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Xiaomi perde 34% no Brasil após crise atingir cadeia de componentes

Avatar de Jéssica Cassana Jéssica Cassana · · 9 min de leitura
XIAOMI CRISE

O mercado brasileiro de smartphones atravessa um dos períodos mais difíceis dos últimos anos, mas a desaceleração não está atingindo todas as fabricantes da mesma maneira. Enquanto Samsung e Apple conseguiram ampliar suas remessas, a Xiaomi registrou uma queda de 34% no primeiro semestre de 2026 em comparação com o mesmo período do ano passado.

Os números fazem parte de um levantamento da Counterpoint Research sobre o mercado nacional. No total, as remessas de smartphones no Brasil diminuíram 11% entre janeiro e junho, refletindo uma combinação de custos maiores de componentes, redução da produção doméstica e consumidores mais cautelosos antes de trocar de celular.

Apesar da forte retração, a Xiaomi continua ocupando a terceira posição entre as maiores fabricantes de smartphones do país. O problema para a companhia chinesa é que a distância para as líderes permanece elevada ao mesmo tempo em que novos concorrentes disputam justamente o público interessado em aparelhos intermediários e de melhor custo-benefício.

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Xiaomi perde 34% das remessas no Brasil

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Imagem: Reprodução/Seu Crédito Digital

A Xiaomi foi uma das fabricantes mais atingidas pela mudança no mercado brasileiro durante o primeiro semestre. Segundo a Counterpoint, suas remessas caíram 34% na comparação anual, mesmo com a empresa conseguindo preservar a terceira colocação no ranking nacional.

O cenário resulta de uma combinação de fatores. A consultoria aponta menor volume global destinado ao Brasil, aumento da preferência por aparelhos fabricados localmente e competição crescente de outras fabricantes chinesas.

Esse último ponto tornou-se particularmente importante. Honor, Oppo, Realme e Jovi passaram a disputar segmentos nos quais Xiaomi e suas submarcas encontraram espaço nos últimos anos, principalmente entre consumidores que procuram celulares intermediários com especificações competitivas.

A Xiaomi também enfrenta uma particularidade no mercado nacional: a ausência de fabricação local. Enquanto rivais conseguem aproveitar produção ou montagem no Brasil para reduzir parte dos custos tributários e logísticos, grande volume de aparelhos da marca ainda depende de importações.

A Counterpoint destaca ainda a relevância do chamado mercado cinza, formado por aparelhos que chegam ao país fora dos canais oficiais de distribuição. Esse modelo ajudou a popularizar celulares Xiaomi por preços menores, mas também cria diferenças em garantia, assistência técnica e disponibilidade em comparação com produtos vendidos oficialmente.

Crise das memórias encarece smartphones mais baratos

O problema da Xiaomi não ocorre apenas no Brasil. A indústria global de celulares vem enfrentando uma pressão significativa provocada pela alta dos preços de componentes, principalmente memórias DRAM e NAND.

Dados da própria Counterpoint mostram que os preços de memória para smartphones chegaram a subir cerca de 300% na comparação anual durante o segundo trimestre de 2026. O encarecimento atingiu principalmente fabricantes com forte presença nas categorias de entrada e intermediária.

Isso acontece porque celulares baratos trabalham com margens menores. Quando memória, armazenamento e outros componentes ficam mais caros, há menos espaço para absorver o aumento sem repassar parte dele ao preço final.

Fabricantes com maior presença entre aparelhos premium conseguem lidar de maneira diferente com essa pressão, já que o custo dos componentes representa proporcionalmente uma parcela menor do preço total do produto.

O cenário ajuda a explicar por que Xiaomi e outras marcas voltadas aos segmentos de entrada e intermediário enfrentaram dificuldades maiores em 2026.

Samsung mantém liderança no mercado brasileiro

Enquanto a Xiaomi perdeu terreno, a Samsung conseguiu fortalecer sua posição no Brasil.

A sul-coreana permaneceu na liderança, com aproximadamente 42% das remessas de smartphones registradas durante o primeiro semestre. Logo atrás aparece a Motorola, com 31%. Juntas, as duas empresas representam cerca de 73% do mercado nacional.

A Samsung também registrou crescimento de aproximadamente 10% na comparação com o primeiro semestre de 2025. Entre os fatores apontados pela Counterpoint estão a disponibilidade de estoques, descontos agressivos e a renovação de diferentes linhas da fabricante.

A ampla presença da companhia em lojas físicas também continua sendo uma vantagem importante. Diferentemente de marcas que dependem principalmente do comércio eletrônico, a Samsung mantém distribuição em grandes varejistas, operadoras e lojas próprias em praticamente todo o país.

Essa capilaridade facilita principalmente a venda para consumidores que preferem comprar smartphones presencialmente ou parcelar o aparelho no varejo tradicional.

Motorola continua forte e cresce mesmo com mercado menor

A Motorola aparece na segunda posição e continua tendo no Brasil um de seus mercados mais importantes da América Latina.

A fabricante registrou avanço de cerca de 1% nas remessas durante o primeiro semestre, mesmo diante da queda de 11% registrada pelo mercado nacional como um todo.

A empresa manteve forte presença no varejo e renovou modelos das famílias Moto G, Edge e Razr, além de recorrer a promoções e campanhas para aumentar sua exposição.

Embora o crescimento seja bem menor do que o observado em Samsung e Apple, conseguir ampliar o volume em um mercado em retração representa um resultado relevante.

Samsung e Motorola também ocupam posições particularmente fortes entre os celulares de entrada e intermediários, justamente as categorias responsáveis pela maior parte das vendas brasileiras.

Apple avança enquanto mercado de celulares encolhe

A Apple apresentou um movimento praticamente oposto ao da Xiaomi durante o primeiro semestre de 2026.

As remessas de iPhones cresceram cerca de 19% na comparação anual, enquanto a participação da fabricante no mercado brasileiro também aumentou.

O desempenho foi impulsionado pela procura pela geração iPhone 17 e pela continuidade das vendas de aparelhos anteriores, como a linha iPhone 16. Descontos aplicados a modelos de gerações passadas também ajudaram a empresa a alcançar consumidores que não necessariamente comprariam o lançamento mais caro.

Outro fator que diferencia a Apple é sua posição no segmento premium.

Segundo a Counterpoint, a fabricante responde por cerca de 63% do mercado brasileiro de smartphones acima de US$ 600, enquanto a Samsung aparece com aproximadamente 34% nessa faixa.

Esse posicionamento diminui a exposição da Apple à disputa pelo celular mais barato, segmento no qual a alta dos componentes tem causado maior impacto.

Novas marcas chinesas aumentam disputa por consumidores

Mesmo com a queda da Xiaomi, isso não significa que fabricantes chinesas estejam abandonando o mercado brasileiro.

Nos últimos anos, marcas como Honor, Oppo, Realme e Jovi ampliaram suas operações no país e passaram a disputar espaço com fabricantes já estabelecidas.

Algumas delas apostam em acordos de produção local, parcerias com redes varejistas, garantias estendidas e promoções agressivas para conquistar consumidores.

A presença de produção nacional é particularmente relevante porque pode reduzir custos relacionados à importação e facilitar a distribuição.

Ainda assim, o grupo de fabricantes chinesas perdeu participação total no primeiro semestre. Segundo a Counterpoint, a fatia combinada dessas empresas passou de aproximadamente 26% no primeiro semestre de 2025 para 20% no mesmo período de 2026.

Ou seja, existe mais concorrência entre essas empresas, mas elas também estão disputando uma parcela menor de um mercado que encolheu.

Celulares de até R$ 1.250 dominam vendas no Brasil

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Imagem: Reprodução / Seu Crédito Digital

O preço continua sendo um dos fatores determinantes na escolha de um smartphone pelo consumidor brasileiro.

Aparelhos vendidos por até US$ 249, faixa equivalente a aproximadamente R$ 1.250 dependendo da cotação utilizada, corresponderam a cerca de 78% das remessas no primeiro semestre.

O dado mostra por que a disputa nos segmentos de entrada e intermediário permanece tão importante para Samsung, Motorola, Xiaomi e outras fabricantes.

Ao mesmo tempo, os smartphones extremamente baratos, abaixo de US$ 99, vêm perdendo relevância.

Uma das explicações apontadas pela Counterpoint é que parte dos consumidores brasileiros está preferindo pagar um pouco mais para comprar aparelhos com especificações melhores, principalmente armazenamento, memória, câmeras e suporte a redes 5G.

Essa mudança abre espaço para celulares intermediários mais acessíveis e pode ajudar fabricantes que consigam oferecer diferenciais sem elevar excessivamente os preços.

Alta dos componentes pode pressionar preços dos celulares

A situação internacional ainda representa um risco para o mercado brasileiro.

No segundo trimestre de 2026, as remessas globais de smartphones caíram 11%, atingindo o menor nível para um segundo trimestre desde 2013. A falta de componentes de memória foi apontada como uma das principais responsáveis pela retração.

A expectativa é que essa pressão não desapareça imediatamente.

Estimativas divulgadas pela Counterpoint indicam que as dificuldades relacionadas ao fornecimento de memória podem continuar influenciando a indústria até o segundo semestre de 2027.

Para o consumidor brasileiro, isso significa que a combinação de câmbio, impostos, disponibilidade de componentes e estratégias das fabricantes continuará influenciando os preços das próximas gerações.

Mercado brasileiro pode terminar 2026 com forte retração

Os primeiros seis meses do ano já deixaram claro que 2026 será um período difícil para o setor de smartphones.

A Counterpoint avalia que o cenário pode piorar no segundo semestre e levar o Brasil a terminar o ano com uma contração de dois dígitos nas remessas.

O comportamento das fabricantes, entretanto, mostra que essa queda não será distribuída igualmente.

Samsung e Motorola continuam controlando quase três quartos do mercado, enquanto a Apple avança no segmento premium. A Xiaomi, por outro lado, precisa lidar simultaneamente com custos maiores, ausência de produção local e aumento da competição entre fabricantes chinesas.

Para os consumidores, a disputa pode ter dois efeitos opostos. A maior concorrência incentiva promoções e aparelhos com especificações melhores, mas o encarecimento global dos componentes dificulta a manutenção dos preços mais baixos.

O desempenho do segundo semestre deverá mostrar se a Xiaomi consegue interromper a queda e recuperar parte do espaço perdido ou se o avanço de novas marcas chinesas continuará fragmentando um dos segmentos mais disputados do mercado brasileiro.

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