Racismo: Advogada negra fecha conta no Nubank: ‘quem nivela por baixo não merece meu CPF’

Uma advogada negra se indignou com a fala de Cristina Junqueira no Programa Roda Viva e decidiu fechar a sua conta no Nubank.

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Advogada negra fecha conta no Nubank e diz: “quem nivela por baixo não merece meu CPF”. Tania, em entrevista ao IG, disse que nasceu na periferia do Jabaquera, na zona sul de São Paulo. O seu sonho de infância, revela, era trabalhar no Itaú e se realizou em 1986, depois de trabalhar como faxineira.

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Tania Sanches é profissional da área financeira e fez um post sobre a declaração dada pela cofundadora da empresa – sobre contratação de pessoas negras – que gerou quase 5 mil reações no LinkedIn.

“Sofri muito racismo na rede, tive que cancelar os comentários no post. Sou uma mulher preta de pele clara, com 55 anos, head-trainer, advogada. Tenho personalidade, sei bem o que eu quero. E não quero viver e ter os meus netos num país racista”, diz Tania Sanches.

Nele, Tania relatava o cancelamento da conta que tinha no Nubank depois que Cristina Junqueira, cofundadora do banco, disse no programa Roda Viva que é difícil contratar profissionais negros para grandes cargos.” Quem nivela meu povo por baixo não merece meu CPF”, escreveu Tania,

“Meus pais vieram do Rio Grande do Norte e não tiveram condições para me dar estudos”, conta ela. Mas, pela boa caligrafia e escrita, fruto do hábito da leitura, ela conquistou a vaga no maior banco privado do país.

Entretanto, ela contou que devido a boa caligrafia e escrita, fruto do hábito da leitura, ela conquistou a vaga no maior banco privado do país, sendo uma das três pessoas contratadas no processo seletivo que participou.

Desse modo, Tania se inseriu no mundo financeiro como assistente de administração chegando ao cargo de operadora de ações de debênture. Aos 30 anos terminou o ensino médio e, em seguida, cursou direito na Universidade São Judas e fez pós-graduação em direito empresarial e previdenciário. Quando atingiu um alto patamar de carreira, ela conta que sofreu racismo.

“Um dia, eu ganhei muita grana numa operação. Eu já tinha fechado a operação, me levantei, e um colega falou em voz alta na mesa: “como uma negrinha dessa ganhou essa operação?”. O diretor defendeu Tania e disse na época falou para o operador: “não fale assim com a Tania. Ela não merece, é uma das melhores operadoras que a gente tem aqui”. Foi a resposta do meu diretor”, recorda Tania.

Quando assistiu Cristina Junqueira do Nubank sendo entrevistada no Programa Roda Vida, e dizendo que não daria para “nivelar por baixo”, se referindo a dificuldade em contratar pessoas negras para grandes cargos no banco, a advogada relembrou o episódio de racismo que sofreu.

“A Cristina Junqueira só me fez reviver o que eu tinha passado. Naquela época, eu não estava tão empoderada da pauta racial para reclamar na mesa. Naquela época, eu não dei a resposta, foi outra pessoa. Mas agora, eu lembrei que eu tinha conta no Nubank. Parece que foi uma faca em mim. Quer dizer, nós não temos condições de trabalhar no Nubank? Eu conheço tanta preta com mestrado, doutorado, três línguas, como não consegue trabalhar no Nubank?”, questiona.

“Obviamente, foi um ato de falta de letramento racial com um racismo estrutural. Falta letramento racial para todo mundo, para todos nós. Nós estamos num país machista, sexista, que não reconhece o povo negro, não dá oportunidade. Estamos começando essa revolução. Eu fui uma das primeiras mulheres pretas a estar no LinkedIn falando sobre racismo, sobre as minhas dores”.

Na rede social Tania apresenta o seu vasto currículo, que atualmente é focado em treinamento e desenvolvimento humano. Além de ter formações em direito, ela é pós-graduada em psicologia positiva aplicada pela Universidade de Lisboa. Como advogada, Tania faz parte da Comissão de Diversidade e Inclusão da OAB-SP.

“Quem não é preto, quem nunca sofreu racismo – e eu ainda tenho privilégio de ser negra de pele clara, então eu ainda tive alguns privilégios que uma mulher negra de pele retinta não tem – não sabe o que é isso. “Por outro lado, a reação à fala de Junqueira não significa ignorar os pontos positivos do banco e admirar o trabalho do Nubank e da empresária, afirma Tania. “A Cristina Junqueira fez isso sem querer, ela não faria isso propositalmente. Ela é uma pessoa digna, uma empresária. Eu reconheço muito a capacidade dela, não a menosprezo, muito pelo contrário. Mas hoje em dia, é preciso olhar para esse viés do inconsciente, da narrativa”.

Boicote ao Nubank

Embora fosse questionado sobre o número de cancelamentos de contas após a fala de Junqueira, o Nubank disse não revelar esses dados.

“Nossos dados de cancelamentos são confidenciais. Neste momento, estamos dedicados a desenhar nossa agenda real com ações concretas e ambiciosas sobre diversidade racial”, afirmou a assessoria.

O Nubank divulgou uma carta de desculpas sobre a fala da cofundadora, reforçando o compromisso com a questão racial e a reestruturação de planos da empresa.

“Ficamos acomodados com o progresso que tivemos nos nossos primeiros anos de vida que se refletia em algumas estatísticas relativas à igualdade de gênero e LGBTQIA+, por exemplo, que, repetidas, mascaravam a necessidade urgente de posicionamento ativo também na pauta antirracista. Deixamos de nos questionar. Ignoramos o grande caminho que ainda tínhamos pela frente (…) Perdemos a humildade”, diz o comunicado. Leia a carta completa do Nubank aqui.

Tania Sanches afirmou na entrevista que a repercussão negativa pode trazer muito progresso à fintech. “O que aconteceu foi bom para o Nubank, para melhorar essa pauta, esse letramento. Às vezes a gente tem que errar, descer alguns degraus para a gente subir com toda a força. E é isso que eu desejo para o Nubank e para todas as empresas que estão trabalhando para fazer um melhor país para os nossos netos no futuro”, diz Tania, que apresenta diariamente um podcast disponível no Spotify sobre desenvolvimento pessoal, o Chá Positivo.

Além disso, a advogada também afirmou que “nunca dirá nunca” sobre se vai reabrir sua conta no Nubank. Mas ela espera para ver quais serão os próximos movimentos que serão tomados pela fintech em favor da diversidade e inclusão racial.

Sobre o letramento racial, a advogada recomenda a leitura de obras de Djamila Ribeiro, Sílvio de Almeida e Laurentino Gomes. “Hoje em dia, estamos com uma gama de conhecimento na internet. Não dá mais para falarmos besteiras, principalmente sobre o racismo”.

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Fonte: IG.

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