As ações do Banco do Brasil (BBAS3) registraram uma das maiores quedas do ano na terça-feira, 19 de agosto de 2025, em meio a um cenário de tensão institucional e temor de retaliações internacionais. A decisão do ministro Flávio Dino, do Supremo Tribunal Federal (STF), que limitou a aplicação automática de sanções impostas por leis estrangeiras no Brasil, como a Lei Magnitsky, teve efeitos imediatos sobre o mercado financeiro.
Banco do Brasil (BBAS3) registra queda de 6% com receio da Lei Magnitsky
Ações do Banco do Brasil (BBAS3) caem após decisão do STF, e setor bancário perde R$ 41 bi em meio à tensão Brasil-EUA.
A queda de 6,03% nos papéis do BBAS3, que fecharam o dia cotados a R$ 19,80 na B3, representa uma perda de R$ 7,278 bilhões em valor de mercado. O movimento foi acompanhado por uma retração de 2,1% no Ibovespa, que refletiu o clima de desconfiança entre investidores e o temor de que a tensão com os Estados Unidos ganhe novos contornos.
Leia mais:
BBAS3 registra baixa no pregão após balanço do segundo trimestre

Reação em cadeia: bancos puxam queda do Ibovespa
Queda generalizada no setor financeiro
O mau humor não se restringiu ao Banco do Brasil. Grandes instituições financeiras também encerraram o pregão em queda:
- Santander (SANB11): -4,88%, a R$ 25,94
- BTG Pactual (BPAC11): -3,48%, a R$ 43,50
- Bradesco (BBDC4): -3,43%, a R$ 15,79
- Itaú (ITUB4): -3,63%, a R$ 36,31
Segundo analistas, a decisão de Dino foi interpretada como uma tentativa de blindar o ministro Alexandre de Moraes das sanções impostas pelos Estados Unidos, ao estabelecer que leis estrangeiras não podem ser aplicadas automaticamente no Brasil sem decisão judicial.
Essa postura gerou uma percepção de insegurança jurídica, sobretudo entre instituições com exposição internacional, como o Banco do Brasil e o Itaú, que mantêm operações relevantes em território norte-americano.
Entenda a Lei Magnitsky e sua aplicação ao Brasil
O que é a Lei Magnitsky?
A Lei Magnitsky é uma legislação dos EUA que permite sanções econômicas contra indivíduos acusados de corrupção ou violações de direitos humanos. Em julho de 2025, os EUA incluíram Alexandre de Moraes em sua lista de sanções, proibindo movimentações financeiras em solo americano e bloqueando seus bens e contas em bancos que operam nos EUA.
A decisão causou forte repercussão política no Brasil, e o ministro Flávio Dino respondeu com uma liminar proibindo a aplicação imediata de tais sanções no país, exigindo que qualquer medida do tipo seja submetida à análise do Judiciário brasileiro.
Efeitos imediatos sobre os bancos
A liminar afetou diretamente bancos com operações nos EUA, como o Banco do Brasil, por potencialmente colocá-los em desacordo com regras de compliance internacional. O temor é de que tais instituições possam ser alvos de sanções secundárias, como:
- Proibição de operar com o sistema Swift.
- Restrições a transações em dólar.
- Perda de credibilidade junto a investidores internacionais.
Impacto financeiro bilionário
Valor de mercado evaporado
A forte desvalorização dos bancos brasileiros resultou em uma perda combinada de R$ 41,3 bilhões em valor de mercado, segundo levantamento da Bloomberg.
| Banco | Perda em valor de mercado |
|---|---|
| Itaú | R$ 14,71 bilhões |
| BTG Pactual | R$ 10,747 bilhões |
| Banco do Brasil | R$ 7,278 bilhões |
| Bradesco | R$ 5,4 bilhões |
| Santander | R$ 3,2 bilhões |
O Banco do Brasil foi o que apresentou a maior queda percentual, refletindo seu grau de exposição a operações públicas e internacionais.
BBAS3: combinação de riscos pressiona ações

Lucro abaixo do esperado
Além do impacto da Lei Magnitsky, o BBAS3 sofre com fundamentos negativos. No segundo trimestre de 2025, o banco registrou lucro líquido de R$ 3,5 bilhões — resultado 24% inferior às projeções do BTG Pactual.
O desempenho foi puxado por alta inadimplência no agronegócio, setor no qual o Banco do Brasil é líder em financiamento.
Redução no pagamento de dividendos
Outro fator que desanimou investidores foi a suspensão de dividendos extraordinários, com o payout reduzido de 40% para 30%, em movimento de cautela financeira.
Queda acumulada no ano
Com o pregão desta terça-feira, as ações do BBAS3 acumulam uma desvalorização de 23,29% em 2025, tornando-se um dos piores desempenhos entre os bancos listados no Ibovespa.
Repercussões no câmbio e na curva de juros
Dólar em alta
O dólar comercial avançou 1,19% e encerrou o dia cotado a R$ 5,4993, muito próximo do patamar psicológico de R$ 5,50. A alta reflete a fuga de capital estrangeiro diante da instabilidade institucional e do aumento no risco regulatório.
Juros futuros sobem
A curva de juros também subiu, com contratos para 2026 e 2031 refletindo maior prêmio de risco. Investidores passaram a precificar uma elevação da volatilidade no médio prazo, considerando o ambiente político e a possibilidade de repercussões diplomáticas com os EUA.
Análise de mercado e repercussões
Avaliação dos analistas
Rafael Passos, analista da Ajax Investimentos, avaliou que o episódio representa um divisor de águas:
Gostou? Siga o Seu Crédito Digital no Google e receba notícias de benefícios, INSS e crédito em primeira mão.
+311 mil seguidores
“A tentativa do STF de ignorar unilateralmente uma sanção imposta por um parceiro comercial importante como os EUA pode ter consequências profundas. O risco regulatório saltou de patamar.”
Já Étore Sanchez, economista-chefe da Ativa Investimentos, destacou que a escalada política tende a elevar o risco-Brasil, afastando investidores e encarecendo o custo de capital.
Revisão de recomendações
Analistas da XP Investimentos revisaram o preço-alvo do BBAS3 para R$ 32, mantendo recomendação neutra, citando a alta volatilidade e a revisão do guidance para 2025.
O que dizem os bancos
Banco do Brasil
Em nota, o Banco do Brasil informou estar preparado para “lidar com temas complexos e sensíveis no ambiente regulatório global”, mas não detalhou como irá conciliar possíveis exigências dos EUA com a decisão do STF.
Bradesco
Durante conferência de resultados, o CEO Marcelo Noronha informou que o banco contratou consultores especializados para entender as implicações jurídicas e garantir que o Bradesco esteja em conformidade com as legislações locais e internacionais.
Itaú
O Itaú Unibanco destacou que respeita e cumpre todas as normas das jurisdições em que opera, inclusive em relação a embargos e sanções internacionais.
Medidas em avaliação pelo setor bancário
Os bancos brasileiros iniciaram movimentos preventivos para mitigar os impactos da decisão do STF. Entre as ações consideradas estão:
- Contratação de escritórios jurídicos especializados em direito internacional.
- Reestruturação de operações em dólar.
- Avaliação de exposição em clientes listados sob sanções.
- Monitoramento de comunicados da OFAC (órgão americano responsável por sanções).
Tensão diplomática em escalada

Declarações de Trump elevam incerteza
A tensão entre Brasil e Estados Unidos aumentou após declarações do ex-presidente Donald Trump, que sugeriu sanções econômicas adicionais contra instituições brasileiras que “tentem contornar a legislação americana”.
O temor de uma retaliação mais ampla alimenta a volatilidade e reforça a cautela dos investidores institucionais.
Imagem: Freepik/ Edição: Seu Crédito Digital
Pode ser do seu interesse:
