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Grupo investigado por fraude no INSS relata contato com ex-ministro para obter 1º acordo

Avatar de Jéssica Cassana Jéssica Cassana · · 8 min de leitura
INSS FRAUDE

Novas imagens obtidas no curso das investigações sobre a fraude envolvendo descontos indevidos em aposentadorias e pensões do Instituto Nacional do Seguro Social (INSS) mostram dois empresários investigados no caso relatando como teriam recorrido a um ex-ministro da Previdência para viabilizar contratos com o órgão.

As declarações aparecem em gravações das câmeras de segurança instaladas na residência do empresário Anderson Cordeiro de Vasconcelos. O material foi registrado em 22 de maio de 2025, aproximadamente um mês depois da deflagração da Operação Sem Desconto, investigação da Polícia Federal que apura um esquema de descontos associativos não autorizados em benefícios previdenciários.

As informações foram divulgadas pelo Estadão e envolvem Anderson e Igor Dias Delecrode, dois empresários que fazem parte do grupo informalmente chamado de “golden boys” nas investigações.

Segundo a reportagem, os dois aparecem conversando sobre a atuação de Wilson Roberto Gomes, pai de Felipe Macedo Gomes, outro empresário investigado, e sobre a relação dele com o então ex-ministro da Previdência José Carlos Oliveira.

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O que aparece nas gravações

Nas imagens, Delecrode relata que Wilson teria sido responsável por estabelecer o contato que possibilitou a aproximação com Oliveira.

Durante a conversa, Delecrode reproduz uma suposta fala de Wilson sobre a negociação e afirma que ele teria dito que foi responsável por conseguir o negócio e por apresentar os empresários ao ex-ministro.

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

Anderson também menciona uma frase que teria sido dita por Wilson durante a aproximação com Oliveira: “Faz pro meu filho como se fosse pra mim”.

Em outro momento, Anderson afirma que não sabia de determinados acontecimentos e menciona a possibilidade de entrega de um helicóptero ao chamado “big boss”. A gravação, segundo as informações divulgadas, não esclarece a quem exatamente o apelido faria referência.

As falas fazem parte de um conjunto de elementos que está sendo analisado pelas autoridades responsáveis pela investigação. Por si só, uma declaração registrada em vídeo não comprova que os fatos narrados tenham efetivamente ocorrido da maneira descrita.

Quem são os chamados “golden boys”

Anderson Cordeiro de Vasconcelos e Igor Dias Delecrode integram um grupo de empresários jovens que passou a ser chamado de “golden boys” no contexto das investigações.

Eles estiveram à frente de associações que mantinham acordos de cooperação técnica com o INSS. Entre as entidades citadas estão a Amar Brasil Clube de Benefícios, a Master Prev, a Associação de Amparo ao Aposentado e Pensionista (Aasap) e a Associação Nacional de Defesa dos Direitos dos Aposentados e Pensionistas (Andapp).

Esses acordos permitiam que as entidades realizassem descontos diretamente nos benefícios previdenciários de aposentados e pensionistas que autorizassem a cobrança de mensalidades.

A investigação da Polícia Federal apura, entretanto, a existência de descontos que teriam sido realizados sem autorização dos beneficiários.

Como funcionava o esquema investigado

O mecanismo sob investigação envolvia entidades associativas que ofereciam serviços aos aposentados e pensionistas e conseguiam autorização para realizar cobranças diretamente nos benefícios pagos pelo INSS.

O problema identificado pelas autoridades está na suspeita de que parte dessas cobranças não teria sido autorizada pelos segurados.

A Operação Sem Desconto foi deflagrada em abril de 2025 pela Polícia Federal e pela Controladoria-Geral da União (CGU). A investigação apontou suspeitas de um esquema bilionário envolvendo descontos associativos realizados entre 2019 e 2024.

A apuração também identificou movimentações financeiras e relações entre entidades, empresas e pessoas investigadas.

Contratos começaram em governos diferentes

Segundo as informações divulgadas pelo Estadão, a Amar Brasil conseguiu seu primeiro acordo de cooperação técnica com o INSS durante o período em que José Carlos Oliveira esteve relacionado à estrutura da Previdência.

O acordo teria sido assinado pelo então diretor Edson Yamada, que também é citado nas investigações.

Ainda de acordo com a reportagem, a Amar Brasil teria movimentado aproximadamente R$ 324 milhões por meio dos descontos realizados durante o período analisado.

Outros três acordos envolvendo entidades relacionadas ao grupo foram firmados posteriormente, já durante o governo do presidente Luiz Inácio Lula da Silva.

Essas entidades teriam realizado descontos que, somados, alcançaram cerca de R$ 376 milhões, conforme os dados apresentados na reportagem.

É importante separar, porém, a existência dos contratos da eventual responsabilidade criminal dos envolvidos. A assinatura de um acordo de cooperação técnica com o INSS, isoladamente, não demonstra que uma pessoa tenha participado de fraudes ou recebido vantagens ilícitas.

Transferências financeiras também entraram na investigação

As apurações sobre o grupo também encontraram movimentações financeiras envolvendo pessoas relacionadas ao caso.

Segundo o levantamento divulgado pelo Estadão, Felipe Macedo Gomes teria transferido R$ 8 mil para José Carlos Oliveira como pessoa física.

Oliveira também teria recebido R$ 12,5 mil de João Carlos Camargo Júnior, empresário do setor de alfaiataria que, segundo a reportagem, manteve movimentações financeiras com integrantes do grupo investigado.

A existência de uma transferência financeira, entretanto, não determina por si só a natureza ou a finalidade do pagamento. A interpretação dessas operações depende do contexto e das demais provas reunidas no inquérito.

Ex-ministro também é investigado

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

José Carlos Oliveira também aparece entre os investigados no caso.

Ele já foi indiciado por suspeita relacionada ao recebimento de propina de outra entidade investigada, a Confederação Nacional dos Agricultores Familiares e Empreendedores Familiares Rurais do Brasil (Conafer).

O inquérito ainda estava em fase de conclusão, segundo as informações apresentadas na reportagem.

Em setembro de 2026, o ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (STF), determinou a retirada da tornozeleira eletrônica que havia sido imposta a Oliveira.

A mudança na medida cautelar não significa arquivamento da investigação nem estabelece conclusão sobre a responsabilidade do investigado.

Empresários também foram alvo de medidas cautelares

Os chamados “golden boys” não chegaram a ser presos no âmbito das medidas citadas no material.

Em abril de 2026, porém, André Mendonça determinou, a pedido da Polícia Federal, que os empresários passassem a utilizar tornozeleiras eletrônicas.

A medida faz parte das cautelares adotadas durante a investigação e não equivale a uma condenação.

O caso continua sendo apurado pelas autoridades, que precisam reunir elementos suficientes para esclarecer a participação individual de cada investigado nas possíveis irregularidades.

O que dizem os investigados

As defesas contestam pontos centrais da reportagem.

Os advogados Rogério Cury, Daniela Cury, Levy Magno e Victor Fanti, que representam Anderson, Igor e Felipe, afirmaram ao Estadão desconhecer a existência, a autenticidade e a integridade dos vídeos.

No caso de Anderson, a defesa também questionou a forma como as imagens teriam sido obtidas e afirmou que, caso existam, os vídeos teriam sido obtidos de maneira ilícita.

Wilson Roberto Gomes também nega envolvimento. Seu advogado, Fernando José da Costa, afirmou que o cliente nunca teve relação com as associações mencionadas no caso.

A defesa de José Carlos Oliveira igualmente rejeita as acusações. Segundo o posicionamento apresentado, as afirmações feitas pelos empresários seriam infundadas e Oliveira não teria mantido relacionamento particular ou profissional com as pessoas mencionadas nas gravações.

A defesa também sustenta que o ex-ministro não tinha ingerência sobre os processos de celebração dos acordos de cooperação técnica.

Investigação ainda precisa esclarecer as relações

As novas gravações acrescentam mais um elemento à investigação sobre a rede de entidades que realizou descontos em benefícios do INSS.

O conteúdo atribuído aos empresários levanta questionamentos sobre como determinadas associações conseguiram estabelecer relações com o órgão e sobre a participação de intermediários na obtenção dos acordos.

Ainda assim, as declarações registradas nas imagens precisam ser confrontadas com documentos, registros financeiros, contratos, mensagens e outros elementos reunidos pela Polícia Federal.

Também será necessário esclarecer a finalidade das transferências financeiras mencionadas e se elas possuem relação com a celebração ou manutenção dos acordos de cooperação.

Enquanto o inquérito não for concluído e eventuais processos judiciais não produzirem decisões definitivas, os envolvidos permanecem na condição de investigados.

O caso ganhou grande dimensão justamente pelo volume de recursos envolvido e pelo impacto dos descontos sobre aposentados e pensionistas. A Operação Sem Desconto colocou sob investigação um sistema que permitia a cobrança direta de mensalidades em benefícios previdenciários e revelou suspeitas de que parte dos segurados não teria autorizado as operações.

As novas imagens agora passam a integrar esse conjunto de elementos que busca esclarecer como as entidades chegaram ao sistema de descontos, quem participou das articulações e se houve pagamento de vantagens indevidas para facilitar os contratos.

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