respeito à fiscalização da Aneel e ao controle do crescimento das despesas do fundo setorial.
Considerações finais
A Conta de Desenvolvimento Energético se tornou um dos principais pontos de pressão sobre a conta de luz do consumidor brasileiro. Com a nova MP, o governo busca frear os subsídios disfarçados e reorganizar os custos do setor.
Contudo, a forma como o teto da CDE foi definido gera desconfiança entre os especialistas. A inclusão de receitas não pagas diretamente pelo consumidor no cálculo de referência pode ampliar o espaço para novos gastos e mascarar o real impacto tarifário.
O debate agora se transfere para o Congresso, que terá a responsabilidade de analisar a MP, avaliar seus dispositivos e, se necessário, propor ajustes que garantam maior equidade e transparência na estrutura de financiamento do setor elétrico nacional.
